Contra a verdade não temos poder algum; temo-lo apenas em prol da verdade. (II Coríntios 13,8)
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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Foi mesmo a 25 de Dezembro



Durante muito tempo ouvimos dizer que ninguém sabia a data em que nasceu o Menino Jesus. A data de 25 de Dezembro teria sido “baptizada” pelos cristãos romanos por se celebrar naqueles tempos a festa pagã do sol invicto. Assim como o sol que parecia ser derrotado, engolido pela escuridão da noite que se alongava, afinal se reanimava tomando forças de modo a ir crescendo e vencendo a obscuridade de modo semelhante a Luz que é Jesus Cristo, que foi coberta pela escureza sombria da morte ressuscitou derrotando as trevas do pecado. A verdade porém é que aquela festa se comemorava a 21 de Dezembro e não a 25. Por outro lado a Igreja primitiva, em particular as orientais, pouco tempo após a morte e Ressurreição de Jesus, começou a solenizar o nascimento do Deus humanado na noite de 25. Contra isto se levantaram vozes de alguns exegetas modernos que, apesar de não acreditarem na existência dos Anjos, negaram essa possibilidade porque, sempre segundo eles, não era possível que os Anjos aparecessem numa noite invernosa a pastores que guardassem rebanhos, pois estes teriam necessariamente recolhido aos apriscos. Esta protestação, no entanto, ignora as normas rituais de pureza que então vigiam. Naquele tempo, em Israel, havia três tipos de ovelhas: as brancas, as malhadas e as pretas. As primeiras, consideradas puras, depois do pato, podiam recolher ao redil situado na povoação ou na cidade; as segundas, em virtude da lã preta entremeada com a branca, podiam, pela tarde, abrigar-se num curral, mas este teria de estar apartado de qualquer centro habitacional; finalmente, as negras, consideradas impuras, não gozavam do privilégio das outras mas tinham de permanecer dia e noite, de Verão e de Inverno, nos descampados acompanhados dos pastores que se revezavam continuamente. É bem de ver que as ovelhas negras prefiguravam aqueles pecadores que são, segundo as palavras do próprio Jesus, motivo da Sua vinda, pois veio a salvar o que estava perdido.

Já no século I a Igreja celebrava a Anunciação do Anjo a Zacarias, pai de S. João Baptista, a 23 de Setembro, e o nascimento deste a 24 de Junho. A descoberta dos manuscritos do Mar Morto e as investigações subsequentes nas grutas circundantes que levaram ao achamento de rolos manuscritos em muito bom estado veio confirmar, com o livro dos jubileus, esta antiga tradição da Igreja. De facto, por este manuscrito ficamos a saber que a semana em que entravam de serviço, no Templo, os Sacerdotes da classe de Abias, à qual pertencia Zacarias, tinha o seu início a 23 de Setembro e terminava a 30 do mesmo mês. Acrescentando 9 meses temos o 24 de Junho. Ora, pelos Evangelhos, nós sabemos, que logo após a Anunciação do Anjo à sempre Virgem Maria, portanto da Encarnação do Verbo no seu seio, ela se dirigiu “à pressa” para auxiliar sua prima Santa Isabel, grávida de seis meses (“ … já está no sexto mês aquela que é tida por estéril” – Lc 1, 37), que vivia a três dias de jornada. Seis meses depois da última semana de Setembro é a última semana de Março. A Igreja celebra a Encarnação de Jesus, Deus filho, acontecida aquando da Anunciação do Anjo, por virtude do Espírito Santo, a 25 de Março. Ora 25 de Dezembro é 9 meses depois de 25 de Março.

Como o Deus Criador e o Redentor, ou Salvador, são um único e mesmo Deus, o único Deus verdadeiro, compreende-se que tenha querido nascer na proximidade relativa do solstício de Inverno e que o Seu precursor, que disse de si mesmo “é preciso que eu diminua para que Ele cresça”, nascesse no solstício de Verão.

Nuno Serras Pereira

22. 12. 2009


Fonte: Logos.

Aula sobre o problema da verdade com o prof. Orlando Fedeli

Parte 01/09:

Parte 02/09:

Parte 03/09:

Parte 04/09:

Parte 05/09:

Parte 06/09:

Parte 07/09:

Parte 08/09:

Parte 09/09:

Fonte: Legado Montfort

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

CNBB divulga Declaração sobre o direito à objeção de consciência

em 24/09/2009 13:46:01 (121 leituras)

A Presidência da CNBB divulgou hoje uma declaração a respeito do direito à objeção de consciência afirmando que é direito de toda pessoa “manifestar sua objeção de consciência frente a tudo o que contraria as exigências da ordem moral, os princípios e valores éticos e a fé professada, de modo que ninguém, por tal motivo, possa ser punido ou forçado a agir de modo contrário àquilo que a consciência o move a fazer”.


A Declaração foi divulgada após a reunião do Conselho Episcopal de Pastoral da CNBB (Consep), que terminou no final da manhã desta quinta-feira.


Leia a íntegra da Declaração.



Declaração sobre o direito à objeção de Consciência


“A consciência é o núcleo secretíssimo e o sacrário do homem, onde ele


está sozinho com Deus e onde ressoa sua voz” (Gaudium et Spes 16).



Em nome dos Bispos do Conselho Episcopal de Pastoral da CNBB, reunidos em Brasília, nos dias 22 a 24 de setembro de 2009, desejamos expressamos nossa solidariedade a todas as pessoas que se empenham na defesa e promoção da vida humana em todas as fases de seu desenvolvimento, sobretudo, daqueles seres sem nenhuma possibilidade de defesa.


Em nossa sociedade, marcada por tantas e tão contrastantes concepções acerca do ser humano e de sua dignidade, todos os que se propõem a assumir o compromisso de promover a justiça e defender a vida, certamente, enfrentarão muitas resistências e objeções. Movidos pelos ideais cristãos e empenhados na nobre e grave causa da defesa da vida, não nos é permitido ceder a qualquer tipo de pressão ou arrefecer nosso ânimo frente às dificuldades que continuamente enfrentamos.


É direito de toda pessoa manifestar sua objeção de consciência frente a tudo o que contraria as exigências da ordem moral, os princípios e valores éticos e a fé professada, de modo que ninguém, por tal motivo, possa ser punido ou forçado a agir de modo contrário àquilo que a consciência o move a fazer. Em certas ocasiões, com destemida firmeza, é necessário dizer: “É preciso obedecer antes a Deus que aos homens” (At 5,29).


Brasília – DF, 24 de setembro de 2009



Dom Geraldo Lyrio Rocha


Presidente da CNBB


Arcebispo de Mariana



Dom Luiz Soares Vieira


Arcebispo de Manaus


Vice-Presidente da CNBB



Dom Dimas Lara Barbosa


Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro


Secretário Geral da CNBB



Fonte: cnbb

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A conseqüência das respostas na educação dos filhos



Pergunta uma criança aos seus pais verdadeiramente Católicos.

Filho: Mamãe, por que eu nasci?
Mãe: Meu filho, você é lindo fruto do amor que existe entre seu papai e a mamãe.

Filho: E de onde eu vim?
Mãe: Você foi criado por Deus, que tanto nos ama e nos criou do nada, por amor.

Filho: E para onde eu vou?
Mãe: Tudo depende, se você meu amor for um bom menino, você ira ser recompensado e ira para o céu morar junto de Deus e os santos, mas se for um mau menino, sem educação, irá para o inferno bem longe de Deus onde se é castigado por ter sido um mau garoto.

(foto de Santa Teresinha com suas irmãs no carmelo, exemplo de família católica)
Filho: Ah! E mamãe Deus ama agente?
Mãe: Sim meu querido, o amor da mamãe com o papai é muito pequenininho perto do amor de Deus, ele nos ama muito mais, premia os bons com o céu e os maus com o inferno, e para salvar os homens deu em um sacrifício muito grande o único filho que Ele tinha para mostrar como nos ama.

Filho: Ah mamãe que bom eu quero ser sempre um bom garoto para poder agradar a Deus!


E uma família moderna de pais bem avançados que não querem caretices e acham que os mitos do mundo moderno são verdades...Uma criança faz as mesmas perguntas.

Filho: Mãe, por que eu nasci?
Mãe: O preservativo estourou, não queríamos mais ter filhos, já tínhamos um e não planejávamos ter mais, você foi um acidente!

Filho: E de onde eu vim?
Mãe: Ta vendo aquele bicho peludo? É você acho que veio dele, ou algum animal esquisito deu origem a você. Acho que veio do nada de algum animal como um caramujo que evoluiu, algo assim, mas não me enche com isso...

Filho: E para onde eu vou?
Mãe: Pra debaixo da terra, ser comido por bichinhos, e ai tudo se acaba.

Filho: Ah! E mamãe Deus ama agente?
Mãe: Deus é uma invenção de homens que queria tirar dinheiro do povo, Deus é uma farsa... Não existe amor verdadeiro tudo gira em torno do dinheiro dos bens e riquezas, vence o mais forte.


Filho:.....


Bem é claro que o fruto desse tipo de educação que se tem na escola e em casa, muitas vezes, vão ser [formadas por] homens sem nenhuma moral ou qualquer tipo [de] amor, sem saber que o evolucionismo, o materialismo são mitos que nem cientificamente se sustentam, gerando indivíduos egoístas, que não medem consequências para chegarem onde querem, fazem tudo que lhes cabe com a mínima moral e um sentido anti-religioso, que mais tarde podem vir a serem pessoas que apoiarão ditaduras anti-católicas, ou que irão deturpar toda a história, é claro que muito da crise do mundo moderno se explica por isso. Homens sem valores que fazem uma sociedade violenta, sem sentido e sem rumo, a não ser o próprio abismo da barbárie que a Igreja durante milênios fez os homens desviarem e progredirem.

Fonte: nemodixit.blogspot.com [com correções]

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Catolicidade

Pelo Pe. Álvaro Calderón.

La Reja. Argentina.

Católico e ecumênico são dois adjetivos de origem grega que, se olharmos no dicionário, têm o mesmo significado: universal. Possuem, contudo, matizes distintos.

Católico vem de katá hólos, algo assim como “em ordem à totalidade”, daí que signifique geral, universal. Ecumênico deriva de oíkuméne, “toda a terra habitada”, já que ôikos significa casa. Católico, portanto, significa universal em um sentido mais amplo, menos determinado, enquanto que ecumênico se refere a uma universalidade territorial.

Mas se falamos da catolicidade da Igreja, os significados se aproximam ainda mais. Porque a nota de “católica”, que permite reconhecer visivelmente a Igreja de Cristo, assinala especialmente o fato de que a cristandade se estenderá, sem interrupção, desde os tempos apostólicos até o fim dos séculos, por toda a terra.

Por que chamamos à Igreja, então, “católica” e não “ecumênica”?

Chamamo-la “católica” e não “ecumênica” porque esta qualidade não pertence à Igreja da maneira de algo que se deu de fato e poderia não ter ocorrido assim, como seria possível dizer-se ecumênica à Coca-Cola; senão que é propriedade característica de um ser vivo, a qual provém necessariamente dos princípios de sua natureza, da mesma forma que dizemos que o homem é sociável, já que por sua natureza racional não pode viver e desenvolver-se humanamente sem um mínimo de sociedade.

A Igreja não poderia deixar de instalar-se por sobre toda a terra desde o primeiro impulso da pregação apostólica, “o seu som estende-se por toda a terra, e as suas palavras até às extremidades do mundo” (Sl. 18, 5), por causa da fecundidade e potência do princípio que a anima: o Espírito Santo, que baixou sobre Ela no dia de Pentecostes. A Igreja é divina, e assim como Deus está em todas as partes em potência, presença e essência, da mesma forma está a Igreja. Para expressar algo de tamanha grandeza carecia, portanto, de utilizar o termo que significasse a universalidade em seu sentido mais amplo, referindo-se não só ao fato da difusão geográfica, senão também a seu princípio. No campo católico, até o século XX, não se usava o adjetivo “ecumênico”, exceto para designar os concílios gerais. Os patriarcas gregos cismáticos, sobretudo o de Constantinopla, usurparam-no como título para rivalizar com a universalidade do Papa, Patriarca Romano, autorizando-se para isto na equiparação política que estabeleceu o imperador Constantino entre Roma e Constantinopla.

Até a metade do século passado, os mais abrangentes dicionários do pensamento católico não dizem nada além disso sobre o termo “ecumênico”, não mencionando sequer o neologismo “ecumenismo”[1]. O ecumenismo, tanto a palavra quanto a coisa, apareceu como fruto maduro do protestantismo liberal. “Faz uns cinqüenta anos, – diz em 1947 Yves Congar, que seria um dos principais peritos do Concílio Vaticano II – um fato novo se produziu no mundo da desunião cristã, fato que designa uma palavra nova, o ‘ecumenismo’; o movimento nasceu nos últimos anos do século XIX no seio do protestantismo americano....[como um] impulso em direção à unidade” (“Ecclesia”, Aigran, 1948, pág. 948).

Em 1920 o Patriarca de Constantinopla se associa a este movimento, passando desde então a ser ecumênico em duplo sentido – nem todos sabem da profunda influência dos teólogos do protestantismo liberal entre os ortodoxos.

Em 1928 o Papa Pio XI rechaça e condena com energia o “pan-cristianismo” ecumênico, que assedia o catolicismo liberal, por meio de sua encíclica “Mortalium Animos”. A condenação se repete muitas vezes até que, por justo castigo de Deus à tibieza dos cristãos, o liberalismo conquista o papado com João XXIII. Este Papa entrega o Concílio Vaticano II nas mãos do modernismo, e com o Decreto “Unitatis Redintegratio”, Roma, em flagrante contradição consigo mesma, se incorpora ao anticatolicíssimo movimento ecumênico.

Em que aspecto catolicidade e ecumenismo são comparáveis e em que se contradizem?

O ecumenismo é um movimento de agrupamentos religiosos que buscam conformar-se como partes de uma corporação mundial, sem perder, contudo, sua própria identidade. A catolicidade, dissemos, não é um movimento, mas uma qualidade vital do Corpo Místico de Cristo, qualidade que se traduz em sua inabarcável extensão mundial; não obstante também é o princípio de um movimento constante - o impulso missionário, assim chamado porque é continuação da missão ou mandato que trouxe à terra o Filho de Deus. Logo, o ecumenismo é um impulso cujo fim é a fabricação da nova catolicidade, ao passo que a catolicidade é princípio e fim vital do impulso missionário, que alguns agora chamam “ecumenismo verdadeiro”, o que certamente não convém porque, como vimos, a palavra é propriedade intelectual do pensamento liberal.

Em suma, como se deve comparar somente coisas do mesmo gênero, o moderno ecumenismo deve contrastar-se com o tradicional movimento missionário, produto da catolicidade da Igreja.

Como ecumênico e missionário são movimentos de incorporação, há de se comparar o princípio que obra, a matéria que utiliza, a transformação que produz e o termo que alcança.

O movimento missionário de incorporação ao Corpo Místico é semelhante ao processo de alimentação de um corpo vivo. Os princípios que obram a nutrição e o crescimento são as potências da alma que vivificam o corpo; o alimento, salvo exceção, é sempre uma substância de ordem inferior: os vegetais se alimentam de minerais, os animais de vegetais e o homem de tudo, menos de homens. A transformação que sofre o alimento é tripla: dissolução dos componentes elementares, assimilação dos elementos nutrientes e expulsão dos dejetos; e o final não é algo superior, senão a reconstituição do mesmo vivente.

Algo parecido ocorre na Igreja através das missões. O princípio que as anima é totalmente divino: é a potência do Espírito Santo, alma da Igreja desde o dia de Pentecostes. A matéria ou alimento das missões são todos os povos da terra: “Ide, pois, ensinai todas as gentes” (Mt. 28, 19), instituições humanas de ordem totalmente inferior à divina Igreja.

Agora bem – e este é o ponto que convém sublinhar – para poder assimilar os elementos nobres que em cada nação se possa achar, não só pessoas e famílias, mas também disposições morais e sociais e valores culturais, a Igreja deve sempre dissolver em menor ou maior grau as estruturas, sistemas e instituições que se encontram conformados; sobretudo deve acabar com os sistemas religiosos, que são sempre como a forma última que engloba e penetra as demais. A razão é simples: fora da Revelação e da influência da graça, o princípio que em menor ou maior grau anima a constituição dos povos é Satanás, príncipe deste mundo.

Nos povos de civilização greco-latina foi muito o que a Igreja pôde assimilar. Nos povos bárbaros e americanos, pouco; entretanto, assim como uma maçã não pode alimentar se não é mastigada até que deixe de ser maçã, tampouco a família romana ou a sabedoria grega – para dar exemplos do melhor – podiam tornar-se cristãs sem que antes se travasse contra elas uma guerra de morte: os filhos santificados tiveram de desafiar uma autoridade paterna que usurpava os direitos de Deus, e os Santos Padres lutaram contra uma razão que não queria submeter-se à Revelação.

Somente depois desta tarefa de demolição podiam eleger as boas pedras para a nova edificação. Porém, a força do Espírito de Cristo é capaz de vencer toda resistência: “Tende confiança, eu venci o mundo” (São João 16, 33); e a Igreja é católica, pois não há nação da terra que ela não seja capaz de incorporar. Por outro lado, o ecumenismo é um movimento de incorporação por meio de associação de semelhantes. O princípio que o move não é uma forma ou alma presente, senão um fim futuro que todos almejam; a matéria são partes ou sujeitos da mesma ordem; a transformação que devem sofrer para associar-se é acidental, de maneira que não perca cada sócio a sua identidade; e o final é algo superior a qualquer dos componentes. Pressupõe o pensamento liberal, contra toda a experiência da história e o senso comum, que as religiões podem ter uma vida independente da ordem política, como parece ter sido demonstrado no democrático paraíso americano (tenha-se em mente que a idéia do ecumenismo só poderia dar certo ali).

Afirma também, é claro, que a inteligência do homem não pode adequar-se de maneira única ao real, isto é, pressupõe o pluralismo da verdade, de modo que os credos de cada religião são como as constituições dos estados: cada um é bom para aquela que o possui e não tem sentido discutir qual é melhor.

Outorgados os pressupostos, segue-se o princípio motor do ecumenismo: todas as religiões trabalham, umas mais outras menos, pela constituição do Reino de Deus, reino escatológico cuja realização histórica tem a pretensão de se concretizar só no final dos tempos, porque o princípio e fundamento do liberalismo estabelecem que o reinado de Deus não pode ser político.

Segundo a doutrina católica até antes do último Concílio – com vigência de apenas dois mil anos – é a Igreja que estabelece desde agora na terra o Reino de Deus, cada vez que incorpora em seu seio um povo e o conforma de acordo com as leis do Evangelho.

Mas o Vaticano II refletiu e descobriu que a Igreja...

...não devia imiscuir-se tanto nos regimes políticos, já que o Reino de Deus pertence necessariamente ao futuro, e Ela no presente deve limitar-se em ser a semente desse reino: “A Igreja (...) constitui o germe e o princípio deste mesmo Reino na terra” (“Lumen Gentium”, 5).

Outro descobrimento conciliar: “as Igrejas e Comunidades Separadas, embora creiamos que tenham defeitos, de forma alguma estão despojadas de sentido e significação no mistério da salvação. Pois o Espírito de Cristo não recusa servir-se delas como de meios de salvação” ("Unitatis Redintegratio" , 3).

Até a véspera do Concílio, as religiões eram a diabólica crosta que impedia a assimilação das gentes no seio da Cristandade; doravante são sócias e companheiras na obra da Redenção.

Ai Senhor! que amigas para Vossa Igreja! A cismática Ortodoxia, fundada na negação de Vosso Vicário; a herética Reforma, fundada no rechaço de Vossos sacerdotes; a satânica Sinagoga, fundada no ódio a Vossa Pessoa!

Terceira novidade: “A única Igreja de Cristo (...) subsiste na Igreja católica” [Haec est unica Christi Ecclesia... subsistit in Ecclesia catholica] (“Lumen Gentium”, 8). Os católicos antes estavam convencidos de que a Igreja Católica era, sem discussões, a Igreja de Cristo, e por tanto os missionários davam seu sangue para incorporar os povos em seu seio, única Arca de Salvação. Mas agora parece que a Igreja Católica é só parte de algo maior, uma Igreja de Cristo (será Dele?) que inclui também as demais religiões em uma espécie de grande confederação. Assim como o Verbo – sugere-nos a “Lumen Gentium” – só subsiste na natureza humana de Cristo pelo mistério da incarnação, mas não deixa de fazer-se presente pela graça nos demais homens, assim também a Igreja de Cristo somente subsiste na Igreja Católica, no entanto não deixa de estar presente nas outras Igrejas e Comunidades, compondo com todas seu Corpo Místico. Muito lindo, mas é de um católico arrancar os cabelos: a Igreja Católica não é a Igreja de Cristo, e nem uma nem outra o Reino de Deus!

A confissão do Cardeal Kasper a respeito do ecumenismo

Concluindo, “não se creia que o ecumenismo seja suficiente, diz o Cardeal Kasper, se não se buscar a conversão ao catolicismo. A nova catolicidade consiste em todas as religiões, em todas as partes, aprendendo a viver nos mesmos edifícios, unidas em diálogo fraterno para buscar o futuro Reino da Paz.”

“Não temam os ortodoxos hospedar católicos em seu território, pois hoje em dia não há de se temer a agressividade dos antigos missionários; vejam como gradativamente franqueamos as portas ao protestantismo na América Hispânica e, na Europa, ao Islã. Todavia, no final dos tempos, o único reino universal que está profetizado, outro que não a Igreja Católica, é o frágil e momentâneo do Anti-Cristo.”

Muito é de se temer que o movimento liberal e maçônico do ecumenismo - leitmotiv do Concílio Vaticano II e do pontificado de João Paulo II! - esteja preparando espiritualmente seu advento, já que inibe a potência da catolicidade da Igreja na pregação do pluralismo, sofisma negador da unicidade e da evidência da Verdade que é Cristo.

Traduzido por Permanência.

Originalmente publicado em IESUS CHRISTUS Nº 93
Fonte: www.statveritas.com.ar



[1] Cfr. DTC, Enciclopedia de la Religión cristiana e Enciclopedia Universal Espasa Calpe.


Fonte: www.permanencia.org.br

sábado, 1 de novembro de 2008

Autoridade e “autoridades”

Sidney Silveira

Qualquer principiante no estudo da obra de Santo Tomás sabe que o argumento de autoridade não vale nada, razão pela qual não devemos escorar-nos em uma autoridade humana como se isto nos garantisse a posse da verdade, pois “não importa quem diz, mas a validade do que se diz”. As únicas autoridades que o Doutor Angélico aceita são a da Sagrada Escritura e a do Magistério da Igreja; aquela porque foi revelada, e este porque foi participado pelo próprio Cristo e, portanto, não pode errar em artigos de fé e doutrina, dada a sua origem divina. [“Ide e ensinai a todas as nações”, cf. Mateus, XXVIII, 19]

Esse Magistério da Igreja participado pelo próprio Cristo sempre possuiu órgãos autênticos e órgãos subsidiários. Vejamos alguns deles, seguindo de perto a enumeração do Padre Álvaro Calderón, um simples teólogo (e, como veremos, um teólogo não tem autoridade magisterial, embora possa ter alguma autoridade teológica, se porventura não contraria o Magistério).

1- ÓRGÃOS AUTÊNTICOS DO MAGISTÉRIO

A) O Papa, no qual reside a suprema autoridade apostólica. Aqui, há uma divisão que deve ser feita:

a.1) O Papa sozinho;
a.2) O Papa e os Bispos reunidos em Concílio.

B) Os Bispos em comunhão com o Papa, mestres ex officio da suprema autoridade apostólica. Distingamos, também aqui, as situações.

b.1) Os Bispos dispersos pelo mundo, quando fazem uma declaração comum acerca de algum aspecto da doutrina revelada (e não sobre política ou outro assunto qualquer);
b.2) Os Bispos sozinhos, no âmbito de suas dioceses.

2- ÓRGÃOS SUBSIDIÁRIOS DO MAGISTÉRIO

A) Papais: Congregações Romanas, Comissões Pontifícias, Delegados Apostólicos, etc. Aqui também há distinções, pois esses órgãos em geral são compostos por:

a.1) Teólogos e peritos em ciências eclesiásticas;
a.2) Catequistas.

B) Episcopais: Conselhos de Presbíteros, Comissões Diocesanas, Curas, Párocos, etc.

b.1) Aqui também se encontram, na base, os simples fiéis, os pais de família e os peritos em ciências naturais que possam auxiliar a defesa da fé — caso, por exemplo, do biólogo norte-americano Michael Behe, que, com o seu conceito de complexidade irredutível, refutou, em seu foro científico específico, a teoria evolucionista. Mas esta é uma conversa para outro post.

Como vimos, um teólogo não tem autoridade magisterial nem em sentido pleno (que só o Papa possui) nem de modo não pleno (caso dos Bispos), pois a sua tarefa é subsidiária; por isso, se ele contraria a regra próxima e necessária da fé (ou seja, o Magistério infalível, tanto ordinário [pois o há, em alguns casos] como extraordinário), não só não possui autoridade magisterial, mas sequer possui a mínima autoridade teológica. O bom mesmo é que seja refutado, para que os seus erros não se propaguem e contaminem a fé, pondo em risco a salvação das almas — caso, por exemplo, do teólogo suíço Urs von Balthasar, que afirmara desgraçadamente que o inferno está vazio, ou melhor: está cheio de pecados, mas não de pecadores (sic.). Ou ainda o caso de teólogos que afirmam que o inferno não é um lugar, mas um estado. A teólogos defensores de tais “teses”, o Papa atual, Bento XVI, em recente alocução na Praça de S. Pedro, bem no começo da Quaresma deste ano (em 08/02), deu uma bela e firme resposta, ao dizer com todas as letras e com a sua autoridade: O inferno está cheio e é um lugar!

Aqui vale perguntar: no que se refere a qualquer artigo de fé, vale mais o parecer do Papa — no qual reside a autoridade apostólica de modo pleno — ou o de um teólogo, que, como mostramos, trabalha em algo importante, mas absolutamente subsidiário?

Ademais, nunca é demais lembrar que hoje há teólogos de todas as linhas e sabores: há por exemplo os que defendem o poligenismo (ou seja: afirmam que não existiram Adão e Eva, mas uma multidão de primeiros pais — tese que torna o pecado original teologicamente irresolvível, pelos problemas que traz) e o naturalismo (estes excluem a causa sobrenatural e afirmam coisas verdadeiramente portentosas, como por exemplo a seguinte: o Mar Vermelho foi dividido por um fenômeno natural ocorrido no exato momento em que Moiséis dizia dividi-lo — o que é, na verdade, incrível, literalmente).

Portanto, aconselho a todos os vários amigos — antigos e recentes — que nos têm brindado com visitas cotidianas ao blog: estudem com grande afinco, e continuamente, o Magistério da Igreja e os Santos Doutores (que aliás assim o foram proclamados pelo próprio Magistério!), antes de dar crédito a qualquer teólogo, por mais criativo e erudito que pareça ser.

sábado, 11 de outubro de 2008

Nosso Primeiro Folheto Catequético

Como parte do nosso trabalho de divulgação da Doutrina da Igreja, visando um maior esclarecimento dos católicos e da sociedade acerca da mesma, o Grupo Veritas passará a publicar Folhetos Catequéticos. O primeiro tema escolhido foi a Santa Missa mais precisamente acerca da transubstanciação.

Inicialmente, os Folhetos serão distribuídos nas missas e encontros de grupos e pastorais da Paróquia Cristo Libertador (onde a maioria dos membros do Veritas reside). O lançamento oficial dos mesmos será na próxima reunião extraordinária do Veritas (dia 19/10/2008).

Quem desejar baixar, a versão digital do Folheto está disponível no link abaixo:

Santa Missa - Parte I

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Milagre: o que é?

por Paulo Faitanin - UFF

1. Definição: Por milagre – do latim ‘miraculum’ – entende-se o acontecimento incomum e admirável que causa em algo uma alteração súbita que é inexplicável pelas leis da natureza, com indício de participação divina na vida humana [Dicionário Houaiss da língua portuguesa. 1ª. Edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, verbete – milagre]. Isso não se distancia do que define o Catecismo da Igreja Católica , nº 2003 que afirma ser o milagre um dom – uma graça – extraordinário que o Espírito Santo concede ao homem para a sua justificação e salvação.

2. Natureza: O milagre é uma graça – em latim ‘gratia’ e em grego ‘charis’ – dada gratuitamente – dom – pela qual se produz um efeito sobrenatural [STh. II-II, q. 178, a.1, c.]. Segundo Tomás de Aquino, o amor de Deus causa a bondade do objeto; ora, o amor de Deus pelo homem causa-lhe a bondade; a graça é justamente o amor de Deus por nós, enquanto causa em nós o que lhe é agradável: o bem [STh. I-II, q. 110, a. 1, c. e ad. 1]. Ora, se toda graça provém do Espírito Santo, o dom do milagre, que é uma graça, igualmente provém d’Ele. O Espírito é, pois, a origem de toda graça.

3. Tipologia: Mas que tipo de graça é o milagre? Segundo Tomás é conveniente dividir a graça em graça que torna agradável a Deus e graça dada gratuitamente. A graça que torna agradável a Deus é a que une o homem a Deus. A graça dada gratuitamente é a que faz com que alguém ajude o outro a chegar a Deus [STh. I-II, q. 111, a.2, c.]. A graça dada gratuitamente serve para instruir os outros sobre as verdades divinas que ultrapassam a razão [STh. I-II, q. 111, a.4, c.]. Contudo, esta graça dada gratuitamente pode ser operante, quando a graça opera em nós e somos movidos por ela e Deus é o seu único motor. Neste caso, a operação deve ser atribuída a Deus, por isso denomina-se graça operante. Ela é cooperante, quando justamente a operação não é atribuída somente a Deus, senão também à alma [STh. I-II, q. 111, a.2, c.]. Neste aspecto, a graça do milagre pode ser tanto uma graça operante, quando Deus opera por nós o milagre, quanto uma graça cooperante, quando Deus opera conosco o milagre. Ora, como a graça causa cinco efeitos em nós: curar a alma; querer o bem; tornar eficiente para fazer o bem; perseverar no bem e conduzir à glória [STh. q. 111, a.3, c.], o primeiro efeito da graça em nós é preveniente e o segundo que se segue deste é subseqüente. Isso significa que o milagre é uma graça eficiente, porque produz muitos efeitos correlatos ao principal. Em qualquer caso, o milagre é uma graça dada gratuitamente por Deus a nós, por cujo efeito sobrenatural o homem é levado a um certo conhecimento sobrenatural das coisas da fé, para que o homem se volte mais prontamente para Deus [STh. II-II, q. 178, a.1, c.].

4. Graça e Natureza: É conhecida a sentença de Agostinho, retomada por Tomás, que afirma que a graça supõe a natureza. Sendo assim, o milagre, que é uma graça extraordinária, não faz na natureza o que seja contraditório a ela, mas o que a natureza, naquela ocasião em que ocorre o milagre, em sua condição e por si mesma, não reúne as possibilidades de fazer sob aquelas circunstâncias. Mas isso não significa dizer que há um limite do poder de Deus, de fazer na natureza o que ela não comporta. Isso Ele pode, se não contradiz a natureza. Deste modo, nenhum milagre, enquanto princípio sobrenatural da graça, contradiz a lei que rege a natureza. Se houvesse contradição, a graça não poderia atuar na natureza. Pode ocorrer, no entanto, que o homem em sua condição limitada de conhecimento, desconheça as razões da natureza, sobre as quais atuem a graça. Isso faz parecer-lhe que o milagre contradiz a natureza. O que ocorre é que o milagre transcende a natureza, mas não na medida em que se lhe opõe, mas enquanto atua segundo a sua ordem, o que pode ser desconhecido para nós. Por isso, o milagre não é a realização do impossível para a natureza, enquanto isso fosse a contradição. Como ensina Tomás: “o impossível que se diz com relação a alguma potência pode ser considerado de dois modos. Um modo por causa do defeito da própria potência, em razão de si mesma, porque de alguma maneira não pode estender-se a aquele efeito, quando um agente natural não pode modificar alguma matéria. Outro modo, a partir de algo extrínseco, quando a potência de algo está impedida ou limitada. Assim, portanto, diz-se que algo é impossível de ser feito de três maneiras: uma maneira, por causa do defeito da potência ativa, seja na modificação da matéria ou qualquer outro motivo; outra maneira por causa de algo que resista ou impeça; terceira maneira por causa disso que se diz que é impossível de ser feito, porque não pode ser término da ação” [De potentia, q.1, a.3, c.]. E conclui o Aquinate, na mesma obra, ao dizer: “Logo, as coisas que são impossíveis para a natureza, conforme a primeira e a segunda maneira, Deus as pode fazer, porque sua potência que é infinita não padece nenhum defeito, nem há matéria que Ele não possa livremente mudá-la; pois ela não pode resistir à sua potência. Ora, o que se diz que é impossível, segundo a terceira maneira, Deus não pode fazê-las, porque Deus é maximamente ato e principalmente ser. Por isso sua ação não pode dirigir-se senão principalmente ao ente e não consequentemente ao não ente. E por isso não pode fazer que a afirmação e a negação simultaneamente sejam verdades, nem aquelas coisas nas quais se inclua esta impossibilidade. Não se diz que não possa fazer isso por causa do defeito de sua potência, mas por causa do defeito de possibilidade daquilo que carece do caráter do possível; por causa disso alguns preferem dizer que Deus pode fazer algo, mas algo não pode ser feito”. Assim, pois, fica claro que o milagre é o que realiza algum efeito na natureza, que seria impossível de ser realizado pela própria natureza, na medida em que se entende esta impossibilidade não como uma contradição, mas como defeito da própria potência da natureza, em razão de si mesma, porque de alguma maneira não pode estender-se a aquele efeito ou porque a sua potência está impedida ou limitada por algo extrínseco. Por tudo isso, o milagre não contradiz as leis essenciais da natureza, mas se realiza para além das circunstâncias ordinárias em que se aplicam tais leis, porque tais circunstâncias são sempre acidentais; por isso mesmo, o milagre causa um efeito extraordinário e nos dá a impressão, pela maravilha que causa, que é algo inclusive contraditório à lei da natureza. Mas se a graça supõe a natureza, a lei da graça não pode contradizer a lei da natureza. E dada a ignorância humana acerca de alguma lei da natureza, o milagre parecerá ainda mais maravilhoso aos olhos de quem o testemunha. Por isso, nada impede que o milagre siga algumas leis da natureza que conhecemos e, por outras vezes, pareça não seguir, como quando se realiza instantaneamente e não captamos a lei natural que o explique.

5. Conclusão: O milagre é, portanto, uma graça dada gratuitamente pela onipotência divina [STh. II-II, q. 178, a.1, ad. 1], que produz um efeito sobrenatural na natureza, por cujo dom se faz com que alguém - algum santo - ajude o outro pelo testemunho do milagre realizado por Deus, a chegar a Deus [STh. I-II, q. 111, a.2, c.], sejam estes efeitos sinais, prodígios, portentos ou virtudes [STh. II-II, q. 178, a.1, c.], como o milagre da cura, profecia, línguas, ubiqüidade, estigmas, levitação, sinais e prodígios astronômicos, expulsão de demônios e ressurreição [STh. II-II, q. 178, a.1, ad. 1 e ad. 4]. A causa e a autoria é a onipotência divina, seu objeto é tudo o que pode ser feito sobrenaturalmente, sua finalidade é a salvação do homem, seus instrumentos são tanto a alma (intenção), como o corpo humano (atos) e tudo o mais que providencie o poder divino. Deus pode inclusive valer-se dos maus para manifestar a sua bondade, como valer-se de homens maus ou demônios, para realizar milagres [Super Evang. S. Ioannis. c. X, lec. 5, n. 1431] . De fato, os anjos, nem os bons e nem os maus, têm o poder para fazê-lo por contra própria, senão só pelo consentimento e poder divinos. Contudo, os demônios, para enganar e afastar os homens de Deus, fazem parecer aos homens serem capazes de realizarem milagres, seja enganando os sentidos dos homens ou incitando sua imaginação, fazendo parecer fazer algo que na realidade não fazem; fazem inclusive algo que podem fazer, segundo a sua potência, sendo tais sinais verdadeiros, mas não são verdadeiros milagres e nem graça o que fazem e nem a finalidade é converter o homem a Deus [STh. II-II, q. 178, a.2, c.].

Fonte: Aquinate

domingo, 31 de agosto de 2008

Julgais que Eu vim estabelecer a paz na terra?

PAPA BENTO XVI

ANGELUS

Castel Gandolfo, 19 de Agosto de 2007

Queridos irmãos
e irmãs!

Há uma expressão de Jesus, no Evangelho deste domingo, que atrai sempre a nossa atenção e exige ser bem compreendida. Enquanto está a caminho de Jerusalém, onde o espera a morte de cruz, Cristo revela aos seus discípulos: "Julgais que Eu vim estabelecer a paz na terra?" E acrescenta: "Daqui por diante estarão cinco divididos numa só casa: três contra dois e dois contra três; dividir-se-ão o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra" (Lc 12, 51-53). Quem conhece um pouco o Evangelho de Cristo, sabe que é mensagem de paz por excelência; o próprio Jesus, como escreve São Paulo, "é a nossa paz" (Ef 2, 14), morto e ressuscitado para derrubar o muro da inimizade e inaugurar o Reino de Deus que é amor, alegria e paz. Como se explicam então estas suas palavras?

A que se refere o Senhor quando diz que veio trazer segundo a redacção de São Lucas a "divisão", ou segundo a de São Mateus a "espada" (Mt 10,34)?

Esta expressão de Cristo significa que a paz que Ele veio trazer não é sinónimo de simples ausência de conflitos. Ao contrário, a paz de Jesus é fruto de uma luta constante contra o mal. O confronto que Jesus está decidido a enfrentar não é contra homens ou poderes humanos, mas contra o inimigo de Deus e do homem, satanás. Quem quer resistir a este inimigo permanecendo fiel a Deus e ao bem deve necessariamente enfrentar incompreensões e às vezes verdadeiras perseguições.

Por isso, quem deseja seguir Jesus e comprometer-se sem hesitações pela verdade deve saber que encontrará oposições e se tornará, infelizmente, sinal de divisão entre as pessoas, até no interior das suas próprias famílias. O amor aos pais é um mandamento sagrado, mas para ser vivido de modo autêntico nunca pode ser anteposto ao amor de Deus e de Cristo. Deste modo, seguindo as pegadas do Senhor Jesus, os cristãos tornam-se "instrumentos da sua paz", segundo a célebre expressão de São Francisco de Assis. Não de uma paz inconsistente e aparente, mas real, perseguida com coragem e tenacidade no compromisso quotidiano por vencer o mal com o bem (cf. Rm 12, 21) e pagando pessoalmente o preço que ela exige.

A Virgem Maria, Rainha da Paz, partilhou até ao martírio da alma a luta do seu Filho Jesus contra o maligno, e continua a partilhá-la até ao fim dos tempos. Invoquemos a sua protecção materna, para que nos ajude a ser sempre testemunhas da paz de Cristo, sem nunca descer a compromissos com o mal.

* * *

(...)

Fonte: Vaticano

terça-feira, 19 de agosto de 2008

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

A Dominus Iesus e as religiões (parte II)

VATICANO - “A Dominus Iesus e as religiões” de Dom Angelo Amato, Arcebispo Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé (segunda parte)

Cidade do Vaticano (Agência Fides) - Graças à gentil concessão do “L’Osservatore Romano”, a Agência Fides publica o texto integral do Discurso do Ano Acadêmico 2007-2008 do Instituto Teológico de Assis, proferida por Dom Angelo Amato, Arcebispo Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, sobre o tema “A Dominus Iesus e as religiões”. A tradução foi realizada pela Agência Fides, e não foi revista pelo Autor.

A Declaração “Dominus Iesus” (2000) A dez anos de distância, ainda hoje é válida a afirmação da Comissão Teológica Internacional, que em seu documento “O Cristianismo e as religiões” (1997), afirmava: “a teologia das religiões não apresenta ainda um estatuto epistemológico bem definido” (“A Civilização Católica”, 148 (1997), I, p. 4). Em todo caso, sua finalidade é a interpretação das religiões à luz da Palavra de Deus e na perspectiva do mistério salvífico de Cristo e da Igreja.

Entre os vários modelos propostos - substancialmente três: exclusivista, inclusivista e pluralista — é teologicamente plausível o chamado modelo inclusivista, sugerido nos textos do Vaticano II (cfr Lumen gentium, n. 16-17; Ad gentes, n. 3, 7, 8, 11, 15; Nostra aetate, n. 2; Gaudium et spes, n. 22).

Este modelo apresenta um horizonte cristocêntrico-trinitário, com Jesus mediador de salvação para toda a humanidade (cfr Atos dos Apóstolos, 4, 12; 1 Timóteo, 2, 4-6). Esta interpretação, porém, é contestada pelo modelo pluralista, que, considerando a unicidade cristã um mito, propõe uma teologia pluralista das religiões e nega a universalidade salvífica da redenção cristã. Este modelo se funda substancialmente em dois pressupostos ideológicos: a aceitação do relativismo absoluto, como única possibilidade de expressar a verdade inteira, e a admissão do pluralismo religioso, como único modo de descrever o mistério inefável de Deus.

Em continuidade com o Conciíio Ecumênico Vaticano II e com a encíclica Redemptoris missio de João Paulo II, a Declaração Dominus Iesus (que chamaremos DI) da Congregação para a Doutrina da Fé, publicada durante o Grande Jubileu do Ano 2000, foi uma resposta formal do Magistério da Igreja à teologia cristã do pluralismo religioso, que, fazendo próprio o pensamento frágil da pós-modernidade, colocava em risco verdades de fé centrais do Cristianismo.

A Declaração parte dos dados bíblicos para reafirmar que a missão evangelizadora da Igreja nasce do mandato explícito de Jesus e se realiza na história mediante a proclamação do mistério de Deus Trindade, do mistério da encarnação savífica do Filho de Deus e do mistério da Igreja, sacramento universal de salvação. Estes são, com efeito, os conteúdos fundamentais da profissão de fé contida no Credo niceno-costantinopolitano, ainda hoje recitado na liturgia dominical e nas solenidades. A Declaração concorda com o afirmado por João Paulo II, segundo o qual, esta missão universal, no final do segundo milênio cristão, apesar da fidelidade do Evangelho e da perseverança no anúncio, ainda está distante de se realizar (cfr DI n. 2). É um dado concreto que a humanidade vive em pluralidade de religiões. Outra realidade é que a Igreja católica, embora não rejeitando tudo o que é verdadeiro e santo em outras religiões (Nostra
aetate, 2), não pode faltar à sua missão evangelizadora, da qual faz parte também o diálogo inter-religioso (DI n. 2).

Na prática, e no aprofundamento teórico do diálogo “o perene anúncio missionário da Igreja é hoje ameaçado por teorias de tipo relativista, que visam justificar o pluralismo religioso, não apenas de facto mas também de iure (ou de princípio)” (DI n. 4). E é a estas teorias que se dirige, primeiramente, a Declaração para contestar as premissas e rejeitar as conclusões.

Especificamos que a Declaração foi expressamente aprovada pelo Sumo Pontífice com uma fórmula de especial autoridade: «O Sumo Pontífice João Paulo II (...) com certa ciência e com a sua autoridade apostólica [certa scientia et apostolica Sua auctoritate] ratificou e confirmou esta Declaração (...) e ordenou sua publicação» (DI n. 23). O documento tem, portanto, valor magisterial universal. Não se trata de uma simples nota de orientação. Ele re-propõe verdades de fé divina e católica e verdades doutrinais firmes. Consequentemente, o consenso pedido aos fiéis é de tipo definitivo e irrevocável (veja o pronunciamento do Arcebispo Tarcisio
Bertone no “L\'Osservatore Romano” de 6 de setembro de 2000, p.9).

Ainda no Angelus de domingo, 1o de outubro de 2000, o Santo Padre reiterou explicitamente sua plena aprovação à Declaração: “No auge do ano jubilar, com a Declaração Dominus Iesus — Jesus é o Senhor — aprovada por mim de forma especial, quis convidar todos os cristãos a renovar sua adesão a Ele na alegria da fé, testemunhando unanimemente que Ele é, também hoje e amanhã, ‘o caminho, a verdade e a vida’ (João, 14.6). Nossa confissão de Cristo como único Filho, mediante o qual nós mesmos vimos o rosto do Pai (cfr Giovanni, 14, 8), não é arrogância que despreza as outras religiões, mas feliz reconhecimento porque Cristo se mostrou a nós sem algum mérito nosso. E Ele, ao mesmo tempo, nos comprometeu em continuar a doar aquilo que recebemos e também a comunicar aos outros aquilo que nos foi doado, porque a Verdade doada e o Amor que é Deus pertencem a todos os homens. Com o Apóstolo Pedro, nós confessamos ‘que em nenhum outro nome existe salvação’ (Atos dos apóstolos, 4, 12). A Declaração Dominus Iesus, na esteira do Vaticano II, mostra que com isso, a salvação não é negada aos não-cristãos. Deus doa a luz a todos de modo adequado à sua situação interior e ambiental, concedendo-lhes a graça salvífica percorrendo caminhos que ele já conhece (cfr DI n. 20-21). O Documento esclarece os elementos cristãos essenciais, que não impedem o diálogo, mas mostram suas bases, porque um diálogo sem fundamentos seria destinado a degenerar em verbosidades vazias”. (João Paulo II, Angelus de 1° de outubro de 2000, no «L\'Osservatore Romano» de 2-3 outubro 2000, pp. 8-9).

(2 - continua)

Fonte: (Agência Fides 15/2/2008)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

A Dominus Iesus e as religiões (parte I)

VATICANO - “A Dominus Iesus e as religiões” de Dom Angelo Amato, Arcebispo Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé (primeira parte)

Cidade do Vaticano (Agência Fides) - Graças à gentil concessão do “L’Osservatore Romano”, a Agência Fides publica o texto integral do discurso do Ano Acadêmico 2007-2008 do Instituto Teológico de Assis, proferida por Dom Angelo Amato, Arcebispo Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, sobre o tema “A Dominum Iesus e as religiões”. A tradução em português é de autoria da Agência Fides, e não foi revista pelo Autor.

Em 1990, o Servo de Deus João Paulo II, em sua encíclica missionária Redemptoris missio, afirmou que a missão de Cristo redentor, confiada à Igreja, estava bem distante de sua realização, e que, estava ainda no começo.

E ainda, evocando as palavras de São Paulo — “Anunciar o Evangelho não é glória para mim; é uma obrigação que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!” (1 Coríntios, 9, 16) — relevou que, em suas numerosas viagens, até os confins mais extremos da terra, o contato direto com os povos que não conhecem Cristo o convenceu sempre mais sobre a urgência da missão, que pertence à identidade profunda da Igreja, fundada dinamicamente na própria missão trinitária. Enfim, considerando que a fé se reforça, ao doá-la, definia a missão como o primeiro serviço que a Igreja podia doar aos homens e à humanidade, pois o anúncio da redenção atuada por Cristo mediante a cruz, restituiu ao homem a dignidade e o real sentido de sua existência no mundo.

A missio ad gentes

Todavia, o Pontífice não podia ocultar “uma tendência negativa”, ou seja, que a missão específica ad gentes estava em fase de estagnação: “Dificuldades internas e externas enfraqueceram o impulso missionário da Igreja aos não-cristãos, e este é um fator que deve preocupar todos os cristãos” (Redemptoris missio, 2).

Para enfrentar esta preocupação, ele re-propô,s nos primeiros capítulos da encíclica, três alicerces doutrinais sólidos: 1. o anúncio de Jesus Cristo como salvador único de toda a humanidade, e de sua Igreja como sinal e instrumento de salvação, 2. a realização completa do Reino de Deus em Cristo ressuscitado, 3. a presença do Espírito de Jesus Cristo como protagonista da missão.

Após indicar os imensos horizontes da missio ad gentes, assinalou também os “caminhos” concretos para realizá-las. Antes de tudo, o testemunho, em seguida o primeiro anúncio de Cristo Salvador, a conversão e o batismo. Outros caminhos são: a formação das Igrejas locais e das comunidades eclesiais de base; a inculturação do Evangelho; o diálogo com os irmãos de outras religiões; a promoção do desenvolvimento e, enfim, o testemunho da caridade, fonte e critério da missão.

Como notamos, entre os caminhos da missão está também o diálogo inter-religioso, que não constitui um caminho primário, já que os caminhos principais são o anúncio, a conversão e o batismo. Além disso, o Papa não situa o diálogo fora da missão ad gentes. A partir do momento que a salvação provém de Cristo, ele reafirma que “o diálogo não prescinde da evangelização”. É preciso compor o anúncio de Cristo e o diálogo inter-religioso no âmbito da missio ad gentes. Não se pode confundi-los, deturpa-los, e nem julga-los “equivalentes como se fossem intercambiáveis” (Ivi, 55).

Pode-se questionar, portanto, que acolhimento esta encíclica recebeu entre a comunidade eclesial em geral, e por parte dos teólogos, em especial. Pode-se dizer que a encíclica foi recebida com admiração, mas foi imediatamente qualificada como “encíclica missionária”: foram destacadas a pastoral e a espiritualidade missionária. Por sua vez, os teólogos mantiveram uma atitude cauta, quase de desatenção, por dois motivos: aqueles que - principalmente na área asiática e norte-americana - haviam já elaborado uma própria teologia pluralista das religiões não podiam concordar com a posição do Papa. Os outros, sobretudo os teólogos europeus, ainda não haviam sido sensibilizados sobre diversas teorias da teologia das religiões. Para eles, a encíclica era pouco inovadora, já que apenas reiterava a bem conhecida afirmação de fé sobre a universalidade salvífica de Cristo e de sua Igreja. Além disso, a reflexão sobre o diálogo inter-religioso, no ocidente, estava no início.

Em todo caso, a encíclica teve o mérito de abrir uma década marcada justamente pela questão teológica sobre o significado e o valor salvífico das outras religiões, a partir da revelação cristã. Naquele período, delinearam-se com bastante clareza as várias propostas da teologia das religiões, uma nova disciplina, que anteriormente se limitava ao âmbito específico da missiologia, e que hoje pertence aos da metodologia teológica. (1 - continua)

Fonte: (Agência Fides 8/2/2008)

domingo, 4 de novembro de 2007

A SUBSTÂNCIA DO AMOR


Por Hugo de São Vitor.


1. Introdução Os dois rios do amor.
Semeamos cotidianamente um sermão sobre o amor para que possa faiscar e acender-se em nossos corações aquele fogo que produz a chama que tudo consome e tudo purifica.
Tudo o que é bom o é pelo amor, e tudo o que é mau o é também pelo amor.Uma só é a fonte do amor que, subindo do interior, derrama-se em dois rios: um destes rios é a cobiça, o amor do mundo; o outro é a caridade, o amor de Deus.Entre ambos estes rios está o coração do homem, de onde jorra a fonte do amor.Quando este se derrama pelo apetite às coisas exteriores, é chamado de cobiça; quando o seu desejo, porém, se dirige às coisas interiores, é denominado de caridade.
Há, portanto, dois rios que emanam da fonte do amor, a cobiça e a caridade, e a cobiça é a raiz de todos os males, enquanto que a caridade é a raiz de todos os bens.É pelo amor que tudo o que é bom é bom e é pelo amor que tudo o que é mau é mau.O que quer que seja o amor, portanto, coisa grande é quando está em nós.Por ele é tudo o que há em nós: isto é o amor.
O que é o amor, quão grande é o amor, e onde está o amor? A Palavra de Deus fala de amor.Não vos parece, porém, que este assunto pertença mais propriamente aos que costumam prostituir o seu pudor? Eis quantos são os que abraçam prontamente o seu ministério, e eis quão poucos são os que não se envergonham de falar abertamente de suas palavras! Que fazemos nós, portanto? Teríamos talvez tão pouco pudor que não nos envergonhamos de proclamar este amor que até os impúdicos às vezes não conseguem exprimi-lo sem vergonha?
Mas uma coisa, porém, é investigar o vício para que seja erradicado; outra exortar ao vício, para que a virtude e a verdade não sejam amadas.Nós investigamos e buscamos conhecer o que há em nós que divide de tantas maneiras nossos desejos e conduz um só coração a coisas tão diversas para que, conhecendo-o, possamos nos precaver, enquanto que eles investigam este mesmo assunto também para conhecê-lo, mas para que, conhecendo-o, possam não se precaver, mas praticá-lo.Esta coisa nada mais é do que o amor o qual, sendo um movimento do coração singular e único segundo a sua natureza, é, todavia, segundo a ação, dividido, pois quando se move desordenadamente, isto é, ao que não deve, é dito cobiça; quando, porém, o faz ordenadamente, é chamado de caridade.
Com que definição poderá ser significado este movimento do coração ao qual chamamos de amor? É importante que nós o examinemos adequadamente, para que nada dele fique escondido e desconhecido e, para que, por este motivo, não seja evitado sendo mau e não seja apetecido sendo bom, justamente este amor do qual, sendo mau, procedem tantos males e do qual, sendo bom, procedem tantos bens.
2. O que é o amor.
Como definiremos o amor? Investiguemos, consideremos, porque é oculto o que se busca e quanto mais interiormente estiver colocado tanto mais dominará em todas as partes do coração.
Isto, portanto, parece ser o amor: uma deleitação de um coração a algo por causa de algo, que é desejo ao apetecer, gozo ao fruir, que corre pelo desejo e repousa pelo gozo.Por ele o coração humano é bom, e por ele também o coração humano é mau; pois nem de outro modo será bom, se é bom, nem de outro modo será mau, se é mau, senão porque bem ou mal amamos o que é bom.Tudo o que é, é bom, mas quando aquilo que é bom é mal amado, isto não é bom e é mau.Nem quem ama é mau, nem o que é amado é mau, nem o amor pelo qual se ama é mau, mas amar mal é mau e nisto consiste todo o mal. Ordenai, pois, a caridade, e já não haverá mais nenhum mal.
3. O plano de Deus.
Grande coisa queremos recomendar, se todavia pudermos o que queremos. Deus onipotente, que de nada necessita, porque Ele é o sumo e verdadeiro bem, o qual nem pode receber de outrem algo pelo qual cresça, já que todas as coisas provém dEle, nem pode perder algo do que é seu pelo qual venha a morrer, já que nEle imutavelmente consistem todas as coisas, Ele mesmo criou o espírito racional apenas pela caridade, movido por nenhuma necessidade, para que o fizesse participante de sua própria bem aventurança.
Para que ele, porém, fosse capaz de fruir de tanta bem aventurança, fêz nele o amor espiritual, um certo paladar do coração pelo qual este fosse sensibilizado ao gosto da doçura interior, na medida em que por este amor saboreasse a alegria de sua felicidade e a Ele inerisse por um infatigável desejo.Pelo amor, portanto, Deus uniu a si a criatura racional para que, sempre inerindo a Ele, dEle sugasse de algum modo pelo afeto o próprio bem pelo qual seria beatificado, dEle o bebesse pelo desejo e nEle o possuísse pelo gozo.
Suga, ó pequena abelha, suga; suga e bebe a inenarrável suavidade de tua doçura.Submerge-te e plenifica-te, porque Ele não pode falhar se tu não começares a te enfastiar.Adere e inere, toma e frui; se o gosto for sempiterno, sempiterna será também a bem aventurança.
Não nos envergonhemos e não nos arrependamos de ter feito esta palavra de amor; não nos arrependamos de onde procede tanta utilidade, não nos envergonhemos de onde procede tanta honestidade.
4. Os dois cordéis da caridade.
A criatura racional, portanto, une-se ao seu Criador pelo amor, e só há este vínculo de amor que liga nele a ambos, vínculo tanto mais feliz quanto mais forte.
Por este motivo, para que a indivisa sociedade e concórdia também fossem perfeitas, há um duplo cordel na caridade de Deus e do próximo, para que pela caridade de Deus todos co-inerissem a um só, e pela caridade do próximo todos se fizessem mutuamente um só.Deste modo, o que alguém em si mesmo não entenda deste um só ao qual todos inerem, mais plena e perfeitamente poderá possuí-lo no outro pela caridade do próximo, e assim o bem de todos pode-se tornar o todo de cada um.Ordenai, portanto, a caridade.
O que significa `ordenai a caridade'? Significa que, se o amor é desejo, que corra bem; se é gozo, que repouse bem.O amor, de fato, conforme já foi dito, é a deleitação de um coração a algo por causa de algo, desejo ao apetecer e gozo ao fruir, correndo pelo desejo e repousando pelo gozo, correndo a algo e nele repousando. Ao que, porém, e em que?
5. A ordenação da caridade.
Ouvi, se talvez o pudermos explicar, pelo que deve correr o nosso amor, ou em que deve repousar.
Três coisas há que podem ser amadas bem ou mal, isto é, Deus, o próximo e o mundo. Deus está acima de nós, o próximo está junto a nós, e o mundo está abaixo de nós. Ordenai, portanto, a caridade.Se corre, que corra bem; se repousa, que repouse bem.O desejo corre, o gozo repousa.Por este motivo o gozo é uniforme, porque sempre está em um só, nem pode variar pela vicissitude; o desejo, porém, recebe a mutabilidade do movimento e, portanto, não se contém em um só, mas apresenta várias espécies.
Toda corrida é ou daquilo que é, ou com ele ou para ele.Como, portanto, deve correr o nosso desejo? Existem três coisas, Deus, o próximo e o mundo.Deus pode ter três coisas na corrida de nosso desejo, o próximo pode ter duas e o mundo apenas uma.Deste modo pode haver caridade ordenada no desejo.
O amor pode correr ordenadamente pelo desejo de Deus, com Deus e a Deus.Corre pelo desejo de Deus, quando dEle recebe de onde o ame.Corre com Deus, quando em nada contradiz à sua vontade.Corre a Deus quando apetece nEle repousar.Estas são as três coisas que pertencem a Deus.
Já duas são do próximo.A caridade pode correr pelo desejo do próximo e com o próximo, mas não o pode ao próximo.Corre pelo desejo do próximo quando se alegra de sua salvação e de seu aproveitamento.Corre com o próximo quando na via de Deus o deseja como companheiro de caminho e como sócio em seu encontro.Mas não pode correr ao próximo, para que constitua no homem a sua esperança e confiança.Estas são as coisas que pertencem ao próximo; isto é, dele e com ele, mas não a ele.
Uma só coisa pertence ao mundo, que é correr recebendo dele; não com ele, nem a ele.O desejo, de fato, corre recebendo do mundo quando este, examinado como obra de Deus, pela admiração e pelo louvor nos converte mais ardentemente a Deus.O desejo correria com o mundo se o mundo, por causa da mutabilidade das coisas temporais, nos conformasse a si pelo desânimo na adversidade e pela elevação na prosperidade, e deste modo a ele nos tornássemos semelhantes.O desejo correria ao mundo se quisesse sempre repousar em seus prazeres.
Ordenai, portanto, a caridade, para que ela corra pelo desejo de Deus, com Deus e para Deus; pelo desejo do próximo, com o próximo mas não ao próximo; recebendo do mundo, mas não com ele e nem para ele, para que assim somente em Deus repouse pelo gozo.
Esta é a ordenada caridade, e fora dela tudo o que se faz não é caridade ordenada, mas cobiça desordenada.
6. O amor, vida do coração.
O amor é a vida do coração e, portanto, sem amor é inteiramente impossível que haja um coração que deseje viver.
Considera o que se segue daqui. Se, de fato, a mente humana não pode existir sem amor, é necessário que ame ou a si mesma ou a algo além de si mesma. Como, porém, em si mesma não pode encontrar o perfeito amor, se se amasse apenas a si mesma o amor feliz não existiria. É necessário, portanto, se desejamos amar com felicidade, que busquemos algo além de nós a que amemos.Se começarmos a amar, porém, algo imperfeito fora de nós, estimularemos em nós o amor, mas não excluiremos a nossa miséria. Ninguém amará, portanto, com felicidade, até que o seu desejo não se converta pelo amor ao verdadeiro e sumo bem. Como, porém, somente Deus é o verdadeiro e sumo bem, amará com felicidade apenas quem amar a Deus, e com tanta maior felicidade quanto mais amplamente o amar. Este, portanto, será o verdadeiro repouso de nosso coração, quando nos estabelecermos pelo desejo no amor de Deus, nem mais nada além dEle apetecermos mas, nEle já possuído, nos deleitarmos por uma feliz segurança.Como Ele não estende o apetite para além dEle, nem repele pelo temor, assim de certo modo nEle repousamos por uma felicidade sem vexação.
A enfermidade da mente humana porém, não direi sempre, mas algumas vezes, dificilmente pode fixar-se na doçura da divina contemplação.Por este motivo, enquanto não o consegue, deve ser acostumada por um certo estudo àquela estabilidade a qual ainda não é capaz de alcançar.Isto é, se não podemos pensar sempre em Deus, que pelo menos reprimamos nosso coração dos pensamentos ilícitos e vãos, para que o possuamos na consideração das suas obras e de suas maravilhas, até que, enquanto nos esforçarmos em ser sempre menos instáveis, finalmente, no-lo concedendo Deus, sejamos capazes de nos tornar verdadeiramente estáveis.
7. A fé, navio nas ondas deste mundo.
Procurarei oferecer-te um exemplo para que possas promover estas coisas. Todo este mundo é como um dilúvio, porque todas as coisas que estão neste mundo, à semelhança das águas, correm flutuando por eventos incertos.
Já a verdadeira fé, que não promete coisas transitórias, mas eternas, levanta a alma como que de certas ondas, erguendo-a da cobiça deste mundo às coisas do alto; ela pode então ser levada pelas águas, mas não pode ser inteiramente submergida, porque este mundo pode ser usado devido à necessidade, mas não pode obrigar o afeto.
Quem quer que, portanto, não crendo nas coisas eternas, somente apetece as que são transitórias, debate-se entre ondas como que sem navio, e o ímpeto das águas que correm o carregam consigo.Quem , porém, crendo nas eternas, ama as coisas transitórias, este é como aquele que naufragou perto de um navio.Já quem crê nos bens eternos e os ama, como que já colocado no navio, atravessa seguro as ondas do mar revolto.E se pelo desejo da fé não abandonar o navio, de certo modo, ainda que no meio das ondas, imita a estabilidade da terra.
Em primeiro lugar, portanto, se quisermos atravessar ilesos este grande mar, fabriquemos um navio, de tal maneira que tenhamos uma fé íntegra.Habitemos depois o navio da fé pela caridade, para que creiamos o que devemos amar e amemos o que cremos, de modo que assim tanto a lei de Deus esteja em nosso coração pelo reto conhecimento da fé como o nosso coração esteja na lei de Deus pelo amor.
Mas para que mais facilmente conheças como ou de onde deves edificar este navio ou arca em teu coração pelo qual, conduzido em meio ao naufrágio deste dilúvio, chegues ao porto da quietude, considera as duas obras de Deus que são a obra da criação e a obra da restauração.
A obra da criação é a criação do céu e da terra e de todas as coisas que neles estão contidas, as quais foram feitas em seis dias. Já a obra da restauração é a Encarnação do Verbo e todas as coisas que, desde o princípio do mundo até o seu fim, tanto a precederam para anunciá-la como a seguiram para confirmá-la.Estas todas se fizeram ao longo de seis idades.
A obra da restauração mais pertence à fé católica, a qual por isto é mais amada pelos santos, porque nela reconhecem os remédios para a sua salvação.Deus operou esta obra em parte pelos homens, em parte pelos anjos, em parte por si mesmo, de tal maneira que na arca espiritual a primeira morada são as obras dos homens, a segunda as obras dos anjos, a terceira as obras de Deus, e nela o supremo repouso é o próprio Deus, autor de todas.
Fonte: http://www.voltaparacasa.com.br/a_substancia_do_amor.htm

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