Contra a verdade não temos poder algum; temo-lo apenas em prol da verdade. (II Coríntios 13,8)
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sábado, 20 de dezembro de 2008

Lauda et laetare : Solta gritos de alegria!

Sermão de São Tomás de Aquino

Solta gritos de alegria, regozija-te, filha de Sião.
Eis que venho residir no meio de ti - oráculo do Senhor. (Zacarias 2, 14)

Prólogo

Como diz o bem-aventurado Bernardo: “Refletindo amiúde o ardor desejoso de nossos pais, enquanto esperavam o advento do Cristo Jesus, fico perturbado eu comigo.” Com efeito, quem reflete sob os suspiros daqueles que clamam, sob os desejos daqueles que esperam, sob a alegria daqueles que anunciam a vinda do Salvador, podem com razão se dar conta da tibieza própria em comparação com as benesses já recebidas desde sua vinda. Clamava Isaías por esta vinda com freqüentes gemidos (16, 1): Enviai o cordeiro ao soberano etc.. Também em 63, 19: Oh! Se rasgásseis os céus etc.. Esperava-o Jeremias mui ansiadamente: Eis que o Senhor criou uma coisa nova sobre a terra etc. Como citado mais acima, é com alegria que o anunciava Zacarias.

Nestas palavras, faz o profeta três coisas: em primeiro lugar, revela neste passo os sentimentos dos santos pais que precederam o advento do Salvador, insistindo continuamente nos louvores: Solta gritos de alegria, regozija-te, filha de Sião. Em segundo lugar, revela que o Filho de Deus verdadeiro descerá do céu: Eis que venho. Em terceiro lugar, mostra [o Salvador] aparecendo humilde na carne humana: Venho residir no meio de ti.

Primeira Parte
[A alegria da vinda do Senhor]

Antes de tudo, revela-se a alegria da vinda [do Salvador], na repetição da palavra “alegria”: alegria perfeita. Acerca disso, é forçoso notar que, para atingir a alegria perfeita, são necessárias três coisas: em primeiro lugar, a elevação da alma até a mercê divina, como indicado neste trecho: Filha de Sião; em segundo lugar, a dilatação do amor como resultado dum gozo espiritual: Regozija-te; em terceiro lugar, o estímulo da língua para tecer os louvores divinos: Solta gritos de alegria! De fato, se tu consideras com atenção os favores divinos, serás pois “filha de Sião”; se exaltado cantas e cumula de louvores e elogios a glória de Deus, conhecerás a alegria perfeita; se dessa consideração nasce o gozo espiritual, então, filha de Sião, regozijarás, conforme a ordem do profeta: Solta gritos de alegria, regozija-te, filha de Sião!

Em primeiro lugar, para se atingir a alegria perfeita, há de a alma se elevar até a mercê divina, como se indica em Filha de Sião. Com efeito, Sião significa “lugar elevado”, e segundo a interpretação espiritual unânime, a palavra simboliza a alma contemplativa. Passou um homem para anunciar a vinda do Senhor, por sua pregação (Is. 52, 7): Como são belos sobre as montanhas os pés do mensageiro que anuncia a felicidade! E mais adiante: [é o] que diz a Sião: Teu Deus reina! Merece realmente escutar a pregação aquele que só quer falar “do Cristo e com Cristo”. Assim o Senhor, em Mateus 21, 5, e Zacarias 9, 9: Dizei à filha de Sião, i. é, a alma transida, pela meditação, na contemplação dos favores de Deus: “Eis que teu rei vem a ti!” Dirigi-vos, afirmo eu, aos sequiosos da palavra da alegria de sua vinda, a fim de serem consolados. Isaias 12, 6: Exultai de gozo e alegria, habitantes de Sião, porque é grande no meio de vós o Santo de Israel. Com efeito, segundo a palavra do bem-aventurado Bernardo: “É dada abundantemente a consolação de Deus aos que não admitem nenhum outro além dele.” Esta são as filhas de Sião, a quem se anunciou e prometeu a visão contemplativa de sua vinda, Zacarias 9, 9: Exulta de alegria, filha de Sião! Cânticos 3, 11: Saí, ó filhas de Sião, contemplai etc.. Saí das perversões do vício, e sede as filhas de Sião, pela contemplação das realidades excelsas, para assim admirardes o rei Salomão, i. é, o Senhor dos Anjos, ostentando o diadema recebido de sua mãe, i. é, segundo a Glosa, “na humanidade recebida da ascendência judia”.

Em segundo lugar, para alcançar a alegria perfeita, é preciso que se dilate o amor como resultado duma alegria espiritual, o que está apontado neste lugar: Regozija-te!

Ora, é com justiça que deve exultar a alma fiel, mais ainda, deve transbordar a natureza humana inteira de gozos espirituais abundantes, quando se vê unida à sociedade divina. Com efeito, a natureza humana, que outrora fora um como deserto e terra inóspita em razão da ausência da graça celeste, agora está luxuriante em vegetação, pejada de frutos e flores, desde que o Filho de Deus a assumira na unidade de sua pessoa. Isaias 35, 1-2: O deserto e a terra árida regozijar-se-ão. A estepe vai alegrar-se e florir. Como o lírio ela florirá, exultará de júbilo e gritará de alegria. Em seguida: A glória do Líbano lhe será dada. Mais adiante, em Isaias 62, 4, está escrito: não mais serás chamada a desamparada.

[A natureza humana deve ainda exultar de gozos espirituais] quando se sente fortificada pelo auxílio dos céus. Outrora, estava marcada a natureza humana inteira com a tristeza, devido à ausência da graça, ao fechamento das portas [do céu], à opressão da antiga prisão. Ora, agora se derramou a graça divina, por que, como consta em Atos 2, 3 e 4: Eles foram cheios do Espírito Santo. Descerrou-se a porta do céu, Apocalipse 4, 1: Vi uma porta aberta no céu. Esmagou-se o poderio do demônio, João 12, 31: Agora será lançado fora o príncipe deste mundo. Apocalipse 12, 10: Foi precipitado o acusador de nossos irmãos, e mais a frente: Por isso alegrai-vos, ó céus, e todos que aí habitais. Predisse-o Isaias 9, 2: Vós suscitais um grande regozijo, provocais uma imensa alegria; rejubilam-se diante de vós como na alegria da colheita, como exultam na partilha dos despojos.

Em terceiro lugar, para se alcançar a alegria perfeita, é forçoso o estímulo da língua para a proclamação do louvor divino, o que se indica neste passo: Solta gritos de alegria. Desde então, o conhecimento de Deus é tão agradável à nossa inteligência, quanto é ao nosso amor o transporte do gozo interior. Só nos sobra cantar, por todos os sentidos, o louvor [de Deus]. Eis porque diz o autor: Solta gritos de alegria! A alma fiel tem com que largamente comunicar seus louvores ao Redentor, pois se afirma em Filipenses 4, 7: E a paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus. De igual modo, no Sirácida 43, 30: Que podemos nós fazer para glorificá-lo? Pois o Todo-poderoso está acima de todas as suas obras.

Devemos verdadeiramente louvar o poder do Defensor que nos afastou dos perigos, pois que é terrível perigo estar a serviço do demônio e do pecado: isso é de fato como o jugo de Faraó. Romanos 6, 22: Mas agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes por fruto a santidade; e o termo é a vida eterna, cantemos ao Senhor. Êxodo 15, 2: O Senhor é a minha força e o objeto do meu cântico; foi ele quem me salvou. Ele é o meu Deus – eu o celebrarei; o Deus de meu pai – eu o exaltarei.

[Devemos também louvar] a justiça do Redentor, por que “ao morrer, destruiu a morte”. De fato, a morte expiar a morte era justiça; mas o Cristo expiar a morte era misericórdia, pois que pagou o que não roubara, e isso com justiça soberanamente digna de louvor. Sirácida 16, 22: Os louvores são ditados pela justiça, e Isaias 61, 11: O Senhor Deus fará germinar a justiça e a glória diante de todas as nações.

[Devemos ainda louvar] a clemência do Salvador, que nos conduziu à vida eterna. Como o disse o Apóstolo aos Colossensses 1, 13: Ele nos arrancou do poder das trevas e nos introduziu no Reino de seu Filho muito amado no qual temos a redenção, a remissão dos pecados. Por isso aquilo de Isaias 44, 23: Céus, regozijai-vos, pois o Senhor agiu [com misericórdia].

Segunda Parte
[A vinda do Filho de Deus sob forma visível]

Em segundo lugar, nas palavras citadas ao início, descreve o profeta a proximidade da vinda [do Cristo], apresentado como se bem próximo estivesse, neste trecho: Eis que venho. Venho, disse ele, de modo visível, com forma humana, em que se revela inaudita novidade: Eis!, disse ele.

Neste modo de falar, excita o profeta nossa tibieza para ir e compor-se diante dele. Isaias 25, 9: Eis nosso Deus do qual esperamos nossa libertação. Zacarias 9, 9: Eis que vem a ti o teu rei. Mostra assim a novidade dessa vinda, para que o esperemos e sejamos cheios de admiração. Assim canta a Esposa do Cântico 2, 8: - Oh, esta é a voz do meu amado! Ei-lo que aí vem, saltando sobre os montes, pulando sobre as colinas. Isaias 43, 19: Eis que vou fazer obra nova, a qual já surge. Comunica ao entendimento a proximidade [de sua vinda] para que nos disponhamos a recebê-lo. Malaquias 3, 1: E imediatamente virá ao seu templo o Senhor. Daniel 7, 13: Vi um ser, semelhante ao filho do homem, vir sobre as nuvens do céu. Neste modo de falar, mostrava-se o Filho de Deus como visível sob a forma da humanidade, ao falar: Eis!

Ele vem pessoalmente em sua natureza divina, no que revela infinita grandeza, como indica este extrato: [eu] venho. Esta é a pessoa que se exprimiu pela boca dos profetas, Isaias 52, 6: Sou eu quem diz: Eis-me aqui! [É a pessoa] que anuncia a redenção de todos os pecadores, Isaias 63, 1: Sou eu, que luto pela justiça.[É a pessoa] que proclama o julgamento do final dos tempos, Salmo 75 [74], 3: No tempo que fixei, julgarei o justo juízo, e Salmo 37 [36], 30: A sua língua exprime a justiça.

É de justiça, pois a ele pertence a eternidade, e a existência antes da existência. Exôdo 3, 14: Eu sou aquele que é. Com efeito, ele procede de Deus de modo consubstancial e deste a eternidade, João 8, 42: É dele que eu provenho. Igualmente possui ele poderio infinito, e é o criador de tudo. Isaías 45, 6-7: Eu sou o Senhor, sem rival; formei a luz e criei as trevas. De fato, como o Filho é Deus, princípio gerado do princípio, possui ele junto com o Pai o ser e o poder. Também é dele o conhecimento perfeito, e assim governa todas as coisas, Sirácida 24, 3: Saí da boca do Altíssimo, engendrado antes de toda a criatura. Como ele é luz de luz, claridade da claridade, o Filho é, como o Pai, infinitamente poderoso. João 8, 12: Eu sou a luz do mundo.

Todavia, “eis que venho, como amigo vestido em hábito de serviço, apesar de minha sublimidade e enorme dignidade”. [Eu] venho é o mesmo que dizer: “Não envio anjo, nem espírito, nem lugar-tenente, mas venho eu mesmo, e assim se revela o maior dos amores.” [Eu] venho, digo eu, por convide dos santos pais: realmente, todos os santos desde o começo do mundo o haviam convidado; eles são representados na figura da bem-amada, Cântico 6, 2: Meu bem-amado desceu a seu jardim, e no último capítulo do Apocalipse 22, 20: Vinde, Senhor Jesus, e também em Isaias, Jeremias e em outros profetas.

A piedade me conduziu e comoveu desde o fundo do coração. Lucas 1, 78: Pelas entranhas da misericórdia do nosso Deus, com que o oriente do alto nos visitou. “Lá mostrou seu poder e sabedoria; aqui, sua misericórdia”, como afirma Bernardo. Ele também se comparece de nossas enfermidades. Mateus 8, 7: Eu irei, e lhe darei saúde. Lucas 19, 10: Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido. João 3, 17: Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.

Realmente, porque decaíramos de toda dignidade, ele veio como chefe de infinita dignidade. Josué 5, 14: Eu agora venho como chefe do exército do Senhor. De igual modo, porque estávamos separados do amor de Deus, ele veio estabelecer uma inaudita paz de caridade, Efésios 2, 14: Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um. Ele veio para pregar a paz aos que estavam afastados. E não foi tão-somente o amor do Filho que veio, mas também o do Pai. E por fim, porque estávamos privados da luz ou claridade, ele veio como luz de infinito esplendor, João 12, 46: Eu sou a luz que vim ao mundo.

Terceira Parte
[A humildade da vinda do Salvador]

Em terceiro lugar, nas palavras citadas ao começo, demonstramos a humildade da vinda [do Salvador]. Assim, venho residir no meio de ti, como se dissesse: “Durante a viagem, serei teu companheiro.” Por isso diz: venho residir.

Ele residiu conosco de três modos: de modo geral, [ele residiu] junto com todos os homens a substância da carne, João 1,14: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós; Baruque 3, 38: Foi então que ela, [a sabedoria], apareceu sobre a terra, onde permanece entre os homens; de modo particular, junto com os santos por meio da graça difundida sobre eles, 2 Corintios 6, 16: Eu habitarei e andarei entre eles, e serei o seu Deus e eles serão o meu povo; de modo familiar, junto com os bons por meio da presença visível, Salmo 24, 12: O Senhor se torna íntimo dos que o temem, e lhes manifesta a sua aliança. [Escreve] Bernardo: “Ele veio para habitar com os homens e neles, para iluminar suas trevas, para abreviar seus sofrimentos e afastar os perigos”.

Veio ele também como mediador da reconciliação: No meio de vós. Lucas 22, 27: Eu estou no meio de vós, como aquele que serve. Ora, ele mediou para reconciliar Deus e o homem. João 2, 26: No meio de vós existe alguém que vós não conheceis. Deuteronômio 5, 5: Eu estava entre o Senhor e vós para transmitir-vos suas palavras.

Quisera ele ainda nos trazer a plenitude da alegria, João 20, 19-20: Jesus veio e pôs-se no meio deles. Disse-lhes ele: A paz esteja convosco!, e mais além: Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor. Isaías 12, 6: Exultai de gozo e alegria, habitantes de Sião, porque é grande no meio de vós o Santo de Israel.

Igualmente mostrou-se grande na distribuição das recompensas: Oráculo do Senhor!

Tradução: Permanência
(A partir da tradução francesa de Charles Duyck, março de 2005)

Fonte: Permanência

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Sermão de Todos os Santos (11 de 11)

XI

Temos visto como em todos os estados, em todos os ofícios e em todas as fortunas podemos alcançar a maior fortuna de todas, que é ser santos; temos visto que o instrumento necessário para ser santos é só e unicamente o coração, contanto que seja puro e limpo; só resta para complemento da facilidade com que vos prometi que todos podemos ser santos, declarar quão facilmente podem todos conseguir esta mesma limpeza. A limpeza do coração consiste em estar limpo de pecados, e não há nenhum pecador, por grande que seja, que não possa conseguir esta limpeza de coração tão breve e tão facilmente que, se entrou nesta igreja pecador, não possa sair dela santo. Presentou-se a Cristo um leproso, e pondo-se de joelhos: genu flexo, disse assim: Domine, si vis, potes me mundare (Mt. 8,2 s): Senhor, se quereis, bem me podeis alimpar desta lepra. — Respondeu o Senhor: Vo lo, mundare: Quero, sê limpo — e no mesmo ponto ficou limpo daquele tão feio e tão asqueroso mal: Et confestim mundata est lepra ejus. Pode haver maior brevidade, pode haver maior facilidade de conseguir a limpeza? Parece que não. Pois eu vos digo, e é de fé, que muito mais breve e muito mais facilmente podeis conseguir a limpeza de coração se o mesmo coração quiser. A lepra do coração, mais feia, mais imunda e mais asquerosa que a do corpo é o pecado. E para que vejais quanto mais fácil e mais brevemente se consegue a limpeza desta lepra, ponhamos o mesmo leproso que Cristo curou, à vista de um coração também leproso pelo pecado, e veremos qual consegue a limpeza com maior facilidade.

Estava leproso o coração de Davi, não outro, senão aquele coração de quem ele disse com os mesmos termos do nosso texto: Cor mundum crea in me, Deus (12). E estava tão penetrado da lepra, que havia já um ano que perseverava no pecado, quando o exortou o profeta Natã a que considerasse o estado miserável de sua consciência, e se convertesse de todo coração a Deus, de quem vivia tão esquecido. Fê-lo assim Davi, mas que fez? Somente disse: Peccavi (2 Rs. 12,13): Pequei, — e não tinha bem pronunciado esta palavra quando o profeta lhe disse que já estava perdoado e restituído à graça de Deus: Dominus quoque transtulit peccatum tuum (13). Comparai-me agora a Davi com o leproso, e vede qual conseguiu a limpeza da lepra mais fácil e mais brevemente. O leproso pôs-se de joelhos: genu flexo e Davi não se ajoelhou; o leproso disse cinco palavras: Si vis, potes me mundare, — Davi não disse mais que uma: Peccavi; e com tudo isto o leproso não tinha ainda conseguido a limpeza, antes estava duvidoso dela: Se vis; e Davi já tinha conseguido e estava certificado disso da parte do mesmo Deus: Dominus quoque transtulit peccatum tuum. Logo, muito mais fácil e muito mais brevemente conseguiu o coração de Davi a limpeza da sua lepra, do que o leproso a da sua. Mas quando o conseguiu o leproso? Quando Cristo lhe respondeu: Volo, mundare: Quero, sê limpo. — Agora vos peço eu que me respondais a mim, e eu vos prometo que com a vossa resposta ficarão limpos os vossos corações ainda mais brevemente que o leproso com a resposta de Cristo, porque a resposta de Cristo comunicou a limpeza ao leproso com duas palavras, e a vossa resposta há de comunicar a limpeza aos vossos corações só com uma sílaba. Respondei, pois, cristãos, ao que vos pergunto. Não vos pesa muito de ter ofendido a um Deus de infinita majestade e bondade, por ser ele quem é? Não vos pesa e vos arrependeis entranhavelmente de ter sido ingratos a um Deus que vos criou, e vos deu o ser, e vos remiu com seu sangue? Não detestais de todo coração todos vossos pecados, por serem ofensas suas? Não tendes nesta hora firmes propósitos de nunca mais o ofender? Sim? Pois este sim, dito de todo coração, basta para que o mesmo coração fique e esteja já limpo de todos seus pecados; e esse sim, sendo uma só sílaba, fez nos vossos corações o mesmo efeito, e mais maravilhoso ainda, que as palavras de Cristo no leproso.

Pois, se na limpeza do coração consiste o ser santos, e esta limpeza de coração se pode conseguir tão facilmente só com um movimento do mesmo coração, que coração haverá tão fraco, ou que homem de tão fraco e de tão pouco coração que não se resolva a ser santo? Se o ser santo fora uma coisa muito dificultosa, bem nos merecia o céu e a bem-aventurança que, pela gozar eternamente, se venceram todas as dificuldades. Mas é tão fácil que, sem vos bulir do lugar onde estais, e sem mover pé nem mão, nem fazer ou padecer coisa alguma, só com um ato do coração, e o ato mais natural, mais fácil e mais suave do mesmo coração, que é amar, e amar o sumo bem, podemos ser santos. Exorta Moisés a amar a Deus de todo coração, que é o mandamento em que se encerram todos, e conclui assim. Mandatum hoc non supra te est, neque procul positum (Dt. 30, 11): Este mandamento não é sobre nós, nem está longe de nós. — Se fora sobre nós e estivera lá no céu: In caelo situm (Ibid. 12), tê-lo-íamos por impossível; se estivera longe de nós, e com muito mar em meio: Trans mare positum (Ibid. 13), tê-lo-íamos por muito dificultoso. Mas é muito fácil e está muito perto, porque está o cumprimento dele dentro do nosso coração: Sed juxta te est sermo valde in corde tuo (14). Moisés, que não prometia o céu, disse que estava perto de nós o cumprimento deste preceito; mas Cristo, que promete o céu, ainda disse mais e melhor, porque diz que o preceito, e o céu, e o merecimento dele não só está perto de nós, senão dentro de nós: Regnum Dei intra vos est (15). Cuidamos que o céu, onde subiram os santos, está muito longe, e enganamo-nos: o céu não está longe, senão muito perto, e mais ainda que perto, porque está dentro de nós, e dentro do que está mais dentro, que é o coração. E que haja almas, e tantas almas, que tendo o céu dentro de si na vida, fiquem fora do céu na morte, e que podendo tão facilmente purificar o coração e ser santas, só porque não querem o não sejam? Se para amar a Deus e ganhar o céu houvéramos de atravessar os mares tormentosos e contrastar com todos os elementos, pouco era que se fizesse pela bem-aventurança certa do céu o que tantos fazem por tão pequenos interesses da terra; mas, tendo-nos Cristo tão facilitada a bem-aventurança, que entre a mesma bem-aventurança e o coração não haja mais que a condição de ser limpo: Beati mundo corde, e, podendo o mesmo coração alcançar essa limpeza em um instante de tempo e com um ato de amor, e de amor ao sumo bem, que não sejamos todos santos, e não queiramos ser bem-aventurados?

Quero acabar esta admiração com um ai de S. Bernardo, pregando neste mesmo dia aos seus religiosos, o qual a eles e a todos pode servir de exemplo e de confusão: Beati mundo corde, quoniam ipsi Deus videbunt: Beati plane, et omnino beati qui videbunt, in quem desiderant Angeli prospicere. Tibi dixit cormeum, exquaesivit te facies mea, faciem tuam, Domine, requiram. Quid enim mihi est in caelo, et a te quid volui super terram? Defecit caro mea et cor meum, Deus cordis mei et pars mea, Deus in aeternum: quando adimplebis me laetitia cum vultu tuo? Vae mihi ab immuditia cordis mei, qua impedien te, nedum mereor ad beatam illam visionem admitti. Quer dizer: Bem-aventurados os limpos de coração, e verdadeiramente bem-aventurados, porque eles verão aquela face divina, a qual os anjos sempre estão vendo e sempre estão desejando ver. A vós, Senhor, diz o meu coração: Nenhuma coisa desejo, senão ver-vos de face a face, porque nenhuma outra há para mim, nem na terra nem no mesmo céu. Desmaia o meu coração nas ânsias deste desejo, porque só o Deus do meu coração é o único e todo o bem que o pode satisfazer. E quando chegará aquela ditosa hora em que, com a vista de vosso rosto, fique satisfeito? Mas, ai de mim — diz Bernardo — que pela pouca limpeza de meu coração — quero-o dizer com as suas próprias palavras — ai de mim, que a impureza e imundícia de meu coração me impede e faz indigno de ser admitido àquela bem-aventurada vista! Vae mihi ab immunditia cordis mei, qua impediente, nedum mereor ad beatam illam visionem admitti. Se isto dizia de si um coração tão puro, um coração tão santo, um coração tão elevado, tão estático, tão seráfico e tão abrasado no amor divino, se isto dizia no coração de Bernardo a humildade, que dirá noutros corações a verdade? Se o corpo estiver no claustro, e o coração no mundo? Se o coração, depois de se dar a Deus, estiver sacrificado ao ídolo? Se o coração, que devera estar cheio de caridade e amor de Deus, estiver ardendo em amor que não é caridade? Se as palavras, que saem do coração, e os pensamentos, que não saem, forem envoltos em impureza? Ai de tal coração e de quem o tem: Vae mihi ab immunditia cordis mei! Este vae e este ai de São Bernardo em dia de Todos os Santos, fique por matéria de meditação a todos os que o querem ser. Advirtam, porém, e tenham por certo, que se este ai de conhecimento e temor se converter em ai de dor, em ai de pesar, em ai de verdadeiro e firma arrependimento, esse mesmo ai, dito de todo coração, com ser uma só silaba — como dizia — bastará para purificar de tal sorte o mesmo coração que, sendo nesta vida santificado por graça, mereça ser na outra beatificado por glória: Beati mundo corde.

Notas:
(12) Cria em mim, ó Deus, um coração puro (Sl. 50,12)

(13) Também o Senhor transferiu o teu pecado (2 Rs. 12,13).

(14)Mas esta palavra está muito perto de ti, no teu coração (Deut. 30,14).

(15) O reino de Deus está dentro de vós (Lc. 17,21).


Fonte:
http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/BT2803025.html

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Sermão de Todos os Santos (10 de 11)

X

De todo este largo discurso estou vendo que tirastes duas conclusões todos os que me ouvistes: uma muito conforme ao assunto que propus, e outra muito contrária a ele. A primeira conclusão é que verdadeiramente, sem dúvida, é muito grande coisa o ser santos. Porque, se Deus, entre todos seus atributos de infinita perfeição estima e em certo modo reverencia sobre todos o atributo de santo; e se todas as Pessoas da Santíssima Trindade, e cada uma em particular, nos deram tão soberanos exemplos e documentos desta mesma estimação; se a Virgem Mãe de Deus, por antonomásia, Virgem Prudentíssima, entre todos os bens e felicidade da terra e do céu, nenhuma outra levou os olhos, roubou o coração e prendeu os passos, senão a santidade de todos os santos, em que também o mesmo Deus, seu Filho, a sublimou sobre todos; se os anjos e serafins que assistem ao lado do trono divino, o que só exaltam e apregoam, e os louvores que cantam à majestade de seu Senhor, é ser Santo, Santo e mais Santo; e se a excelência em que o mesmo Senhor confirmou aos anjos bons e obedientes, e a de que privou aos maus e rebeldes, foi a de ser santos; e se os santos de todas as hierarquias, patriarcas, profetas, apóstolos, mártires, confessores, virgens, tanto trabalharam, tanto padeceram, e tais extremos e excessos fizeram por chegar, como chegaram, a ser santos, não há dúvida que o ser santo é grande coisa, e não só grande, senão a maior de todas. E esta é a primeira conclusão que inteiramente concorda com a primeira parte do meu assunto.

A segunda conclusão, e totalmente contrária à segunda parte dele, é que eu prometi de vos provar quão facilmente podemos todos ser santos, e tudo quanto até agora tenho mostrado e discorrido, pelas vidas e ações dos mesmos santos, e por suas grandes batalhas e vitórias, são coisas todas tão dificultosas e repugnantes à natureza, e tão superiores à fraqueza humana, que antes parece nos impossibilitam totalmente, e nos tiram toda a esperança, não só de chegar a ser, mas ainda de aspirar a ser santos. Ora, não vos desanimeis os que isto inferis, antes vos animai e consolai muito, porque a facilidade que vos prometi, ainda é mais fácil do que eu o propus e vós podeis imaginar. Tudo o que fizeram os santos por ser santos, foi muito bem empregado, e ainda pouco, porque muito mais importa, muito mais vale, e muito mais é ser santos; mas, para chegar a o ser, não é necessário tanto, senão muito menos. Não é necessário guardar a perpétua continência das virgens, porque tendes a licença e liberdade do matrimônio, com que foram santos Adão e Eva, Zacarias e Isabel, Joaquim e Ana. Não é necessário ser anacoreta, nem ir viver aos desertos, porque podeis ser santos na vossa casa, como José, Samuel, Davi, que morreram na sua. Não é necessário ser doutor, nem queimar as pestanas sobre os livros, porque basta que saibais os Mistérios da Fé e os Mandamentos, como S. Paulo, por sobrenome o Simples, S. Junípero, Santo Hermano, e aqueles de quem dizia Santo Agostinho: Levantam-se os indoutos, e levam o reino do céu aos letrados. Não é necessário ser mártir, porque não só não padecendo martírio, mas fugindo dele e escondendo-vos, podeis ser santo, como o foi Santo Atanásio, S. Feliz, S. Silvestre, e outros. Nem menos é necessário ser apóstolo, patriarca ou profeta, porque estes ofícios e dignidades passaram com o tempo, e podeis ser santos como o foram todos os que depois deles vieram.

Pois, que é necessário para ser santo? Uma só coisa, e muito fácil, e que está na mão de todos, que é a boa consciência ou limpeza de coração, como diz o nosso tema: Beati mundo corde. Olhai como Deus quis facilitar o céu e o ser santos, que pôs a bem-aventurança e santidade em uma coisa que ninguém há que não tenha, e a mais livre e mais nossa, que é o coração. Assim como o coração é a fonte da vida, assim é também a fonte da santidade; e assim como basta o coração para viver, ainda que faltem outros membros e sentidos, assim, e muito mais, basta a pureza de coração para ser santo, ainda que tudo o mais falte. Se o ser santo dependera dos olhos, não fora santo Tobias, que era cego; se dependera dos pés, não fora santo Jacó, que era manco; se dependera de algum outro membro do corpo, não fora santo Jó, que estava tolhido de todos, e só lhe ficou a língua: e, ainda que não tivera língua, também fora santo, porque Santa Cristina, sendo-lhe a língua cortada, louvava a Deus com o coração, e com o coração, sem língua, eram tais as suas vozes, que as ouviam não só os anjos no céu, senão também os circunstantes na terra. De sorte que, para um homem ser santo, não é necessário coisa alguma fora do homem, nem ainda é necessário todo o homem: basta-lhe uma só parte, e essa a primeira que vive e a última que morre, para que lhe não possa faltar em toda a vida, que é o coração.

Tendo o coração puro, e ou vos faltem ou sobejem todas as outras coisas, nem a falta vos será impedimento, nem a abundância estorvo para ser santo. Salomão pedia a Deus (Prov. 30,8) que o não fizesse rico nem pobre, mas que lhe desse o necessário para passar a vida, receando que não poderia ser santo em qualquer daqueles extremos; mas eu vos asseguro que, ou sejais rico, ou pobre, ou pobríssimo, de qualquer modo podeis ser santo. Se fordes rico e puderdes dar esmola, dai-a, e sereis santo, como foi S. João Esmoler; se fordes pobre, e tiverdes necessidade de pedir esmola, pedi-a, e sereis santo, como foi Santo Aleixo; e se fordes tão desamparado, que não tenhais quem vos dê esmola, tende paciência, e sereis santo, como foi S. Lázaro.

Tertuliano teve para si que os reis e imperadores não só não podiam ser santos, mas nem ainda cristãos, mas errou neste sentimento, como em outros, Tertuliano, porque escreveu quando ainda no cristianismo não havia mais coroas que as do martírio. Rei foi de França S. Luís, rei de Inglaterra Santo Eduardo, rei de Escócia S. Guilhelmo, rei de Suécia Santo Erico, rei de Dinamarca S. Canuto, rei de Boêmia S. Casimiro, rei da Noruega Santo Olao, rei de Castela S. Fernando, e imperador Santo Henrique, e todos santos, porque, se na grandeza da sua fortuna têm maior matéria para os vícios os príncipes, também têm mais alta esfera para as virtudes.

Das dignidades eclesiásticas se deve fazer o mesmo juízo. Uns santos vereis com mitras de bispos, com capelos de cardeais e tiaras de pontífices na cabeça, e outros com essas mitras, capelos e tiaras aos pés, e por quê? Uns porque deixaram o lustre da dignidade, outros porque sustentaram o peso; uns porque reconheceram o perigo, outros porque continuaram o trabalho; mas, uns e outros, santos. Não foi menos santo São Gregório, sendo papa, do que S. Pedro Celestino, porque renunciou à tiara; nem menos santo Agostinho, sendo bispo, do que Santo Tomás, porque recusou às mitras; nem menos santo São Carlos Borromeu, sendo cardeal, do que S. Francisco de Borja, porque não quis aceitar os capelos.

Aquele é e será mais santo, em qualquer estado, que usar dele com mais puro coração. E se não, discorrei por todos os estados, ou altos ou baixos do mundo, e achareis neles o vosso, para que vejais que no vosso, se quiserdes, podeis ser santo. Que lugares há mais mal avaliados no mundo do que os palácios dos reis, como oficinas da vaidade, da potência, da inveja e do engano, e onde nunca, ou raramente, entra a verdade; mas nem por isso há neles ofício que não esteja santificado. Mordomo-mor foi S. Leodegário, camareiro-mor S. Jacinto, estribeiro-mor S. Vandrigilo, monteiro-mor S. Mauraneu, porteiro-mor S. Patrício, copeiro-mor S. Patroclo, capitão da guarda S. Sebastião, viador S. Saturo, secretário Santo Anastácio, conselheiro S. João Damasceno, S. Germano, S. Melânio, e em cada um destes ofícios muitos outros santos.

Uma das profissões mais arriscadas a não ser justo é a dos ministros da justiça, ou sejam os que a sentenciam, ou os que a defendem, ou os que a escrevem, ou os que a executam; mas todos, se o fizerem com pureza de coração, podem ser santos. Santo Ereberto e Santo Tomás de Cantuária foram chanceleres; S. Hieroteu e S. Dionísio Areopagita, desembargadores; S. Pudente e Santo Apolônio, senadores; S. Fulgêncio, procurador da fazenda real; Santo Ambrósio, S. Crisóstomo e S. Cipriano, advogados; S. Marciano, S. Genésio e S. Cláudio, escrivães; Santo Anastásio e S. Ferréolo, juízes do crime; Santo Aproniano e S. Basilides, esbirros ou beleguins; e até no vilíssimo exercício de algozes foram santos S. Ciríaco, Santo Estratonico, e outros.

Em nenhum gênero de vida parece que anda mais arriscada a eterna que no daqueles que trazem a soldo a temporal à custa do sangue próprio e alheio, tão duros como o ferro de que se vestem, tão violentos como o fogo de que se armam, e tão vãos e jactanciosos como o vento que nas caixas e trombetas os chama, e nas bandeiras os guia. É porém infinito o número de soldados santos, que dando a vida constantemente por Cristo na Igreja militante, ornados de coroas e palmas entraram na triunfante. Só na perseguição de Trajano padeceram martírio de uma vez seis mil soldados, que foi a famosa Legião dos Tebeus; e na de Diocleciano e Maximiano também em um só dia dez mil, desterrados primeiro para a Armênia, e depois crucificados. Não falo nos generais, como Santo Eustáquio e Constantino, nem nos marechais, como S. Nicostrato e Santo Antíoco, nem nos tribunos eu mestres de campo, como S. Marcelino e S. Floreano, nem nos capitães de cavalos, como S. Querino e S. Vital, nem nos capitães de infantaria, como S. Górdio e S. Marcelo, nem nos alferes, como Santo Exupério e S. Juliano, porque da virtude e valor dos soldados se vê quão santos seriam os que os governavam.

S. Paulo disse que a raiz de todos os pecados é a cobiça; e estando estas raízes tão arraigadas nos que professam a mercancia, e tão estendidas em cada um por todas as partes do mundo, nem por isso deixam de produzir frutos de santidade. Delas nasceu um S. Francisco de Assis, um S. Fulgêncio, um S. Guido, e não só um, senão dois Firumêncios, ambos santos, e outros muitos.

E, se de todos estes exercícios, de sua natureza tão perigosos, e quase encontrados com aqueles em que se lavram os santos tem dado a terra ao céu tantos e tão gloriosos, que será nos ofícios e artes mecânicas, em que o trabalho, companheiro inseparável das virtudes, desterra a ociosidade, que é origem de todos os vícios? Não falando no gloriosíssimo S. José, nos Santos Apóstolos e no mesmo Cristo, que, depois de fabricar o mundo, se não desprezou de trabalhar em uma destas artes, escolhendo entre todas a que mais simpatia tinha com o lenho da cruz. S. Jacó de Boêmia foi carpinteiro, S. Sinforiano escultor, S. Paulo Helático torneiro, S. Floro serrador, Santo Elígio ourives, Santo Andrônico prateiro, S. Duustano ferreiro, S. Marciano armeiro, S. Gildas fundidor, S. Próculo pedreiro, S. Crispim sapateiro, Santo Homobono alfaiate, Santo Onúfrio tecelão, S. Gualfundo celeiro, Santo Aquilas corrieiro, S. João de Deus livreiro, Santo Isidoro lavrador, S. Maurício hortelão, S. Leonardo pastor, Santo Alderico vaqueiro, Santo Arnoldo marinheiro, S. Patênio pescador, S. Ventiro almocreve, S. Ricardo carreiro, Santo Adriano correio, S. Guilhelmo moleiro, S. Gemiano taverneiro, S. Quiríaco cozinheiro, Santo Alexandre carvoeiro, Santo Henrique carniceiro, Santo Erineu varredor das imundícias ou carretão: e não há ofício, estado e exercício tão trabalhoso, tão baixo, e ainda pouco limpo, que, se se faz com limpeza de coração, não possa fazer santos. Beati mundo corde.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Sermão de Todos os Santos (09 de 11)

IX

E se estes extremos fizeram as santas virgens por conservar a pureza virginal na paz, que fariam para a defender na guerra? A maior e mais dura guerra com que podiam combater a constância daquelas fortíssimas donzelas os amorosos inimigos, que tão prendados estavam de sua beleza, era a terrível e perigosa indiferença com que lhes propunham a eleição de um de dois extremos, ou o matrimônio ou o martírio, ou casar ou morrer, ou perder o estado virginal ou a vida. Entre estes dois extremos não se dava meio, e cada um deles, vestido das circunstâncias que o acompanhavam, ainda era mais perigoso e mais terrível, porque a vida, que se lhes oferecia no matrimônio, era adornada de jóias, de riquezas, de delícias, de grandezas, de coroas, e ainda do mesmo império do mundo; e a morte, que se lhes ameaçava no martírio, era armada de afrontas, de açoites, de cárceres, de cadeias, de grilhões, de algemas, de espadas, de torquezes, de serras, de rodas, de navalhas, de fogueiras, e de todos os instrumentos e máquinas com que pode atormentar o ferro e o fogo. Deixo os menores estados e fortunas, posto que ilustres e grandes, que a Santa Cecília se dotavam com as bodas de Valeriano, a Santa Tecla com as de Tamiris, a Santa Inês com o filho do prefeito de Roma, a Santa Luzia, a Santa Felícula, a Santa Flávia Domitila, com outros de semelhante qualidade e riqueza; só é muito, para não passar em silêncio, que a Santa Digna se oferecesse com o matrimônio a coroa de Ibérnia, a Santa Efigênia a de Etiópia, e a Santa Catarina e Santa Susana todo o Império Romano, que naquele tempo dominava o universo, a uma com as bodas do imperador Maximino, e a outra com as de Maximiano. Mas pesou tanto mais que tudo isto, na estimação daqueles invencíveis corações, a pureza virginal que professavam e tinham consagrado a Cristo, que pela conservar inteira e sem mancha dariam mil coroas e mil impérios, pesando-lhes somente de ter uma só vida, e não mil vidas, a que deram e sacrificaram pela defender. Não chegava Inês a ser mulher, porque era menina de treze anos, mas foi tão varonil e tão bizarro o seu ânimo, que não só aceitou a morte como martírio, mas a justificou como castigo. Disse, quando a levavam a morrer — como refere Santo Ambrósio — que justamente ia sentenciado e condenado à morte o seu corpo, pois contentara a outros olhos que não eram os de seu Esposo, Cristo: Pereat corpus, quod amari potest oculis quibus nolo.

E já que estamos nesta matéria, não vos quero ficar devedor de dois casos, que em toda a história eclesiástica me contentaram singularmente, e de tal resolução e bizarria que só por instinto divino se puderam empreender e executar. Nem me noteis de multiplicar tantos exemplos, porque quando se há de falar de muitos santos, senão no dia de todos? A maior desumanidade que os tiranos usavam, com as santas virgens, era mandá-las meter nas casas públicas entre as mulheres infames, para que ali perdessem por força a mesma castidade virginal que defendiam, não entendendo que esta virtude, como as demais, está na alma, e não no corpo, e que só se perde pelo consentimento, e não pelo sentimento. Sendo pois levada Santa Eufrásia a uma destas casas, seguiu-a um soldado denodado, para lograr a ocasião. Era virgem prudente, levava uma redoma de óleo consigo, e disse ao soldado desta maneira: — Com condição que desistas do teu intento, eu te darei um óleo, com o qual, se entrares untado nas batalhas, não poderás ser ferido dos inimigos. E para que vejas por experiência a virtude deste óleo, eis aqui me unto o pescoço com ele; faze tu a prova com a tua espada, e seja com toda a força. — Fê-lo assim o soldado, e, descarregando um talho com a maior força que pôde, a cabeça da santa saltou fora dos ombros, o corpo caiu morto em terra, e a pureza virginal ficou em pé e inteira. Era Santa Eufrásia de Antioquia; a que agora se segue era de Aquiléia, e chamava-se Digna. Tendo rendido aquela cidade Átila, rei dos hunos, gente feroz e bárbara, coube esta santa donzela por despojo a um capitão, o qual também a quis despojar da mais estimada jóia que, como tal, tinha consagrado a Cristo. Estavam alojados em uma torre que caía sobre o rio Natizon, e, provocada Digna do seu patrão, sem mostrar que se negava ao que ele pretendia, pediu-lhe que quisesse subir ao alto da torre, como o lugar mais retirado; subiram, e tanto que lá se viu Digna, voltada para o bárbaro que vinha atrás, disse-lhe: — Se me queres lograr, segue-me. — E dizendo isto, lançou-se da torre abaixo no rio, onde, afogando com a vida a sua injúria, salvou com a morte a sua castidade. Oh! Digna, verdadeiramente digna de eterna memória, e que ao teu valor, e ao de Eufrásia, se levantem duas estátuas de bronze no Templo da Virtude! Ambas tirastes do perigo mais purificada a pureza, uma por água, outra por sangue, merecedoras ambas que por vós se dissesse de vosso divino Esposo: Hic est Jesus, qui venit per aquam et sanguinem; non in aqua solum, sed in aqua et sanguine(11).

Mas, tornando às santas virgens, que aceitaram antes a morte que o matrimônio, só por conservar o estado virginal, ainda temos outras, que fizeram maior façanha, porque conservaram o mesmo estado virginal juntamente com o matrimônio. Isto foi conservar-se a sarça verde no meio das chamas, e não martírio que passou em um ou em poucos dias, senão de toda a vida. Santa Pulquéria, filha do imperador Arcádio, e, por morte de seu irmão Teodósio, herdeira do império, casou com Marciano, com tal condição que ela havia de guardar o voto que tinha feito de perpétua virgindade, e assim o guardou: o trono era comum, mas o tálamo dividido. Mais fizeram aqueles dois famosíssimos pares, um de Alemanha, outro de Inglaterra, a imperatriz Santa Conegundes e o imperador Santo Henrique, a rainha Santa Edita e o rei Santo Eduardo. Ambos estes príncipes foram casados, e em toda a vida, não só um deles, senão ambos, reciprocamente virgens. E por que não pareça que esta soberania anda vinculada às coroas, e só se acha em ânimos reais, na mesma virtude foram insignes Santa Basilisa e S. Julião, casados, de fortuna particular, posto que de nobre sangue. Mas se o estado do matrimônio é tão santo que, sendo dantes puro contrato, o fez Cristo um dos sacramentos de sua Igreja, e como tal uma das fontes da graça, se o uso e comércio natural dele é lícito e justo, por que se abstiveram estes santos dos interesses do mesmo comércio, do agrado tão doce e lisonjeiro dos filhos; da multiplicação da família, que o mesmo Deus chama bênção sua; da sucessão da casa própria, para a qual o que se trabalha é com gosto, e o que se adquire sem dor, porque não há de passar a outros; e, finalmente, por que se privaram daquele único reparo da mortalidade, e quiseram não só morrer em si, mas acabar consigo? Só se admirará desta resolução, como de todas as outras que temos referido, quem não souber quão grande coisa é ser santo, e quanto pode a ambição desta grandeza nos que verdadeiramente a conhecem. Tudo o que a natureza apetece, tudo o que os sentidos amam, tudo o que o gosto deseja, tudo o que mais solicita e se pega ao coração, tudo o que honra a memória e conserva a posteridade, deixaram e desprezaram estes santos; e, pelo contrário, tudo o que encontra e repugna a esses mesmos apetites naturais, tudo o que molesta e aflige esses mesmos afetos humanos, tudo mortificaram, tudo venceram, tudo sopearam, tudo abraçaram por vontade, e sem obrigação, por gosto, e sem repugnância, por amor, e sem dificuldade. Por quê? Porque queriam ser e haviam de ser santos, e por isso hoje o são, e os celebramos como bem-aventurados.

Notas:
(11) Este é Jesus Cristo, que veio com a água e com o sangue, não com a água tão-somente, senão com a água e com o sangue (1 JO. 5,6).

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Sermão de Todos os Santos (06 de 11)

VI

Vamos aos homens, e perguntai a todos os que estão no céu que coisa é ser santos? A esta pergunta não quero responder com Escrituras nem com palavras, senão com obras. As coisas estimam-se pelo que valem e pelo que custam. Tudo o que fizeram e padeceram os santos, foi por ser santos. A esperança tão longa e tão constante dos patriarcas, a fé e paciência dos profetas, o zelo e pregação dos apóstolos, os tormentos e mortes dos mártires, as penitências e asperezas dos confessores, a continência e pureza das virgens: tudo santo, e tudo por ser santos. Mas não é esta a matéria que se haja de passar e escurecer com uma tão abreviada generalidade. Discorramos por cada uma das hierarquias dos santos, e vejamos quanto se empenharam por conseguir este nome.

Olhai para os patriarcas nos dois primeiros, e vereis a Isac lançado sobre a lenha, esperando com a garganta nua o rigor, por não dizer a desumanidade do golpe, e a Abraão com a espada em uma mão, para cortar a cabeça ao único filho, e como fogo na outra, para o queimar em holocausto e sepultar em cinzas. Podia haver maior resolução, nem mais heróico e deliberado empenho, assim na sujeição do filho ao pai, como na obediência do pai a Deus? O mesmo Deus confessou que não podia ser maior. Mas, se virdes que um anjo naquele mesmo flagrante tem mão no braço a Abraão, voltai os olhos para o de Jefté, armado doutra espada e do mesmo zelo, e vereis não suspenso, mas, executado o tremendo sacrifício, derramando o pai animoso com suas próprias mãos o sangue da inocente filha, também única, e sem herdeiro. E por que vos parece que se atreveram estes dois homens a uma tão espantosa e medonha ação, de que se estremece o amor e tapa os olhos a natureza? Abraão, por não quebrar um preceito, Jefté, por não faltar a um voto, e ambos por ser santos. Abraão podia duvidar, com grande fundamento, se um preceito tão novo e inaudito, e tão repugnante às promessas que o mesmo Deus lhe tinha feito, era ilusão; Jefté, com maior razão ainda, podia duvidar se o voto naquele caso obrigava, não sendo tal a sua tenção, nem lhe tendo vindo tal coisa ao pensamento; e, contudo, ambos seguiram a parte mais dificultosa e mais segura, por não deixar em escrúpulo a salvação, nem pôr em dúvida o ser santos.

Aos patriarcas seguem-se os profetas, e aos profetas os apóstolos. E se entre os profetas vos assombrais de ver um Isaías serrado pelo meio, e um Daniel na cova dos leões, e um Jonas engolido da baleia, nos apóstolos, que foram menos em número, vereis a Pedro crucificado, a Paulo degolado, a André aspado, a Felipe apedrejado, a Bartolomeu esfolado, a Mateus e Tomé alanceados, a Simão e Tadeu espedaçados, e todos, enfim, dando o sangue e a vida em testemunho da fé que pregaram, não só para ser santos eles em si, mas para fazer santos a outros.

E que direi eu de vós, ó fortíssimo e luzidíssimo exército dos mártires, tão infinito no número como nos esquisitos gêneros de martírios? Se entro no anfiteatro de Roma, vejo-vos lançados às feras, ou lançados aos Neros, aos Décios, aos Dioclecianos, aos Trajanos, mais feros que as mesmas feras. A muitos de vós reverenciaram os leões, os ursos, os tigres, mas a nenhum perdoou a vida a impiedade mais que brutal dos tiranos, sempre mais obstinados e furiosos. As pedras de Estêvão, as setas de Sebastião, as grelhas de Lourenço e Vicente já eram tormentos vulgares. Que máquinas e invenções de atormentar não excogitou a sevícia raivosa de se ver vencida, para combater e tentar vossa fortaleza? A uns mártires penduravam pelos cabelos, ou por um pé, ou por ambos, ou pelos dedos polegares, e assim, no ar e despidos, com azorragues de nervos rematados em pelotas de chumbo ou abrolhos de aço, os batiam e martelavam com tal força e continuação os cruéis e robustos algozes, que ao princípio açoitavam corpos, depois feriam as mesmas chagas ou uma só chaga, até que não tinham já que açoitar nem ferir. A outros, estirados e desconjuntados no ecúleo, ou estendidos na catasta, aravam ou cardavam os membros com pentes e garfos de ferro, a que propriamente chamavam escorpiões, ou metidos debaixo de grandes pedras de moinho, lhes espremiam como em lagar o sangue, e lhes moíam e emprensavam os ossos, até ficarem uma pasta confusa, sem figura nem semelhança do que dantes eram. A outros cobriam todos de pez, resina e enxofre, e, ateando-lhes o fogo, os faziam arder em pé como tochas ou luminárias nas festas dos ídolos, esforçando-se para este suplício com lhes dar a beber chumbo derretido. A outros, nos mais rigorosos frios do inverno, metiam em tanques enregelados, com banhos de água quente à vista, e liberdade de se passarem a eles, para que enfraquecesse o remédio os que não vencia o tormento. A outros coziam em couros, juntamente com serpentes e cães danados, e assim os lançavam ao mar, para que naquela estreita, medonha e asquerosa prisão, primeiro acabassem mordidos e atassalhados dos dentes venenosos, do que afogados das ondas. A outros escalavam vivos pelos peitos, e lhes arrancavam o coração e entranhas palpitantes, ou lhes atavam as mãos e os pés a quatro ramos grossos de árvores, dobrados a força e soltos ao mesmo tempo, com que súbita e violentissimamente os espedaçavam em quartos. A outros assentavam em cadeiras de ferro afogueado, a outros faziam andar descalços sobre lâminas ardentes, a outros metiam em caldeiras de azeite e alcatrão fervendo, a outros em bois de metal abrasado, a outros em fornalhas de chamas vivas. E tudo isto sofriam e suportavam aqueles valorosos cavaleiros de Cristo, não só com paciência e constância, mas com júbilo e alegria. Por quê? Só por ser e segurar o ser santos, como exclama a Igreja: Omnes sancti, quanta passi sunt tormenta, ut securi pervenirent ad palmam martyrii.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Sermão de Todos os Santos (05 de 11)

V

Os anjos, que são a terceira classe dos santos que hoje celebra a Igreja, assim como nos persuadem com suas inspirações, nos ensinam com seu exemplo quão grande coisa é ser santos. O exercício dos anjos no céu é estarem sempre louvando a Deus. Nós não o sabemos louvar, porque o não vemos; eles, que o estão sempre vendo, só o louvam como devem. Mas, quais são os louvores, ou as lisonjas que os anjos cantam a Deus? O profeta Isaías, que uma vez foi admitido a os ouvir, o disse: Seraphim stabant, et clamabant alter ad alterum: Sanctus, Sanctus, Sanctus (Is. 6,2s): Estavam os serafins divididos em dois coros, e o que cantavam alternadamente a grandes vozes, era: Santo, Santo, Santo. — Isto diziam e repetiam sem cessar, como também os ouviu, daí a oitocentos anos, S. João no seu Apocalipse: Et requiem non habebant, dicentia: Sanctus, Sanctus, Sanctus (9). Se isto não estivera tão expresso em um e outro testamento, quem tal cuidara? Deus não é um objeto imenso, as grandezas de Deus não são infinitas, os anjos que o vêem e conhecem intuitivamente não são tão entendidos e tão sábios? Pois, como não variam de vozes nem de pensamento? Por que não discorrem por outras perfeições divinas, por que não louvam e não engrandecem outros atributos? Por isso mesmo. Porque vêem a Deus, porque o conhecem, e porque são entendidos. Quem louva ou lisonjeia discretamente, diz tudo o que pode e tudo o que mais agrada, e a maior grandeza que se pode dizer de Deus, e o louvor que mais lhe agrada é chamar-lhe Santo. Por isso o primeiro coro dos anjos diz Santo, e o segundo responde Santo; o primeiro torna a dizer Santo, e o segundo torna a repetir Santo; e isto dizem, e isto sempre estão dizendo sem cessar, uma e mil vezes,e isto hão de continuar a dizer por toda a eternidade, porque, depois de dizerem que Deus é Santo, Santo e mais Santo, nem os serafins do céu, que são os anjos de mais alto entendimento e de mais profunda ciência, sabem dizer mais, nem lhes fica mais que dizer. É Deus eterno, é imenso, é infinito, é onipotente, mas tudo isso são grandezas, porque estão juntas com o ser Santo. Se Deus, por impossível, não fora Santo, todos os outros seus atributos careceram da sua maior perfeição. Por isso é perfeição em Deus o ser eterno, porque é eternamente Santo; por isso é perfeição o ser imenso, porque é imensamente Santo; por isso é perfeição o ser infinito, porque é infinitamente Santo; por isso é perfeição o ser onipotente, porque é todo-poderosamente Santo: Sanctus, Sanctus, Sanctus.

Isto é o que os anjos dizem de Deus. E de si, que dizem, ou que podem dizer? O que podem e são obrigados a dizer todos os que perseveraram no céu e o não perderam, é que todo o seu bem e toda a sua felicidade consistiu em ser santos. Houve no céu entre os anjos aquela grande batalha que sabemos: Lúcifer, com os maus, rebelou-se contra Deus; S. Miguel, com os bons, seguiu as partes de seu Senhor; estes venceram, aqueles foram vencidos, e que ganharam os que ganharam a vitória, que perderam os que perderam a batalha? Nenhuma outra coisa mais que o ser ou não ser santos. Os que ganharam a vitória ganharam o ser santos, porque ficaram confirmados em graça; os que perderam a batalha perderam o ser santos, porque foram privados da mesma graça, e em tudo o mais que tinham por natureza ficaram como dantes eram.

Daqui se entenderá um famoso lugar de Ezequiel no capítulo vinte e oito, onde chama querubim a Lúcifer: Tu Cherub extentus, et protegens, et posui te in monte sancto Dei, in medio lapidum ignitorum ambulasti. Perfectus in viis tuis a die conditionis tuae, donec inventa est inquitas in te (10): Tu, ó querubim, eras o anjo de maior esfera, e que debaixo de tuas asas tinhas todos os outros:Tu Cherub extentus, et protegens. Eu te criei Santo e em graça, e te pus no céu: Posui te in monte sancto. Tu estavas entre os serafins, onde passeavas com liberdade de superior: In medio lapidum ignitorum ambulasti. E desde o dia de tua criação foste perfeito, até que em ti se achou o pecado e maldade, que tu inventaste: Perfectus in viis tuis, donec inventa est inquitas in te. Em suma, que Lúcifer, como diz o texto, e declaram conformemente todos os Padres, era por natureza serafim, e criado entre os serafins, e superior a todos. Pois, se era serafim, como lhe chama o profeta, em nome de Deus, não serafim, senão querubim? E se lhe nega o nome de serafim, porque já não era anjo, senão demônio, por que lhe chama querubim: Tu Cherub? Porque serafim significa amor e amante, e querubim significa ciência e sábio; e ainda que Lúcifer, pela rebelião e pelo pecado, perdeu o amor e a graça de Deus e os outros dons sobrenaturais, não perdeu a sabedoria e as ciências, nem os outros dotes do entendimento e da natureza, com que fora criado. Tão anjo ficou no saber, como dantes era, tão anjo no poder, tão anjo na capacidade da esfera, tão anjo na beleza e formosura natural, e em tudo o mais como dantes, e somente privado da graça e da santidade, em que por sua culpa e maldade se não quis conservar.

De sorte que a principal diferença que então houve e hoje há entre Miguel e Lúcifer, é que Miguel chama-se S. Miguel, e Lúcifer não se chama santo. Direis que também foi privado Lúcifer da glória e da vista de Deus. Não foi, porque essa ainda a não tinha, que se já tivera visto a Deus não o pudera ofender nem perder a graça e santidade. Mas, assim como Deus o privou da graça e da santidade, por que o não privou também de tudo o mais? Quando um vassalo se rebela contra seu rei, confiscam-lhe todos seus bens. Pois, se Lúcifer se rebelou contra Deus, por que lhe confiscam só a graça e a santidade, e lhe deixam tudo o mais? Porque só a graça e a santidade são bens: tudo o mais que têm os anjos maus, uma vez que não têm santidade, antes são males que bens. A ciência, sem santidade, é ignorância; a formosura, sem santidade, é fealdade; o poder, sem santidade, é fraqueza; a grandeza, sem santidade, é miséria; e por isso são os anjos maus os mais miseráveis de todas as criaturas, assim como os anjos bons os mais felizes e bem-aventurados de todas: estes porque são santos, aqueles porque não são santos.

Notas:
(9) E não cessavam de dizer: Santo, Santo, Santo (Apc. 4,8).

(10) Tu eras um querubim que estendia as tuas asas e protegia, e eu te pus sobre o monte santo de Deus, tu andaste no meio das pedras incendidas. Tu eras perfeito nos teus caminhos desde o dia da tua criação, até que a iniqüidade se achou em ti (Ez. 28,14 s).

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Sermão de Todos os Santos (4 de 11)

IV

Depois do Padre, Filho e Espírito Santo, segue-se a Filha do Padre, a Mãe do Filho, a Esposa do Espírito Santo, a Virgem Santíssima, a qual como a mais santa entre todas as mais puras criaturas nos dirá melhor que todas quão grande bem é sermos santos. No capítulo vinte e quatro do Eclesiástico nos refere a mesma Senhora como Deus, que a escolheu por morada, lhe deu a herança de tudo quanto tinha vinculado ao povo de Israel, que era o morgado do mesmo Deus: Tunc praecepit et dixit mihi creator omnium; et qui creavit me requievit in tabernaculo meo, ei dixit mihi: In Israel haereditare (7). E que vos parece que escolheria e tomaria para si a Virgem Maria de toda a universidade de bens naturais e sobrenaturais deste imenso morgado? Só tomou o que era santo, e nenhuma outra coisa. Do que não era santo, posto que fosse precioso e estimado, não quis nada, porque tudo é nada; do que era santo, tomou tudo, porque só o ser santo é tudo. Ouçamos a mesma Senhora, e ponderemos o que diz com a atenção que suas palavras merecem. Primeiramente, do que pertence ao lugar, diz que escolhe uma cidade santa e uma casa santa, para nela servir a Deus em sua presença, sem nenhum outro cuidado: In habitatione sancta coram ipso ministravi, et in civitate sanctificata similiter requievi (8). E quanto ao que pertencia à pessoa, sendo tantos e tão excelentes os dotes naturais que Deus desde seu princípio tinha repartido com as mulheres famosas daquela nação, de tudo isto nenhum caso fez a Senhora, tudo deixou, tudo desprezou, e só tomou e quis para si a santidade de todos os santos: In plenitudine sanctorum detentio mea (Eclo. 24, 16): Detive-me — diz — na enchente de todos os santos — porque tudo o que não é ser santo pode inchar, mas não pode encher — aqui me detive, aqui parei, aqui insisti e não passei, nem tive para onde passar daqui.

Oh! quem me dera ter neste auditório todas as senhoras do mundo, tão prendadas e tão presas, tão tidas e tão retidas das vaidades do mesmo mundo, para que vissem o de que só se haviam de deixar prender e deter, à imitação da maior Senhora e Rainha de todas! Tudo quanto a apreensão e fantasia feminil estima e preza, viu a benditíssima Virgem no grande teatro de Israel, de que Deus a fizera herdeira: In Israel haereditare. Viu a nobreza do sangue, antiga e ilustre em Sara, soberana e real em Micol, mas não a deteve o esplendor da nobreza, nem lhe moveu ou alterou os espíritos. Viu a formosura servida e adorada em Raquel, buscada e preferida em Abisai, mas não a deteve a formosura, nem julgou por digna de ser vista a que leva após si os olhos. Viu a fecundidade grande e invejada em Lia, maior e mais desvanecida em Fenena, mas não a deteve o apetite natural de ser mãe, nem desejou perpetuar-se em mais vidas. Viu a riqueza doméstica em Rebeca, e os tesouros reais em Sulamites, mas não a deteve cobiça ou ambição de riquezas, porque tinha o coração em outros tesouros. Viu as galas e afeitas de Jesabel, e todo o valor do Oriente engastado nas jóias de Ester, mas não a deteve a aparência vã dos aparatos do corpo, como a que só cuidava em ornar o espírito. Viu a que o mundo chama ventura nas bodas não esperadas de Rute, e nas muito mais venturosas de Séfora, mas não a deteve o especioso laço das bodas, antes lhe fizeram horror as delícias do tálamo. Viu as vitórias e triunfos de Débora, e os despojos e troféus da famosa Judite, mas não a deteve a fama com o ruído de seus aplausos, nem afetou vitórias e triunfos. Viu, finalmente, coroada Abigail, e assentada Bersabée em igual trono com Salomão, mas não a deteve a soberania daquelas alturas, porque era mais alto o seu ânimo que os tronos, e de maior esfera que as coroas.

Pois, Senhora, se todos estes bens da natureza e da fortuna, se todas estas grandezas e felicidades da vida, que os homens tanto estimam, tanto prezam e tanto invejam, nem divididas, nem juntas vos encheram os olhos, se por todas passastes pisando-as, e nenhuma vos pareceu digna, nem de vos deter um momento, nem de vos fazer parar um passo, que é o que vistes, que só vos agradou, que é o que vistes, que só vos deteve ou teve mão, para que ali parassem os passos do vosso desejo, para que dali não passassem os vossos afetos? Vi a humildade, diz a Senhora, vi o desprezo de si e do mundo, vi o recolhimento, vi o silêncio, vi a modéstia, vi a temperança, vi a paciência, vi a fortaleza, vi a mortificação das paixões e a resignação da própria vontade, vi o amor de Deus e a caridade do próximo, vi, enfim, toda a santidade, virtudes e graça de que estiveram cheios os santos, e nesta enchente de santidade é que só tomei pé, nesta parei, nesta me detive e nesta me desenho: Et in plenitudine sanctorum detentio mea. Isto é o que diz de si a Mãe de Deus. E porque este foi o seu juízo e a sua eleição, por isso foi Mãe de Deus, não só porque estimou o ser santa mais que todas as coisas, mas porque deixou e desprezou todas as coisas para ser mais santa.

Notas:

(7) Então o Criador de tudo deu-me os seus preceitos, e falou-me, e aquele que me criou descansou no meu tabernáculo, e disse-me: Possui a tua herança em Israel (Eclo. 24,12 s).

(8) Exerci diante dele o meu ministério na morada santa, e repousei na Cidade Santa (Eclo. 24, 14 s).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Sermão de Todos os Santos (03 de 11)

III

Por tão altos e tão admiráveis termos como estes nos ensinou Deus em comum quão grande coisa seja o ser santos, e o mesmo documento confirmou cada uma das três Pessoas divinas em particular, por exemplos não menos maravilhosos. — Sobre a Encarnação da Pessoa do Filho mandou o Eterno Padre por embaixador o anjo S. Gabriel, e o que lhe deu por instrução que dissesse de sua parte à Virgem Santíssima, foi que o Filho de Deus e seu, que de suas entranhas havia de nascer, seria santo: Ideoque, et quod nascetur ex te sanctum, vocabitur Filius Dei (4). De sorte que, tendo o Eterno Padre um Filho igual a si mesmo, e querendo que por segunda geração e segundo nascimento, sendo Deus, fosse também homem, o que lhe deu a ele, e o que prometeu à sua Mãe, foi que seria santo: Quod nascetur ex te sanctum. Notai o sanctum e o ex te: santo, e de vós. Não lhe deu riquezas, porque o fez Filho de uma Mãe muito pobre: ex te; não lhe deu honras, porque o fez Filho de uma Mãe muito humilde: ex te; não lhe deu mandos, nem dignidades, nem impérios temporais, porque, ainda que a Virgem era descendente de reis, todos esses cetros e coroas tinham já degenerado aos instrumentos mecânicos de um oficial, com quem era desposada: ex te. E, que lhe deu? Deu-lhe o ser santo: Quo nascetur ex te sanctum. Pois a seu Filho não lhe daria outra coisa um Pai onipotente? Os pais, tudo quanto têm e tudo quanto podem, dão a seus filhos, e mais, se são primogênitos e únicos, como Cristo era. Pois a um Filho primogênito, a um Filho único, um Pai todo-poderoso, um Pai Deus e Senhor de tudo, não lhe dá outra coisa mais que o ser santo? Não, e por isso mesmo. Ao Filho primogênito e único do Eterno Padre competia-lhe a herança de todos os bens de seu pai; e todos os bens que Deus tem, e todos os que pode dar, é fazer a um homem santo e mais santo, porque tudo o mais, ou não é nada, ou, para ser alguma coisa, há de ser também santificado e santo. Enquanto Filho, herdeiro de sua Mãe, pertenciam-lhe ao mesmo Cristo o cetro de Davi e a casa de Jacó, que também Deus lhe mandou prometer: Dabit illi sedem David patris ejus, et regnabit in domo Jacob (5); mas essa mesma casa e esse mesmo cetro deu-lhe Deus a seu Filho por tal modo que, de temporal que era, o converteu em espiritual, para que tudo nele fosse só santidade, e ele, por todos os modos, mais e mais santo.

Vede como dizem o que digo, os que viram o mesmo Unigênito do Padre: Vidimus gloriam ejus, gloriam quasi unigeniti a Patre, plenum gratiae et veritatis (6): Vimos — diz S. João — a sua glória, a sua majestade, a sua grandeza, e bem mostrava que era glória, que era majestade, que era grandeza de Filho Unigênito do Eterno Padre. — E em que consistia essa glória, essa majestade e essa grandeza? Plenum gratiae et veritatis: em ser cheio de graça e de verdade. — A graça é a santidade formal, ou a forma santificante, que faz e denomina santos; e nesta graça, nesta santidade, neste ser santo consistia toda a glória, toda a grandeza e toda a majestade do único herdeiro do Padre. E se perguntardes ao evangelista a razão de serem só estes os bens que contém a herança de um Pai todo-poderoso e Senhor de tudo, o mesmo evangelista tem já dado a razão nas mesmas palavras: Plenum gratiae et veritatis: cheio de graça e de verdade. Porque tudo o que não é graça de Deus e santidade, é mentira. As riquezas mentira, as honras mentira, os mandos mentira: só o estar em graça de Deus é verdade, só o viver em graça de Deus é verdade, só o morrer em graça de Deus, em que consiste o ser santo, é verdade: Plenum gratiae et veritatis. Isto deu o Eterno Padre a seu Filho, para que vós aprendais a saber o que haveis de procurar aos vossos. Procurai-lhes que sejam santos, e esta é a maior riqueza, a maior honra, a maior felicidade que lhes podeis alcançar, e os maiores e só verdadeiros bens de que os podeis deixar por herdeiros.

Vamos à Pessoa do Filho. A Pessoa do Filho é a Sabedoria de Deus. Fez-se homem a Sabedoria Divina, veio ao mundo para ensinar aos homens, e que lhes ensinou? Nenhuma outra coisa, senão a ser santos. Naquela escada de Jacó, como todos sabeis, representou-se em visão e profecia a Encarnação do Verbo Encarnado. No alto da escada estava Deus inclinado sobre ela, porque uma das Pessoas divinas havia de descer ao mundo; ao pé da escada estava Jacó, que era o homem, ou o gênero humano, porque o modo com que Deus havia de descer era encarnando e fazendo-se homem; e a escada chegava da terra ao céu, porque o fim do mistério da Encarnação, e o fim por que Deus desceu do céu à terra, foi para ensinar e mostrar ao homem como havia de subir da terra ao céu. E para esta subida tão notável e tão nova, que até então estava ignorada, que é o que ensinou o Deus que desceu e encarnou, que é o que ensinou o Verbo e a Sabedoria divina a Jacó, ou ao homem, que nele se representava? O mesmo Verbo o diz no capítulo décimo da mesma Sabedoria, falando do mesmo Jacó: Ostendit illi regnum Dei, et dedit illi scientiam sanctorum (Sab. 10,10): Mostrou-lhe o céu e o reino de Deus, e ensinou-lhe a ciência de ser santo. — De sorte que, vindo a Sabedoria divina em pessoa, e descendo do céu à terra a ser Mestre dos homens, a nova cadeira que instituiu nesta grande universidade do mundo, a ciência que professou, foi só ensinar a ser santos, e nenhuma outra. A Retórica deixou-a aos Túlios e aos Demóstenes: a Filosofia aos Platões e aos Aristóteles; as Matemáticas aos Tolomeus e aos Euclides; a Medicina aos Apolos e aos Esculápios; a Jurisprudência aos Solões e aos Licurgos: e para si tomou só a ciência de ensinar a salvar e fazer santos: Regnum Dei, et scientiam sanctorum.

Em todas as ciências, é certo que há muitos erros, dos quais nasce a diferença das opiniões; em todas as ciências há muitas ignorâncias, as quais confessam todos os maiores letrados que não compreendem nem alcançam. Pois, se vinha a Sabedoria de Deus ao mundo, por que não alumiou estes erros, por que não tirou estas ignorâncias? Porque errar ou acertar em todas estas matérias, sabê-las ou não as saber, nenhuma coisa importa: o que só importa é saber salvar, o que só importa é acertar a ser santos, e isto é o que só nos veio ensinar o Filho de Deus. Nem ensinou aos filósofos a composição do contínuo, nem aos geômetras a quadratura do círculo, nem aos mercantes a altura de Leste a Oeste, nem aos químicos o descobrimento da pedra filosofal, nem aos médicos as virtudes das ervas, das plantas, das pedras e dos mesmos elementos, nem aos astrólogos e astrônomos o curso, a grandeza, o número, as influências dos astros: só nos ensinou a ser humildes, só nos ensinou a ser castos, só nos ensinou a desprezar as riquezas, só nos ensinou a perdoar as injúrias, só nos ensinou a sofrer as perseguições, só nos ensinou a chorar e aborrecer os pecados, e a amar e exercitar as virtudes, porque estas são as regras e as conclusões, estes os preceitos e os teoremas por onde se aprende a ser santos, que é a ciência que professou e veio ensinar a Pessoa do Filho de Deus: Scientiam sanctorum.

A Pessoa do Espírito Santo com o seu próprio nome nos prova e confirma o mesmo. O Padre também é espírito, e também é santo. Pois, por que se chama só a terceira Pessoa Espírito Santo? A razão é — dizem todos os teólogos — porque ao Espírito Santo compete o ofício de santificar e de fazer santos. Todas as obras de Deus, que chamam ad extra, isto é, que saem de Deus e se terminam às criaturas, são indivisamente de toda a Santíssima Trindade, na qual o poder e o obrar não só é igual, senão um só e o mesmo. Mas por certa propriedade, fundada na natureza ou origem das mesmas pessoas, umas obras se atribuem a umas pessoas, e outras a outras. E porque à terceira Pessoa se atribui particularmente o santificar e fazer santos, por isso se chama Santo.

E para que vejais quão grande significação é na mesma Pessoa do Espírito o nome de Santo e o atributo ou atribuição de santificar, notai o muito que com ela se supre, e a grande carência ou vazio que com ela se enche. O nome ou antonomásia de Santo, e o ofício de santificar e fazer santos não lhe pudera competir ao Pai, que é a fonte original e irascível da santidade? Não lhe pudera competir ao Filho, que foi o que, encarnando, nos mereceu essa mesma santidade? Sim. Pois por que se deu ao Espírito Santo? Disse com alto pensamento Ruperto, que para suprir a infecundidade da terceira Pessoa. A divindade no Padre é fecunda, no Filho é fecunda, no Espírito Santo não é fecunda. No Padre é fecunda, porque gera o Filho; no Filho é fecunda, porque, juntamente com o Padre, produz o Espírito Santo; no Espírito Santo só não é fecunda, porque não produz outra Pessoa divina. Pois, que meio podia haver para suprir na terceira Pessoa esta infecundidade? O meio foi cederem nela as outras Pessoas divinas a virtude ou atribuição de santificar e fazer santos e o título e antonomásia de se chamar Santo. A terceira Pessoa não pode gerar nem produzir pessoa que seja Deus? Pois faça santos. A terceira Pessoa não se pode chamar Pai nem se pode chamar Filho? Pois chame-se Santo. Tão grande, tão alta, tão sublime, tão divina coisa é ser Santo, e com tão maravilhosos documentos nos ensinaram esta verdade em si mesmas as três Pessoas divinas.

Notas:
(4) Por isso mesmo o santo que há de nascer de ti será chamado Filho de Deus (Lc. 1,35).

(5) Dar-lhe-á o trono de seu pai Davi, e reinará eternamente na casa de seu pai Jacó (Lc. 1,32).

(6) Nós vimos a sua glória, glória como de Filho unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade (Jo. 1, 14).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Sermão de Todos os Santos (02 de 11)

II

Beati mundo corde.

A mais poderosa inclinação e o mais poderoso apetite do homem é desejar ser. Bem nos conhecia este natural o demônio, quando esta foi a primeira pedra sobre que fundou a ruína a nossos primeiros pais. A primeira coisa que lhe disse e que lhe prometeu foi que seriam: Eritis (Gên. 3,5), e este eritis, este sereis foi o que destruiu o mundo. Não está o erro em desejarem os homens ser, mas está em não desejarem ser o que importa. Uns desejam ser ricos, outros desejam ser nobres, outros desejam ser sábios, outros desejam ser poderosos, outros desejam ser conhecidos e afamados, e quase todos desejam tudo isto, e todos erram. Só uma coisa devem os homens desejar ser, que é ser santos. Assim emendou Deus o sereis do demônio com outro sereis, dizendo: Sancti eritis, quia Ego sanctus sum (2). O demônio disse: Sereis como Deus, sendo sábios; e Deus disse: Sereis como Deus, sendo santos. E vai tanto de um sereis a outro sereis, que o sereis do demônio não só nos tirou o ser como Deus, mas tirou-nos também o ser, porque nos tirou o ser santos, e o sereis de Deus, exortando-nos a ser santos, como ele é, não só nos restitui o ser como Deus, senão também o ser. Quando Moisés perguntou a Deus o que era, respondeu Deus definindo-se: Ego sum qui sum (Êx. 3,14): Eu sou o que sou — porque só Deus tem por essência o ser. Agora diz a todos os homens por boca do mesmo Moisés: Se sois tão amigos e tão ambiciosos de ser, sede santos, e sereis, porque tudo o que não é ser santo, é não ser. Sede rei, sede imperador, sede papa: se não sois santo, não sois nada. Pelo contrário, ainda que sejais a mais vil e mais desprezada criatura do mundo, se sois santo, sois tudo o que pode chegar a ser o maior e mais bem afortunado homem, porque sois como aquele que só é e só tem ser, que é Deus. Todo o outro ser, por maior que pareça, não é, porque vem a parar em não ser. Só o ser santo é o verdadeiro ser, porque é o que só é, e o que há de permanecer por toda a eternidade.

Bastava esta só razão para os homens, que temos alma imortal, desejarmos a santidade sobre todas as coisas, e desprezarmos todas as coisas só por ser santos. Mas quero que os mesmos santos e todos os santos nos ensinem e animem a esta verdade. Todos os santos quantos há e pode haver, pela mesma ordem em que hoje os celebra a Igreja, se reduzem a quatro classes. Deus, que também se preza de ser e de se chamar santo; a Mãe de Deus, que é a mais santa entre todas as puras criaturas; os santos anjos, repartidos em nove coros; os homens santos, divididos em seis hierarquias. Ora, vejamos como todos estes santos nos ensinam a estimar sobre tudo o ser santos, e comecemos por Deus.

Se perguntarmos aos teólogos qual é o maior atributo de Deus, responder-nos-ão que todos são iguais, porque todos e cada um deles é Deus. Mas se perguntarmos qual é o que mais declara e engrandece o ser do mesmo Deus, S. Dionísio Areopagita, que é o que mais altamente escreveu dos atributos divinos, diz que o ser santo: Deus per excellentiam cuncta excellentem Sanctus Sanctorum praedicatur. Quando dizemos que Deus é santo, e Santo dos Santos, louvamos em Deus uma excelência que é mais excelente que todas: Excellentiam cuncta excellentem. O grande doutor da Igreja, Santo Ambrósio, ainda disse mais, ou com maior expressão: Nihil pretiosius invenimus, quo Deus praedicare possimus, nisi ut sanctum apellemus: quodlibet aliud inferius est Deo, inferius est Domino: Quando queremos louvar e engrandecer a Deus, nenhuma coisa achamos de maior estimação e de maior preço que chamar-lhe santo, porque tudo o demais que dissermos é inferior a Deus, e só quando lhe chamamos santo dizemos o que é. Antigamente, como Deus era só conhecido em Judéia, no resto do mundo havia muitos chamados deuses, os quais todos tinham sacrifícios e sacerdotes. E que fez o verdadeiro Deus para se distinguir dos deuses falsos? Mandou que o seu Sumo Sacerdote trouxesse na testa uma lâmina de ouro com esta letra: Sanctum Domino (Êx. 28,36): A santidade ao Senhor — porque só aquele Senhor, que tem por atributo o ser santo, é o verdadeiro Deus.

Mais fizeram os profetas, os quais, falando de Deus, deixavam o nome de Deus, e o trocavam pelo nome de Santo. Lede Isaías e os demais, e achareis: Ad Sanctum Israel respicient: Blasphemaverunt Sanctum Israel: In Sancto Israel laetaberis: Venia consilium Sancti Israel (3), e assim em muitos outros lugares, não havendo panegírico, invectiva ou declamação em que não tragam sempre na boca o Santo de Israel, o Santo de Israel. E que Santo de Israel é este? É Abraão, Isaac, ou Jacó? É Moisés, Josué, ou Davi? É Elias ou Eliseu? Não. O Santo de Israel, de que falam os profetas, é Deus. Pois, se é Deus, por que lhe não chamam Deus, ou o Deus de Israel, senão o Santo de Israel? Porque em Israel havia naquele tempo muitos idólatras, que veneravam e sacrificavam aos deuses falsos da gentilidade; e para distinguir o Deus verdadeiro dos deuses falsos, não acharam os profetas outra diferença mais individual, nem outra distinção mais adequada, que chamar-lhe o Santo. Se lhe chamaram Deus, equivocava-se o nome de Deus com o dos ídolos, a quem os idólatras também chamavam deuses; mas chamando-lhe o Santo, tiravam toda a equivocação e toda a dúvida, porque só o atributo da santidade era o que distinguia e provava no Deus de Israel a única e verdadeira divindade. Tanto significa, tanto monta, e tão alta e divina coisa é, ainda no mesmo Deus, o ser santo.

Mas, se os profetas queriam distinguir o Deus verdadeiro dos falsos, por que não fundavam a distinção na verdade, senão na santidade? Por que não diziam o verdadeiro de Israel, senão o Santo de Israel? Porque, ainda que o verdadeiro se opõe formalmente ao falso, mais se qualifica o ser divino pelo atributo de santo que pelo de verdadeiro. Ouvi uma das maiores ponderações com que se pode avaliar e conhecer quão sublime e divina coisa é, ainda na estimação e veneração do mesmo Deus, o ser santo. Jurou Deus a Davi que seria o seu reino eterno, porque dele descenderia o Messias; e como fez Deus este juramento, ou por quem jurou? Coisa estupenda! Semel juravi in sancto meo, si David mentiar: semen ejus in aeternum manebit (SI. 88, 36): Jurei a Davi, pelo meu Santo, que não hei de faltar à verdade do que lhe prometi, e que há de ser pai do Messias. — In Sancto meo, pelo meu Santo! E que santo é este, pelo qual Deus jura? Já sabeis que juramento se faz sempre por aquilo que mais se venera ou mais se estima. Fora de nós, juramos pela vida de el-rei, pela cruz, por Cristo, por Deus, porque é o que mais veneramos, dentro em nós, juramos por nossa vida, por nossa alma, porque é o que mais estimamos. Da mesma maneira, não tendo Deus fora de si por quem jurar, jura pelo que tem dentro em si, e jura por si mesmo, enquanto santo, porque o ser santo é o que mais estima, o que mais preza, e, se se pode dizer assim, o que mais venera. Parece que havia Deus de jurar pela sua verdade, e jura pela sua santidade, como se ficara mais estabelecida a verdade do seu juramento na firmeza da sua santidade que da sua mesma verdade. Em Deus tudo é igual, e tão verdadeiro é como santo, e tão santo como verdadeiro; mas buscando Deus dentro de si mesmo um atributo que, ou fosse ou parecesse mais soberano e mais digno de veneração, pelo qual pudesse jurar, jurou Deus verdadeiro por Deus Santo: Semel juravi in Sancto meo.

(2) Vós sereis santos, porque eu sou santo (Lev. 11, 45).

(3) Olharão para o Santo de Israel (Is. 17,7).
— Blasfemaram o Santo de Israel (Is. 1,4).
— Alegrar-te-ás no Santo de Israel (Is. 41,16).
— Chegue-se o conselho do Santo de Israel (Is. 5,19).


segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Sermão de Todos os Santos (01 de 11)

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Postaremos também, a partir de agora, uma série contendo o "sermão de Todos os Santos" do padre António Vieira, sj. São instruções interessantes e salutares acerca do ser santo. Como ele é bastante extenso e dividido em 11 partes, as postagens serão de acordo com essas divisões feitas pelo próprio autor.
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Beati mundo corde (1).

I

A festa mais universal e a festa mais particular, a festa mais de todos e a festa mais de cada um, é a que hoje celebra e nos manda celebrar a Igreja. É a festa mais universal e mais de todos, porque, começando pela fonte de toda a santidade, que é Cristo, e pela Rainha de todos os santos, que é a Virgem Santíssima, fazemos festa hoje a todas as hierarquias dos anjos, fazemos festa aos patriarcas e aos profetas, aos apóstolos e aos mártires, aos confessores e às virgens. E não há bem-aventurado na Igreja triunfante, ou canonizado ou não canonizado, ou conhecido ou não conhecido na militante, que não tenha a sua parte ou o seu todo neste grande dia. E este mesmo dia tão universal e tão de todos, é também o mais particular e mais próprio de cada um, porque hoje se celebram os santos de cada nação, os santos de cada reino, os santos de cada religião, os santos de cada cidade, os santos de cada família. Vede quão nosso e quão particular é este dia. Não só celebramos os santos desta nossa cidade, senão cada um de nós os santos da nossa família e do nosso sangue. Nenhuma família de cristãos haverá tão desgraciada que não tenha muitos ascendentes na glória. Fazemos pois hoje festa a nossos pais, a nossos avós, a nossos irmãos, e os que tendes filhos no céu, ou inocentes ou adultos, fazeis também festa hoje a vossos filhos. Ainda é mais nossa esta festa, porque, se Deus nos fizer mercê de que nos salvemos, também virá tempo, e não será muito tarde, em que nós entremos no número de todos os santos, e também será nosso este dia. Agora celebramos, e depois seremos celebrados: agora nós celebramos a eles, e depois outros nos celebrarão a nós. Esta última consideração, que é tão verdadeira, foi a que fez alguma devoção à minha tibieza neste dia tão santo, e quisera tratar nele alguma matéria que nos ajude a conseguir tão grande felicidade. Dividirei tudo o que disser em dois discursos, fundados nas duas palavras que tomei por tema, e nas duas do título da festa. Pois a festa é de todos os santos, no primeiro discurso veremos quão grande coisa é ser santos, e no segundo, quão facilmente o podemos ser todos. O primeiro nos dá a primeira palavra do tema: beati; o segundo nos dará a segunda: mundo corde. Digamos à Virgem Santíssima: Regina Sanctorum omnium ora pro nobis, e ofereçamos-lhe a costumada Ave Maria.

(1) Bem-aventurados os limpos de coração (Mt. 5,8).

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Contra a verdade não temos poder algum; temo-lo apenas em prol da verdade.(II Coríntios 13,8)