Contra a verdade não temos poder algum; temo-lo apenas em prol da verdade. (II Coríntios 13,8)
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terça-feira, 7 de agosto de 2012

“Se Deus existe”, por Santo Tomás de Aquino


De Estudos Tomistas



Suma Teológica, I, q. 2, a. 3
[Tradução: Carlos Nougué]

Se Deus existe

Quanto ao artigo terceiro, assim se procede: parece que Deus não existe.

1. Porque, se de dois contrários um fosse infinito, o outro seria completamente destruído. Ora, sob o nome de Deus se entende que existe um bem infinito. Se, portanto, Deus existisse, não haveria mal algum. Mas dá-se o mal no mundo. Logo, Deus não existe.
2. Ademais, o que pode ser realizado por poucos princípios não é feito por muitos. Ora, parece que tudo o que se vê no mundo, suposto que Deus não existe, pode ser realizado por outros princípios, porque tudo o que é natural se reduz ao princípio que é a natureza, e tudo o que é intencional se reduz ao princípio que é a razão ou a vontade humanas. Por conseguinte, não é necessário admitir que Deus exista.

Mas, em sentido contrário, temos o que se diz em Êxodo III da pessoa de Deus: “Eu sou Aquele que sou”.

Resposta. Deve-se dizer que se pode provar a existência de Deus por cinco vias.
primeira e mais evidente via é a que parte do movimento. Sim, porque é certo, e os sentidos o constatam, que neste mundo há coisas que se movem. Tudo o que se move, porém, é movido por outro. Nada, portanto, pode mover-se senão na medida em que está em potência para aquilo para o qual é movido, e nada move algo senão na medida em que está em ato. Assim, mover não é senão fazer passar algo de potência a ato, e nada pode reduzir-se de potência a ato senão por um ente em ato, assim como algo quente em ato, como o fogo, faz com que a madeira, que é quente em potência, seja quente em ato, e por isso a move e altera. Ora, não é possível que uma mesma coisa esteja simultaneamente em ato e potência pelo mesmo aspecto, mas só por aspectos diversos, assim como o que é quente em ato não pode ser simultaneamente quente em potência, mas é simultaneamente frio em potência. Logo, é impossível que, pelo mesmo aspecto e do mesmo modo, algo mova e seja movido, ou que se mova a si mesmo. É preciso, pois, que tudo o que se move seja movido por outro. Se, portanto, o que move é também movido, é-o necessariamente por outro, e este por outro. Aqui, porém, não se deve proceder ao infinito, porque neste caso não haveria primeiro motor; e consequentemente tampouco haveria outros motores, porque os segundos motores não se movem senão na medida em que são movidos por um primeiro motor, assim como um báculo não se move senão porque é movido pela mão. Logo, é preciso chegar a um primeiro motor, que não seja movido por outro, e este primeiro motor é o que todos entendem por Deus.
segunda via parte da razão de causa eficiente. Com efeito, nas coisas sensíveis encontramos a existência de certo ordenamento de causas, mas não encontramos nem é possível que algo seja causa eficiente de si mesmo; porque neste caso seria anterior a si mesmo, o que é impossível. Ora, tampouco é possível que nas causas eficientes se proceda ao infinito. Sim, porque, entre todas as causas eficientes ordenadas, a primeira é causa da intermediária, e a intermediária da causa última, sejam muitas as causas intermediárias, seja somente uma, e, suprimida a causa, se suprime também o efeito, donde, se não se admite uma primeira entre as causas eficientes, não haveria a última nem a intermediária. Se, pois, se procedesse ao infinito nas causas eficientes, não haveria a primeira causa eficiente, e, assim, tampouco haveria o último efeito nem causa eficiente intermediária, o que evidentemente é falso. Logo, é necessário admitir uma primeira causa eficiente, a que todos chamam Deus.
terceira via é tomada do possível e do necessário, e é a seguinte. Encontramos coisas que podem ser e não ser, pois, se as vemos gerar-se e corromper-se, é porque podem ser e não ser. Ora, é impossível que coisas que são assim sejam sempre, porque o que pode não ser não é em algum momento. Se, pois, todas as coisas podem não ser, houve um momento em que nada era. Ora, se isso fosse verdadeiro, nada seria agora, porque o que não é não começa a ser senão pelo que é; se, portanto, nenhum ente tivesse sido, teria sido impossível que algo começasse a ser, e por isso mesmo nada seria, o que patentemente é falso. Nem todos os entes, portanto, são [somente] possíveis, mas é preciso haver algo necessário entre as coisas. Ora, tudo o que é necessário ou tem a causa de sua necessidade em outro, ou não. Ademais, não é possível proceder ao infinito nas coisas necessárias que têm uma causa para sua necessidade, assim como tampouco nas causas eficientes, como se provou. Logo, é necessário admitir algo que seja necessário per se, que não encontre em outro a causa de sua necessidade, mas seja a causa da necessidade para os outros, e é a este algo que todos chamam Deus.
quarta via é tomada dos graus que se encontram nas coisas. Com efeito, encontra-se nas coisas algo mais ou menos bom, mais ou menos verdadeiro, mais ou menos nobre, e assim quanto a tudo o mais. Ora, o mais e o menos se dizem de diversos conforme se aproximam de modo diverso de algo que é máximo, assim como algo é tanto mais quente quanto mais se aproxima do maximamente quente. Existe algo, pois, que é sumamente verdadeiro, sumamente bom, sumamente nobre, e consequentemente ente máximo, porque tudo o que é maximamente verdadeiro é ente máximo, como se diz no livro II da Metafísica [de Aristóteles]. Ora, o que se diz máximo em algum gênero é causa de tudo o que está em tal gênero, assim como o fogo, que é maximamente quente, é causa de tudo o que é quente, como se diz no mesmo livro. Logo, há algo que para todos os entes é causa de seu ser, de sua bondade e de sua perfeição, e a este algo chamamos Deus.
A quinta via é tomada do governo das coisas. Com efeito, vemos que as coisas desprovidas de cognição, como os corpos naturais, operam conforme a um fim, o que se mostra pelo fato de que, sempre ou frequentemente, têm o mesmo modo de operar, para alcançar o ótimo; donde se patenteia que não por acaso, mas por uma intenção, alcançam seu fim. Ora, aquilo que é desprovido de cognição não tende a um fim senão na medida em que é dirigido por algo cognoscente e inteligente, assim como a flecha o é pelo arqueiro. Logo, existe algo inteligente por quem todas as coisas naturais são ordenadas a seu fim, e a este algo chamamos Deus.

Quanto ao primeiro argumento, deve-se dizer, como diz Agostinho no Enquirídio, que, “sendo Deus sumamente bom, não permitiria que houvesse nada mau em suas obras se não tivesse suficiente poder e bondade para extrair o bem do mesmo mal”. Logo, à infinita bondade de Deus pertence o permitir que haja males, para deles extrair o bem.
Quanto ao segundo, deve-se dizer que, como a natureza opera por determinado fim sob a direção de um agente superior, é necessário reduzir a Deus, como à sua causa primeira, tudo o que a natureza faz. Similarmente, tudo quanto é feito intencionalmente deve ser reduzido a uma causa superior que não seja a razão e a vontade humanas, porque estas são mudáveis e defectíveis; é preciso, pois, que tudo o que é movível e defectível se reduza a um primeiro princípio imóvel e per se necessário, como se demonstrou.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O Teorema da Incompletude de Gödel: A Descoberta Matemática Nº 1 do Século XX


Em 1931, Kurt Gödel desferiu um golpe devastador nos matemáticos de sua época
Em 1931, o jovem matemático Kurt Gödel fez uma descoberta-marco, tão poderosa quanto qualquer coisa que Albert Einstein desenvolveu.
A descoberta de Gödel não se aplica somente à matemática, mas literalmente a todos os ramos da ciência, lógica e conhecimento humano. Ela tem verdadeiramente implicações que abalam a Terra.
Estranhamente, poucas pessoas sabem qualquer coisa sobre ela.
Permita-me contar-lhe a história.
Os matemáticos adoram provas. Eles estavam furiosos e chateados por séculos, porque eles eram incapazes de PROVAR algumas das coisas que eles sabiam que era verdade.
Por exemplo: se você estudou geometria no colégio, você fez os exercícios onde você prova todos os tipos de coisas sobre os triângulos, baseado em uma lista de teoremas.
Aquele livro de geometria do colégio é feito sobre os cinco postulados de Euclides. Todos sabem que os postulados são verdadeiros, mas em 2500 anos ninguém imaginou um meio de prová-los.
Sim, parece sim perfeitamente razoável que uma linha possa ser estendida infinitamente em ambas as direções, mas ninguém tem sido capaz de PROVAR isso. Nós só podemos demonstrar que eles são um conjunto de 5 suposições razoáveis e de fato necessárias.
Grandes gênios matemáticos estavam frustrados por mais de 2000 anos porque eles não podiam provar todos os seus teoremas. Havia muitas coisas que eram “obviamente” verdade, mas ninguém conseguia imaginar um meio de prová-los.
No início dos anos 1900, entretanto, um tremendo senso de otimismo começou a crescer nos círculos matemáticos. Os matemáticos mais brilhantes do mundo (como Bertrand Russell, David Hilbert e Ludwig Wittgenstein) estavam convencidos que estavam rapidamente se aproximando de uma síntese final.
Uma “Teoria de Tudo” unificada, que finalmente amarraria todos os pontos soltos. A matemática seria completa, à prova de balas, hermética, triunfante.
Em 1931, este jovem matemático austríaco, Kurt Gödel, publicou um artigo que de uma vez por todas PROVOU que uma única Teoria de Tudo é realmente impossível.
A descoberta de Gödel foi chamada de “O Teorema da Incompletude”.
Se você me der alguns minutos, eu lhe explicarei o que ele diz, como Gödel o descobriu e o que ele significa – em português simples e direto que qualquer um pode entender.
O Teorema da Incompletude de Gödel diz:
“Qualquer coisa em que você pode desenhar um círculo ao redor não pode ser explicada por si mesma sem se referir a algo fora do círculo – algo que você tem que assumir mas não pode provar.”
Expresso em Linguagem Formal:
O teorema de Gödel diz: “Qualquer teoria efetivamente gerada capaz de expressar aritmética elementar não pode ser tanto consistente quanto completa. Em particular, para qualquer teoria formal consistente e efetivamente gerada que prova certas verdades aritméticas básicas, existe uma afirmação aritmética que é verdadeira, mas que não pode ser provada em teoria.”
Tese de Church-Turing diz que um sistema físico pode expressar aritmética elementar assim como um humano pode, e que a aritmética de uma Máquina de Turing (um computador) não pode ser provado dentro do sistema e é igualmente sujeito à incompletude.
Qualquer sistema físico sujeito a medição é capaz de expressar aritmética elementar. (Em outras palavras, crianças podem fazer matemática contando em seus dedos, uma água fluindo para um balde faz integração e sistemas físicos sempre dão a resposta certa.)
Portanto, o Universo é capaz de expressar aritmética elementar e, tanto como a própria matemática e uma máquina de Turing, é incompleto.
Silogismo:
1. Todos os sistemas computacionais não-triviais são incompletos.
2. O Universo é um sistema computacional não-trivial.
3. Portanto, o Universo é incompleto.
Você pode desenhar um círculo ao redor de todos os conceitos no seu livro de geometria do colégio. Mas eles são todos feitos sobre os 5 postulados de Euclides que claramente são verdade mas que não podem ser provados. Esses 5 postulados estão fora do livro, fora do círculo.
Você pode desenhar um círculo ao redor de uma bicicleta, mas a existência dessa bicicleta depende de uma fábrica que está fora do círculo. A bicicleta não pode explicar a si mesma.
Gödel provou que há SEMPRE mais coisas que são verdadeiras do que você pode provar. Qualquer sistema de lógica ou números que os matemáticos possam trazersempre se baseará em pelo menos umas poucas suposições que não podem ser provadas.
O Teorema da Incompletude de Gödel não se aplica somente à matemática, mas a tudo que está sujeito às leis da lógica. A incompletude é verdade na matemática, e é igualmente verdade na ciência, na linguagem ou na filosofia.
E, se o Universo é matemático e lógico, a Incompletude também se aplica ao Universo.
Gödel criou sua prova começando com o “Paradoxo do Mentiroso” — que é a afirmação:
“Eu estou mentindo.”
“Eu estou mentindo” é autocontraditória, já que, se é verdade, eu não sou um mentiroso, e, se é falsa, eu sou um mentiroso, então é verdade.
Então Gödel, em um dos movimentos mais engenhosos da história da matemática, converteu o Paradoxo do Mentiroso em uma fórmula matemática. Ele provou que qualquer afirmação requer um observador externo.
Nenhuma afirmação sozinha pode completamente provar a si mesma como verdadeira.
O seu Teorema da Incompletude foi um golpe devastador no “positivismo” da época. Gödel provou o seu teorema preto no branco, e ninguém podia discutir com a sua lógica.
Ainda assim, alguns de seus amigos matemáticos foram para o túmulo negando, acreditando que de alguma forma ou outra Gödel deveria certamente estar errado.
Ele não estava errado. Era mesmo verdade. Existem mais coisas que são verdade do que você pode provar.
Uma “teoria de tudo” – seja na matemática, na física ou na filosofia – nunca será encontrada. Porque é impossível.
OK, o que isso então realmente significa? Por que isso é superimportante, e não apenas um factoide geek?
Isso é o que significa:
  • Fé e Razão não são inimigas. Na verdade, o exato oposto é verdade! Uma é absolutamente necessária para que a outra exista. Todo o raciocínio ao final leva de volta à fé em algo que você não pode provar.
  • Todos os sistemas fechados dependem de algo fora do sistema.
  • Você pode sempre desenhar um círculo maior, mas existirá sempre algo fora do círculo.
  • O raciocínio de um círculo maior para um menor é “raciocínio dedutivo.”
Exemplo de um raciocínio dedutivo:
1. Todos os homens são mortais
2. Sócrates é um homem
3. Portanto, Sócrates é mortal
  • O raciocínio de um círculo menor para um maior é “raciocínio indutivo.”
Exemplos de raciocínio indutivo:
1. Todos os homens que conheço são mortais
2. Portanto, todos os homens são mortais
1. Quando eu largo objetos, eles caem
2. Portanto, há uma lei da gravidade que governa objetos de caem
Note que quando você se move do círculo menor para o maior, você tem que fazer suposições que não pode provar 100%.
Por exemplo: você não pode PROVAR que a gravidade sempre será consistente todas as vezes. Você só pode observar que ela é consistentemente verdadeira toda vez. Você não pode provar que o Universo é racional. Você só pode observar que fórmulas matemáticas como E = mc² parecem sim descrever perfeitamente o que o Universo faz.
Praticamente todas as leis científicas estão baseadas no raciocínio indutivo. Estas leis apoiam-se em uma afirmação de que o Universo é lógico e baseado em leis fixas que podem ser descobertas.
Você não pode PROVAR isto. (Você não pode provar que o sol virá amanhã de manhã também.) Você literalmente tem que usar a fé. Na verdade, a maioria das pessoas não sabem que além do círculo da ciência existe um círculo da filosofia. A ciência está baseada em suposições filosóficas que você não pode provar cientificamente. Realmente, o método científico não pode provar, só pode inferir.
(A ciência originalmente surgiu da ideia de que Deus fez um Universo ordenado que observa leis fixas e que podem ser descobertas.)

Agora por favor considere o que acontece quando desenhamos o maior círculo possível – ao redor de todo o Universo.
 (Se existem múltiplos universos, nós estamos desenhando um círculo ao redor deles todos também.):
  • Tem que existir algo fora desse círculo. Algo que nós temos que assumir mas não podemos provar.
  • O Universo como nós conhecemos é finito – matéria finita, energia finita, espaço finito e 13,7 bilhões de anos de idade.
  • O Universo é matemático. Qualquer sistema físico sujeito a medição executa a aritmética. (Você não precisa conhecer matemática para fazer uma adição – você pode usar um ábaco em vez disso e ele lhe dará a resposta certa todas as vezes.)
  • O Universo (toda a matéria, energia, espaço e tempo) não pode explicar a si mesmo.
  • O que quer que esteja fora do maior círculo não tem limites. Por definição, não é possível desenhar um círculo ao redor dele.
  • Se desenharmos um círculo ao redor de toda a matéria, energia, espaço e tempo e aplicar o teorema de Gödel, então saberemos que o que está fora desse círculo não é matéria, não é energia, não é espaço e não é tempo. É imaterial.
  • O que quer que esteja fora do maior círculo não é um sistema – i.e. não é um conjunto de partes. De outra forma poderíamos desenhar um círculo ao redor delas. A coisa fora do maior círculo é indivisível.
  • O que quer que esteja fora do maior círculo é uma causa não-causada, porque você sempre pode desenhar um círculo ao redor de um efeito.
Nós podemos aplicar o mesmo raciocínio indutivo à origem da informação:
  • Na história do Universo, nós também podemos ver a introdução da informação, cerca de 3,5 bilhões de anos atrás. Ela veio na forma do código genético, que é simbólico e imaterial.
  • A informação teve que vir de fora, já que a informação não é conhecida por ser uma propriedade inerente da matéria, energia, espaço ou tempo.
  • Todos os códigos cuja origem conhecemos são projetadospor seres conscientes.
  • Portanto, o que quer que esteja fora do círculo maior é um ser consciente.
Em outras palavras, quando adicionamos a informação à equação, concluímos que a coisa fora do maior círculo não só é infinita e imaterial, como também é consciente.
Não é interessante como todas estas coisas soam suspeitamente similar a como os teólogos têm descrito Deus por milhares de anos?
Então é dificilmente surpreendente que entre 80 e 90% das pessoas do mundo acreditam em algum conceito de Deus. Sim, é intuitivo para a maioria do pessoal. Mas o teorema de Gödel indica que é também supremamente lógico. De fato, é a única posição que alguém pode tomar e ficar nos domínios da razão e da lógica.
A pessoa que orgulhosamente proclama: “Você é um homem da fé, mas eu sou um homem da ciência” não entende as raízes da ciência e a natureza do conhecimento!
Interessantemente à parte…
Se você visitar o maior website ateu do mundo, Infidels, na página inicial você encontrará a seguinte declaração:
“O Naturalismo é a hipótese que o mundo natural é um sistema fechado, o que significa que nada que não seja parte do mundo natural o afeta.”
Se você conhece o teorema de Gödel, você sabe que todos os sistemas lógicos devem contar com algo fora do sistema. Então, de acordo com o Teorema da Incompletude de Gödel, o Infidels não pode estar correto. Se o Universo é lógico, ele tem uma causa externa.
Assim, o ateísmo viola as leis a razão e da lógica.
O Teorema da Incompletude de Gödel prova definitivamente que a ciência não pode jamais preencher suas próprias lacunas. Nós não temos escolha a não ser procurar fora da ciência por respostas.
A Incompletude do Universo não é a prova que Deus existe. Mas… É a prova de, para se construir um modelo racional e científico do Universo, a crença em Deus não é somente 100% lógica… ela é necessária.
Os 5 postulados de Euclides não podem ser formalmente provados e Deus também não pode ser formalmente provado. Mas… assim como você não pode construir um sistema coerente de geometria sem os 5 postulados de Euclides, você também não pode construir uma descrição coerente do Universo sem uma Primeira Causa e uma Fonte de ordem.
Assim, fé e ciência não são inimigas, mas aliadas. Tem sido verdade por centenas de anos, mas em 1931 este jovem magricelo matemático austríaco chamado Kurt Gödel provou.
Em nenhuma época na história da humanidade a fé em Deus tem sido mais razoável, mais lógica ou mais amplamente apoiada pela ciência e pela matemática.
Perry Marshall (traduzido para o português por Mateus Scherer Cardoso)
“Sem matemática nós não podemos penetrar profundamente na filosofia.
Sem filosofia nós não podemos penetrar profundamente na matemática.
Sem ambas nós não podemos penetrar profundamente em nada.”
Leibniz
“A matemática é a linguagem pela qual Deus escreveu o Universo”
Galileu


Leitura adicional:
Incompleteness: The Proof and Paradox of Kurt Gödel” (em inglês) por Rebecca Goldstein – biografia fantástica e uma grande leitura
Uma coleção de citações e notas sobre a prova de Gödel’s da Miskatonic University Press (em inglês)
A descrição formal do Teorema da Incompletude de Gödel’s na Wikipédia(em inglês)
Ciência vs. Fé na CoffeehouseTheology.com (em inglês)
Teoria da Informação: “If you can read this, I can prove God exists” (em inglês)http://www.cosmicfingerprints.com/o-teorema-da-incompletude-de-godel-a-descoberta-matematica-n%C2%BA-1-do-seculo-xx/

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Parábola da indecisão: os neutros já estão do lado do mal


Rodrigo Salesi
Havia um muro separando dois grandes grupos.

De um lado, estavam Deus, os anjos e os servos leais de Deus. Do outro, estavam Satanás, seus demônios e todos os homens que não servem a Deus.

E, em cima do muro, havia um jovem indeciso, que havia sido criado num lar católico, mas que, naquele momento, estava em dúvida se continuaria servindo a Deus ou se iria aproveitar um pouco mais os prazeres do mundo.

O jovem indeciso observou que o grupo do lado de Deus chamava e lhe gritava sem parar:

– Ei, desça do muro agora! Venha pra cá!

Já o grupo de Satanás não gritava, nem lhe dizia nada.

Essa situação continuou por um tempo, até que o jovem indeciso resolveu perguntar a Satanás:

– O grupo do lado de Deus fica o tempo todo me chamando para descer e ficar do lado deles. Por que você e seu grupo não me chamam, nem dizem nada para me convencer a descer para o lado de vocês?

Grande foi a surpresa do jovem quando Satanás respondeu:

– É porque o muro já é MEU!
*****
Lembre-se de que não existe meio termo. O muro já tem dono! Pois disse Deus que vomitaria os mornos.
Jundiaí, 24 de setembro de 2009,
Rodrigo Salesi

Fonte: Rodrigo Salesi - "Parábola da indecisão: os neutros já estão do lado do mal." MONTFORT Associação Cultural http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=cronicas&artigo=indecisao-parabola&lang=bra

terça-feira, 14 de julho de 2009

EXORCISMO DO PAPA LEÃO XIII - forma completa

Autor: Papa Leão XIII

Fonte: Raccolta

Tradução: Rodrigo Santana

EXORCISMO CONTRA
SATANÁS E OS
ANJOS REBELDES
(forma completa)

Publicado por ordem de Sua Santidade o Papa Leão XIII

Em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo

Salmo 67

Levanta-se Deus e sejam dispersos seus inimigos e fujam de sua presença os que lhe odeiam.
Como se dissipa o fumo se dissipem eles, como se derrete a cera ante o fogo, assim perecerão os impíos ante Deus.

Salmo 34

Senhor, peleja contra os que me atacam; combate aos que lutam contra mim.
Sofram uma derrota e caiam envergonhados os que me perseguem à morte.
Retornem a espada cheios de vergonha os que maquinam minha perdição.
Sejam como a palha levada pelo vento, quando o anjo do Senhor vier acossá-los.
Torne-se tenebroso e escorregadio o seu caminho, quando o anjo do Senhor vier perseguí-los.
Porque sem motivo me armaram laços; para me perder, cavaram um fosso sem motivo.
Que lhes surpreenda um desastre imprevisto; apanhe-os a rede por eles mesmos preparada, caiam eles próprios na cova que abriram. Minha alma se alegra com o Senhor e gozará de sua salvação.Glória ao Padre, ao Filho, e aoEspírito Santo.Como era no princípio, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.
Súplica a São Miguel Arcanjo.

Gloriosíssimo Príncipe da Milícia Celestial, São Miguel Arcanjo, defendei-nos na luta que temos combatido “contra os principados e potestades, contra os chefes deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares”. Vinde em auxílio dos homens que Deus criou incorruptíveis à sua imagem e semelhança, e a tão “grande preço resgatados” da tirania do demônio. Com os exércitos dos anjos bons peleja hoje os combates do Senhor, como outrora lutaste contra Lúcifer, chefe da soberba e contra seus anjos apóstatas. Eles não puderam vencer, e perderam seu lugar no céu. “Foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente e denominado diabo e satanás, o sedutor do universo: foi precipitado na terra e com ele foram lançados seus anjos” (Apoc. 12,8-9)

Eis que o antigo inimigo e homicida tem se erguido com impetuosidade. Transfigurado em “anjo de luz” (II Cor. 11, 14), com a escolta de todos os espíritos malignos, cercou e invadiu a terra inteira, e se instala em todo lugar, com o desígnio de manchar ali o Nome de Deus e de Seu Cristo, de roubar as almas destinadas à coroa da Glória Eterna, de destruí-las e perdê-las para sempre.

O dragão maldito transvasou, como rio imundíssimo, o veneno de sua iniqüidade em homens depravados de mente e corruptos de coração: incutiu-lhes o espírito de mentira, impiedade, blasfêmia, e seu hálito mortífero de luxúria, de todos os vícios e iniqüidades.

Os mais maliciosos inimigos tem enchido de amargura a Igreja, esposa do Cordeiro Imaculado, tem-lhe dado a beber absinto, tem posto suas mãos ímpias sobre tudo o que para Ela é mais sagrado. Onde foram estabelecidas a Sé do Beatíssimo Pedro e a Cátedra da Verdade como Luz para as Nações, eles tem erguido o Trono da Abominação e da Impiedade, de sorte que, ferido o Pastor, possa dispersar-se o rebanho.
Ó invencível Príncipe, ajuda o povo de Deus contra a perversidade dos espíritos que lhes atacam e dai-lhes a vitória. Amém.
indulgência de 500 dias (Leão XIII, Motu proprio, 25 de setembro de 1.888; S.P.Ap., 4 de maio de 1.934)
A Igreja te venera como seu guardião e patrono, se gloria que és seu defensor contra os poderes nocivos terrenos e infernais; Deus te confiou as almas dos redimidos para colocá-los no estado de suprema felicidade. Roga ao Deus da Paz que esmague Satanás sob os nossos pés, para que já não possa reter cativos os homens e prejudicar a Tua Igreja. Oferece nossas orações ao Altíssimo, para que o quanto antes desçam sobre nós as misericórdias do Senhor (Salmo 78,8), e sujeita o dragão, a antiga serpente, que é o diabo e satanás, para o precipitar encadeado nos abismos, de modo que não possa nunca mais, seduzir as nações. ( Apoc.20,3). Segue…

Depois disto, confiados em tua proteção e patrocínio, com a sagrada autoridade da Santa Mãe Igreja, nos dispomos a rechaçar a peste das fraudes diabólicas, confiados e seguros em nome de Jesus Cristo, Nosso Deus e Senhor.

Eis aqui a Cruz do Senhor, fugi potências inimigas !

R. Venceu o Leão da tribo de Judá, o descendente de Davi.
Que a tua misericórdia, Senhor, seja sobre nós.
R.Como nós esperamos em Ti.
Senhor, escuta nossa oração.
R. E chegue a Ti nosso clamor
O Senhor esteja convosco. (Somente o sacerdote)
R. E com teu espírito).

Oremos: Deus e Pai de Nosso Señor Jesus Cristo, invocamos Teu Santo Nome e suplicantes imploramos Tua clemência, para que, por intercessão da Imaculada Sempre Virgen Maria Mãe de Deus, de São Miguel Arcanjo, de São José esposo da Santíssima Virgen, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e de todos os Santos, dignai-Vos prestar-nos Vosso auxílio contra Satanás e todos os demais espíritos imundos que vagam pelo mundo para dar a perder o gênero humano e para a perdição das almas. Amém.

Exorcismo: Te exorcizamos, espírito imundo, potência satânica, invasão do inimigo infernal, legião ou seita diabólica, em nome e virtude de Nosso Senhor Jesus Cristo +sejas desarreigado e expulso da Igreja de Deus, das almas criadas à imagem de Deus e resgatadas pelo Precioso Sangue do Divino Cordeiro +. Desde esse momento, não te atrevas mais, pérfida serpente , a enganar o gênero humano, perseguir+ a Igreja de Deus e sacudir e joeirar como trigo os eleitos de Deus +. No-lo manda Deus Altíssimo, a quem em tua insolente soberba ainda pretendes assemelhar-te, “o qual quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (II Tim. 2).
Manda-to Deus Pai +.
Manda-to Deus Filho +.
Manda-to Deus Espírito Santo +.
Manda-to a Majestade de Cristo, o Verbo Eterno de Deus feito homem, que para salvação de nossa progênie perdida pôr tua inveja-se humilhou e “tornou obediente até à morte”. (Fil. 2,8).Ele que edificou a Sua Igreja sobre pedra firme e prometeu que as portas do inferno não prevaleceriam jamais contra Ela, querendo permanecer com Ela “todos os dias até ao fim do mundo”(Mat 28,20). Manda-to o sinal sagrado da Cruz, e a virtude de todos os Mistérios de nossa Fé Cristã+. Manda-to a poderosa Mãe de Deus, a Virgem Maria, que desde o primeiro instante da sua Imaculada Conceição, pela sua humildade esmagou a tua cabeça orgulhosa +.
Manda-to a Fé dos Apóstolos Pedro e Paulo e todos os outros Santos Apóstolos+. Manda-to o sangue dos mártires e a piedosa intercessão de todos os Santos e Santas +.Então, dragão amaldiçoado e toda legião diabólica, nós te esconjuramos:Pelo Deus+Vivo, Pelo Deus+ Verdadeiro, Pelo Deus+ Santo,
Pelo Deus que tanto amou o mundo que lhe deu Seu Único Filho, para quem crer n’Ele, não pereça mas tenha a vida eterna ( Jo, 14-15)

Cessa de enganar as criaturas humanas e de derramar sobre elas o veneno da condenação eterna. Cessa de danificar a Igreja e de armar laços à sua liberdade.Vai-te embora satanás, inventor e mestre de enganos, inimigo da salvação dos homens.Cede lugar a Cristo, em Quem não encontraste nada em tuas obras.
Cede o lugar à Igreja - Única, Santa, Católica, Apostólica - que o próprio Cristo adquiriu com o Seu Sangue. Humilha-te sob a poderosa Mão de Deus, treme e foge à invocação, feita por nós, do Santo e terrível Nome de Jesus que faz tremer o inferno: a Quem as Virtude dos Céus, as Potestades e as Dominações estão submissas; e que os Querubins e os Serafins louvam sem cessar, dizendo:
“Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus dos Exércitos.”

Senhor, ouvi a minha oração.
R. E chegue até Vós o meu clamor.
O Senhor esteja convosco...(para os sacerdotes)
R. E com teu espírito.

Oração final ( de joelhos)

Oremos:Deus do Céu, Deus da Terra, Deus dos Anjos, Deus dos Arcanjos.Deus dos Patriarcas, Deus dos Profetas, Deus dos Apóstolos.Deus dos Mártires, Deus dos confessores, Deus das Virgens.Deus que tendes o poder de dar a vida depois da morte, o repouso depois do trabalho.Porque não há outro Deus senão vós; e, que não pode haver outro a não ser Vós: Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, cujo Reino não terá fim.Com humildade, suplicamos que a Vossa Gloriosa Majestade se digne livrar-nos poderosamente, e sãos e salvos de todo o poder, laço e mentira e malvadez dos espíritos infernais.

Das emboscadas do demônio,
R. Livrai-nos Senhor.
Dignai-vos conceder à nossa Igreja a segurança e a liberdade para Vos servir.
R. Nós Vos suplicamos, ouvi-nos Senhor.
Dignai-vos humilhar os inimigos da Santa Igreja.
R. Nós Vos suplicamos, escutai-nos Senhor.
(Aspergir com água benta as pessoas e o lugar.)

Senhor, não recordes nossos delitos nem os de nossos pais, nem tomes vingança de nossos pecados (Tobias, 3,3)
Pai nosso …
Bibliografia:

Livro: The Raccolta or a Manual of Indulgences
Por Christopher, Joseph P., Spence, Charles E., Rowan, John F.
Editora: Saint Athanasius Press – setembro 2003 – pág. 339-340
ISBN-13: 9780970652669

O leitor ainda tem a possibilidade de consultar o livro citado acima em sua versão digital que contém o mesmo exorcismo em inglês, que pode ser acessado no seguinte link, na página nº 340:
http://books.google.com/books?id=aJHKTdv3gncC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_navlinks_s

outra edição: The Raccolta, 1930, Benziger Bros., pp. 314-315

Fonte-base: http://doctorisangelici.blogspot.com/2009/07/exorcismo-do-papa-leao-xiii-forma.html

domingo, 4 de novembro de 2007

A SUBSTÂNCIA DO AMOR


Por Hugo de São Vitor.


1. Introdução Os dois rios do amor.
Semeamos cotidianamente um sermão sobre o amor para que possa faiscar e acender-se em nossos corações aquele fogo que produz a chama que tudo consome e tudo purifica.
Tudo o que é bom o é pelo amor, e tudo o que é mau o é também pelo amor.Uma só é a fonte do amor que, subindo do interior, derrama-se em dois rios: um destes rios é a cobiça, o amor do mundo; o outro é a caridade, o amor de Deus.Entre ambos estes rios está o coração do homem, de onde jorra a fonte do amor.Quando este se derrama pelo apetite às coisas exteriores, é chamado de cobiça; quando o seu desejo, porém, se dirige às coisas interiores, é denominado de caridade.
Há, portanto, dois rios que emanam da fonte do amor, a cobiça e a caridade, e a cobiça é a raiz de todos os males, enquanto que a caridade é a raiz de todos os bens.É pelo amor que tudo o que é bom é bom e é pelo amor que tudo o que é mau é mau.O que quer que seja o amor, portanto, coisa grande é quando está em nós.Por ele é tudo o que há em nós: isto é o amor.
O que é o amor, quão grande é o amor, e onde está o amor? A Palavra de Deus fala de amor.Não vos parece, porém, que este assunto pertença mais propriamente aos que costumam prostituir o seu pudor? Eis quantos são os que abraçam prontamente o seu ministério, e eis quão poucos são os que não se envergonham de falar abertamente de suas palavras! Que fazemos nós, portanto? Teríamos talvez tão pouco pudor que não nos envergonhamos de proclamar este amor que até os impúdicos às vezes não conseguem exprimi-lo sem vergonha?
Mas uma coisa, porém, é investigar o vício para que seja erradicado; outra exortar ao vício, para que a virtude e a verdade não sejam amadas.Nós investigamos e buscamos conhecer o que há em nós que divide de tantas maneiras nossos desejos e conduz um só coração a coisas tão diversas para que, conhecendo-o, possamos nos precaver, enquanto que eles investigam este mesmo assunto também para conhecê-lo, mas para que, conhecendo-o, possam não se precaver, mas praticá-lo.Esta coisa nada mais é do que o amor o qual, sendo um movimento do coração singular e único segundo a sua natureza, é, todavia, segundo a ação, dividido, pois quando se move desordenadamente, isto é, ao que não deve, é dito cobiça; quando, porém, o faz ordenadamente, é chamado de caridade.
Com que definição poderá ser significado este movimento do coração ao qual chamamos de amor? É importante que nós o examinemos adequadamente, para que nada dele fique escondido e desconhecido e, para que, por este motivo, não seja evitado sendo mau e não seja apetecido sendo bom, justamente este amor do qual, sendo mau, procedem tantos males e do qual, sendo bom, procedem tantos bens.
2. O que é o amor.
Como definiremos o amor? Investiguemos, consideremos, porque é oculto o que se busca e quanto mais interiormente estiver colocado tanto mais dominará em todas as partes do coração.
Isto, portanto, parece ser o amor: uma deleitação de um coração a algo por causa de algo, que é desejo ao apetecer, gozo ao fruir, que corre pelo desejo e repousa pelo gozo.Por ele o coração humano é bom, e por ele também o coração humano é mau; pois nem de outro modo será bom, se é bom, nem de outro modo será mau, se é mau, senão porque bem ou mal amamos o que é bom.Tudo o que é, é bom, mas quando aquilo que é bom é mal amado, isto não é bom e é mau.Nem quem ama é mau, nem o que é amado é mau, nem o amor pelo qual se ama é mau, mas amar mal é mau e nisto consiste todo o mal. Ordenai, pois, a caridade, e já não haverá mais nenhum mal.
3. O plano de Deus.
Grande coisa queremos recomendar, se todavia pudermos o que queremos. Deus onipotente, que de nada necessita, porque Ele é o sumo e verdadeiro bem, o qual nem pode receber de outrem algo pelo qual cresça, já que todas as coisas provém dEle, nem pode perder algo do que é seu pelo qual venha a morrer, já que nEle imutavelmente consistem todas as coisas, Ele mesmo criou o espírito racional apenas pela caridade, movido por nenhuma necessidade, para que o fizesse participante de sua própria bem aventurança.
Para que ele, porém, fosse capaz de fruir de tanta bem aventurança, fêz nele o amor espiritual, um certo paladar do coração pelo qual este fosse sensibilizado ao gosto da doçura interior, na medida em que por este amor saboreasse a alegria de sua felicidade e a Ele inerisse por um infatigável desejo.Pelo amor, portanto, Deus uniu a si a criatura racional para que, sempre inerindo a Ele, dEle sugasse de algum modo pelo afeto o próprio bem pelo qual seria beatificado, dEle o bebesse pelo desejo e nEle o possuísse pelo gozo.
Suga, ó pequena abelha, suga; suga e bebe a inenarrável suavidade de tua doçura.Submerge-te e plenifica-te, porque Ele não pode falhar se tu não começares a te enfastiar.Adere e inere, toma e frui; se o gosto for sempiterno, sempiterna será também a bem aventurança.
Não nos envergonhemos e não nos arrependamos de ter feito esta palavra de amor; não nos arrependamos de onde procede tanta utilidade, não nos envergonhemos de onde procede tanta honestidade.
4. Os dois cordéis da caridade.
A criatura racional, portanto, une-se ao seu Criador pelo amor, e só há este vínculo de amor que liga nele a ambos, vínculo tanto mais feliz quanto mais forte.
Por este motivo, para que a indivisa sociedade e concórdia também fossem perfeitas, há um duplo cordel na caridade de Deus e do próximo, para que pela caridade de Deus todos co-inerissem a um só, e pela caridade do próximo todos se fizessem mutuamente um só.Deste modo, o que alguém em si mesmo não entenda deste um só ao qual todos inerem, mais plena e perfeitamente poderá possuí-lo no outro pela caridade do próximo, e assim o bem de todos pode-se tornar o todo de cada um.Ordenai, portanto, a caridade.
O que significa `ordenai a caridade'? Significa que, se o amor é desejo, que corra bem; se é gozo, que repouse bem.O amor, de fato, conforme já foi dito, é a deleitação de um coração a algo por causa de algo, desejo ao apetecer e gozo ao fruir, correndo pelo desejo e repousando pelo gozo, correndo a algo e nele repousando. Ao que, porém, e em que?
5. A ordenação da caridade.
Ouvi, se talvez o pudermos explicar, pelo que deve correr o nosso amor, ou em que deve repousar.
Três coisas há que podem ser amadas bem ou mal, isto é, Deus, o próximo e o mundo. Deus está acima de nós, o próximo está junto a nós, e o mundo está abaixo de nós. Ordenai, portanto, a caridade.Se corre, que corra bem; se repousa, que repouse bem.O desejo corre, o gozo repousa.Por este motivo o gozo é uniforme, porque sempre está em um só, nem pode variar pela vicissitude; o desejo, porém, recebe a mutabilidade do movimento e, portanto, não se contém em um só, mas apresenta várias espécies.
Toda corrida é ou daquilo que é, ou com ele ou para ele.Como, portanto, deve correr o nosso desejo? Existem três coisas, Deus, o próximo e o mundo.Deus pode ter três coisas na corrida de nosso desejo, o próximo pode ter duas e o mundo apenas uma.Deste modo pode haver caridade ordenada no desejo.
O amor pode correr ordenadamente pelo desejo de Deus, com Deus e a Deus.Corre pelo desejo de Deus, quando dEle recebe de onde o ame.Corre com Deus, quando em nada contradiz à sua vontade.Corre a Deus quando apetece nEle repousar.Estas são as três coisas que pertencem a Deus.
Já duas são do próximo.A caridade pode correr pelo desejo do próximo e com o próximo, mas não o pode ao próximo.Corre pelo desejo do próximo quando se alegra de sua salvação e de seu aproveitamento.Corre com o próximo quando na via de Deus o deseja como companheiro de caminho e como sócio em seu encontro.Mas não pode correr ao próximo, para que constitua no homem a sua esperança e confiança.Estas são as coisas que pertencem ao próximo; isto é, dele e com ele, mas não a ele.
Uma só coisa pertence ao mundo, que é correr recebendo dele; não com ele, nem a ele.O desejo, de fato, corre recebendo do mundo quando este, examinado como obra de Deus, pela admiração e pelo louvor nos converte mais ardentemente a Deus.O desejo correria com o mundo se o mundo, por causa da mutabilidade das coisas temporais, nos conformasse a si pelo desânimo na adversidade e pela elevação na prosperidade, e deste modo a ele nos tornássemos semelhantes.O desejo correria ao mundo se quisesse sempre repousar em seus prazeres.
Ordenai, portanto, a caridade, para que ela corra pelo desejo de Deus, com Deus e para Deus; pelo desejo do próximo, com o próximo mas não ao próximo; recebendo do mundo, mas não com ele e nem para ele, para que assim somente em Deus repouse pelo gozo.
Esta é a ordenada caridade, e fora dela tudo o que se faz não é caridade ordenada, mas cobiça desordenada.
6. O amor, vida do coração.
O amor é a vida do coração e, portanto, sem amor é inteiramente impossível que haja um coração que deseje viver.
Considera o que se segue daqui. Se, de fato, a mente humana não pode existir sem amor, é necessário que ame ou a si mesma ou a algo além de si mesma. Como, porém, em si mesma não pode encontrar o perfeito amor, se se amasse apenas a si mesma o amor feliz não existiria. É necessário, portanto, se desejamos amar com felicidade, que busquemos algo além de nós a que amemos.Se começarmos a amar, porém, algo imperfeito fora de nós, estimularemos em nós o amor, mas não excluiremos a nossa miséria. Ninguém amará, portanto, com felicidade, até que o seu desejo não se converta pelo amor ao verdadeiro e sumo bem. Como, porém, somente Deus é o verdadeiro e sumo bem, amará com felicidade apenas quem amar a Deus, e com tanta maior felicidade quanto mais amplamente o amar. Este, portanto, será o verdadeiro repouso de nosso coração, quando nos estabelecermos pelo desejo no amor de Deus, nem mais nada além dEle apetecermos mas, nEle já possuído, nos deleitarmos por uma feliz segurança.Como Ele não estende o apetite para além dEle, nem repele pelo temor, assim de certo modo nEle repousamos por uma felicidade sem vexação.
A enfermidade da mente humana porém, não direi sempre, mas algumas vezes, dificilmente pode fixar-se na doçura da divina contemplação.Por este motivo, enquanto não o consegue, deve ser acostumada por um certo estudo àquela estabilidade a qual ainda não é capaz de alcançar.Isto é, se não podemos pensar sempre em Deus, que pelo menos reprimamos nosso coração dos pensamentos ilícitos e vãos, para que o possuamos na consideração das suas obras e de suas maravilhas, até que, enquanto nos esforçarmos em ser sempre menos instáveis, finalmente, no-lo concedendo Deus, sejamos capazes de nos tornar verdadeiramente estáveis.
7. A fé, navio nas ondas deste mundo.
Procurarei oferecer-te um exemplo para que possas promover estas coisas. Todo este mundo é como um dilúvio, porque todas as coisas que estão neste mundo, à semelhança das águas, correm flutuando por eventos incertos.
Já a verdadeira fé, que não promete coisas transitórias, mas eternas, levanta a alma como que de certas ondas, erguendo-a da cobiça deste mundo às coisas do alto; ela pode então ser levada pelas águas, mas não pode ser inteiramente submergida, porque este mundo pode ser usado devido à necessidade, mas não pode obrigar o afeto.
Quem quer que, portanto, não crendo nas coisas eternas, somente apetece as que são transitórias, debate-se entre ondas como que sem navio, e o ímpeto das águas que correm o carregam consigo.Quem , porém, crendo nas eternas, ama as coisas transitórias, este é como aquele que naufragou perto de um navio.Já quem crê nos bens eternos e os ama, como que já colocado no navio, atravessa seguro as ondas do mar revolto.E se pelo desejo da fé não abandonar o navio, de certo modo, ainda que no meio das ondas, imita a estabilidade da terra.
Em primeiro lugar, portanto, se quisermos atravessar ilesos este grande mar, fabriquemos um navio, de tal maneira que tenhamos uma fé íntegra.Habitemos depois o navio da fé pela caridade, para que creiamos o que devemos amar e amemos o que cremos, de modo que assim tanto a lei de Deus esteja em nosso coração pelo reto conhecimento da fé como o nosso coração esteja na lei de Deus pelo amor.
Mas para que mais facilmente conheças como ou de onde deves edificar este navio ou arca em teu coração pelo qual, conduzido em meio ao naufrágio deste dilúvio, chegues ao porto da quietude, considera as duas obras de Deus que são a obra da criação e a obra da restauração.
A obra da criação é a criação do céu e da terra e de todas as coisas que neles estão contidas, as quais foram feitas em seis dias. Já a obra da restauração é a Encarnação do Verbo e todas as coisas que, desde o princípio do mundo até o seu fim, tanto a precederam para anunciá-la como a seguiram para confirmá-la.Estas todas se fizeram ao longo de seis idades.
A obra da restauração mais pertence à fé católica, a qual por isto é mais amada pelos santos, porque nela reconhecem os remédios para a sua salvação.Deus operou esta obra em parte pelos homens, em parte pelos anjos, em parte por si mesmo, de tal maneira que na arca espiritual a primeira morada são as obras dos homens, a segunda as obras dos anjos, a terceira as obras de Deus, e nela o supremo repouso é o próprio Deus, autor de todas.
Fonte: http://www.voltaparacasa.com.br/a_substancia_do_amor.htm

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Tsunami: se Deus existe e é bom, então como entender a fúria da natureza e a predestinação ao mal?


Revista Aquinate


Em razão da catástrofe ocorrida em 26 de Dezembro de 2004, o Tsunami que devastou principalmente o Siri Lanka, muitas matérias jornalísticas e inclusive religiosos abordaram o tema de se Deus pode causar o mal. Mas subjacente a este tema havia uma outra questão: Deus predestina alguém ao bem ou ao mal?
Relendo estas reportagens me ocorreu aproveitar e redigir esta reflexão sobre este acontecimento, a partir de uma visão filosófica tomista. Trata-se pois de uma questão teológica a que me aventuro responder enquanto mero conhecedor de poucas idéias filosóficas, cujo motivo maior para responder está mais na fé que nos conhecimentos que disponho. Se em última instância já não for mais o argumento certo que nos fizer ver com clareza o constitutivo do tema, não haverá dúvida de que o que nos falta é a fé. Portanto, me ponho a analisar a questão que surgiu como tema de fundo nas matérias jornalísticas acerca do Tsunami e a ação de Deus: Deus predestina algo ou alguém ao mal?
Minha intenção - longe de dar efetiva resposta à questão proposta – é a de promover pela via da razão – até onde a razão pode alcançar, um esclarecimento amadurecido a partir de uma reflexão filosófico- teológica pautada nas Escrituras, acerca do tema proposto. À questão que inicia a nossa análise é: Se Deus é onisciente e sabe que alguns não se salvarão, porque continua criando aqueles que Ele conhecia e sabia antes de criar que não se salvariam?
Procurarei tratá-la progressivamente, segundo o pensamento de Tomás de Aquino. A dificuldade de compreender a questão reside no fato de que é necessário esclarecer alguns princípios que são subjacentes à própria pergunta e que podem ter sido considerados equivocadamente: Deus não predestina ao mal; o homem é livre para escolher o mal que não quer e elege ou o bem que quer e não o elege; Deus providencia assim mesmo, graças para os que não elegem o bem que querem, mas o mal que não querem, mas para que sejam eficazes na liberdade é necessário antes se abrir e converter-se a Deus. Prolegômenos Para explicar a predestinação do homem ao mal por parte de Deus alguém poderia perguntar: Em Deus há o mal? Como introdução geral podemos começar dizendo que Deus é sumo amor e bem. Não há n'Ele mal, Ele não predestina ninguém ao mal, pois quer a todos no seu amor. Disso decorre que não há o mal em Deus. Mas, se n'Ele efetivamente não há o mal, não podemos dizer o mesmo do mundo. Então alguém poderia perguntar: não há o mal no mundo? E a resposta seria sim. É um fato a constatação do mal no mundo, a dor e o sofrimento do homem evidenciam isso. A natureza toda geme e sofre, haja vista a catástrofe do Tsunami. Em tudo há a privação do bem.
Sendo um fato a existência do mal no mundo, alguém poderia invariavelmente perguntar: se Deus é o criador do mundo não é ele quem causa o mal no mundo? Para quem pergunta pareceria haver um dilema que se pauta na seguinte questão: ora, se é Deus o criador do mundo, não seria ele mesmo a causa do mal que há na criação? Pelo exposto logo no início poderia responder que se Deus é sumo bem, Ele não poderia senão causar somente o bem. Logo, deveria haver outra explicação para entender o que é objeto de questionamento. Portanto, Deus é sumo bem e a sua obra de criação é boa. Se há o mal no mundo este não proveio de Deus que o criou. Daí que pela evidência da existência do mal no mundo ninguém poderia induzir que o seu criador é mal. Do contrário, todo defeito ou privação que existir numa produção deveria ser aplicado a quem a produz, o que não é verdadeiro. Por ser cego quem é retratado numa bela pintura não se segue daí que provavelmente trata-se de um auto-retrato ou que o pintor fosse cego também.
Pautado no anterior – de que o mal não procede de Deus e de que existe no mundo – alguém poderia ser levado a pensar que o mal é um co-princípio ao lado de Deus: Deus seria o princípio do bem e o mal o outro, como pensavam os Maniqueístas. Algumas correntes filosóficas inspiradas no neoplatonismo, como os maniqueístas pensavam desta maneira. Inclusive alguns teólogos judeus, na Idade Média, como Avicebrão, acreditava haver um princípio espiritual bom que é Deus e um mal que seria a matéria encontrada no mundo físico.
Deste modo alguém perguntaria: o mal existe no mundo como um princípio oposto ao de Deus? Responder-se-ia dizendo que o mal não é um ser, mas existe ou está num ser, ali onde não se encontra alguma perfeição ou bem realizado que deveria ser encontrado e realizado. A cegueira, por exemplo, é um mal físico e está nos olhos de um ser que embora seja bom, se encontra privado de uma perfeição, a visão, justamente ali onde deveria realizar-se este bem. O vício, por exemplo, é um mal moral e está no comportamento de um sujeito que embora seja bom pela natureza, se encontra privado da virtude, justamente ali onde deveria realizar-se um bem devido na natureza: a virtude.
Disso se segue que o mal não existe pelo seu próprio ser, essência ou natureza, senão que existe como privação de perfeição no ser, na essência e na natureza de um sujeito que é um bem, mas que pela carência de alguma perfeição ou bem devido nalguma parte daquele ser, essência ou natureza, diz-se haver nele mal. Somente o bem existe por ser, essência e natureza. Como privação que é, o mal existe no sujeito que é um bem, e existe onde neste sujeito há a não realização ou privação de alguma perfeição. Disso se segue que da essência sumamente boa de Deus nenhum mal procede e de que todo mal que possa haver, este existe como privação de alguma perfeição num ser que é por si mesmo um bem.
Portanto o mal é privação do bem no ser. Onde não se realiza o bem, surge o mal como privação do bem. O mal não tem essência, pois é antes um acidente do que não se realiza numa ação ou num ser como bem. Por isso os antigos diziam que o bem é de causa íntegra e o mal qualquer defeito. Pois bem, se não é Deus quem causou o mal no mundo e se o mal não tem ser, essência e natureza próprias, alguém ainda perguntaria: como então entrou o mal no mundo? A resposta seria: pela não aceitação ou negação do bem que é Deus e que por causa disso gerou-se justamente a privação do bem, cujo nome temos dito ser o de mal. Mas retornemos à questão anterior.
Ainda não satisfeito alguém poderia perguntar: por que Deus permitiu que o mal entrasse no mundo? Ninguém é predestinado ao mal. Mas, predestinado ao bem não significa predeterminado ao bem. Há no homem a liberdade, faculdade e ato da natureza do homem que lhe capacita autonomia na ação, portanto, que lhe capacita eleger, julgar o que lhe pareça melhor, ainda que possa errar elegendo o que lhe pareça melhor, sem saber e sem que o que é eleito seja efetivamente um bem para si. Portanto, se ninguém é predestinado ao mal, todos são chamados à santidade.
Ser chamado ou convidado para uma festa não me obriga a ter que ir. Por isso, embora sejamos predestinados ao bem e vocacionados à santidade, somos livres para eleger e julgar, segundo nosso conhecimento, se devemos escutar ou não o chamado. Bem, alguém ainda poderia perguntar, pautado no anterior, dizendo que se o que a que Deus nos chama é tão bom para nós, porque nos deu a capacidade de não elegê-lo? Efetivamente esta capacidade nos foi dada primeiramente porque Deus quis que as criaturas que mais amou ao criar Lhe estivessem maximamente próximas em perfeição pela semelhança na liberdade. Em segundo lugar, e disso trataremos mais abaixo que, quando se ama na verdade e no bem, como Deus nos ama, nos ama livremente; e seria contrária a esta própria capacidade de autonomia – a que Deus nos fez partícipes livremente – se por uso dela Deus nos obrigasse a amá-Lo. Deus não nos obriga a amá-Lo, mas nos revela, ensinando e advertindo, que não há maior amor que a nossa liberdade pudesse perfeitamente eleger que não fosse o que Ele nos oferece.
Contudo, como decorrência da queda original – cuja queda constituiu-se no afastamento dos bens espirituais que Deus nos dá e por cuja perda nos dificultou o conhecimento do bem e da verdade – podemos julgar e eleger equivocadamente algo, como efeito da queda e da ignorância que isso produziu em nós. A ignorância neste caso é desconhecer o que se deveria conhecer para poder eleger e julgar bem uma ação ou alguma coisa.
Não obstante, ao se nos revelar Deus nos permitiu conhecer os seus desígnios de restauração de sua obra amada caída: o homem. Deste momento em diante, sabendo o que se deve fazer para converter-se, aplica-lhe responsabilidade pelas ações. Portanto, a queda não tirou ou eliminou a responsabilidade humana, já que Deus revela ao homem os seus desígnios. Há, portanto, responsabilidade se alguém usa mal a eleição e o julgamento pela liberdade na escolha de uma ação, se conhece os desígnios de Deus. Com a queda o homem não perdeu o que lhe fora dado essencialmente por Deus, por natureza, formando a natureza do homem. Sua razão, vontade e liberdade continuaram. A queda o fez perder aquilo que sobrenaturalmente agia na natureza na promoção de sua progressiva conversão a Deus e que Deus o havia dado por amor: a graça.
O livre-arbítrio usado na ignorância dos desígnios de Deus e no fechamento à graça, causa dor e sofrimento ao homem. Alguém poderia então perguntar: porque aparentemente não sofrem os que mesmo conhecendo os desígnios de Deus, não o seguem, quando no uso da liberdade elegem algo mal e o usufruem como se fosse algo bom? O prazer instantâneo de uma má eleição oferece a quem a exerce a sensação de poder e autodomínio, que são próprios não da sensação que promove o prazer, mas da liberdade mesma, pois a liberdade mesmo quando mal usada, com ignorância, não deixa de promover em quem a exerce, aquilo que lhe é próprio e que constitui um bem, isto é, a sensação de poder e autodomínio sobre a ação, pois é isso inerente a qualquer ação livre, já que se não fosse assim, somente sentiriam isso quem agisse livremente para o bem e não para o mal; mas vemos que o atributo bom da liberdade privilegia, no que lhe é natural, inclusive a quem a utiliza mal; isto prova que a liberdade é um bem em si mesmo, e o mal está em seu mau uso.
Não convém exercer a liberdade na ignorância e na dúvida da matéria a que se aplicará o livre arbítrio, pois se o homem possui a razão como instrumento para alcançar o remédio devido para estas enfermidades seria incauto fundamentar a liberdade em qualquer elemento inferior à razão, como nos sentidos ou nos instintos. O mau uso da liberdade fundamentando-a no que os sentidos, as paixões e os instintos a determinam, acaba por aprisionar a liberdade ao objeto a que tais paixões, sentidos e instintos tendem. Neste caso, o que deveria ser autônoma diante inclusive do que mais possa desejar, a liberdade acaba por torna-se prisioneira do que inclusive possa não desejar. Parece ter sido LÚCIDO DE RIEZ [séc. V] quem introduziu a doutrina segundo a qual havia duas predestinações: uma para a bem-aventurança e outra para a condenação eterna. Se isso fosse assim se seguiriam dois problemas: ficam praticamente negadas a liberdade humana [mediante a qual é possível em qualquer instante do curso da vida humana abrir-se à graça e libertar-se do flagelo] e a Redenção de Cristo [pois não se estenderia aos não predestinados]. Não discutiremos a tese de Lúcido, mas o modo como podemos entender filosófica e teologicamente o erro de sua doutrina, baseando-nos nas Escrituras e no Pensamento de Tomás de Aquino. §1. DA EXISTÊNCIA DE DEUS. A proposição ‘Deus existe’ é evidente para Si mesmo e não para nós [S.Th. Iq2a1]. Se Deus não tivesse se revelado, o homem não o teria conhecido. Não obstante, a proposição ‘Deus existe’ pode também ser evidente para nós se tivermos em conta a própria Revelação – ato de amor – que se deu pela criação. A criação - que é também modo de Revelação de Deus – é obra e efeito da onipotência de Deus; e isso nos permite conhecer-Lhe pelos efeitos, no uso de nossas faculdades. Portanto, pela razão, mediante análise dos efeitos, pode-se inferir a necessidade de uma Causa Primeira: A existência de Deus. Por isso, é possível demonstrar a existência de Deus [S.Th. Iq2a2], pois como diz o Apóstolo na Carta aos Romanos: “As perfeições invisíveis de Deus se tornaram visíveis à inteligência, por suas obras” [Rm 1,20]. A quem crê bastaria fixar-se em Ex 3,14 onde Deus revela a sua existência dizendo: ‘Eu sou Aquele que sou’. Mas Deus também se revela ao incrédulo quando não lhe omite a possibilidade de conhecê-lo, ainda que não Lhe creia. Nestes termos Deus se oferece à inteligência do crédulo e do incrédulo na possibilidade de conhecê-Lo, por suas obras. Disso pode decorrer ao menos tais possibilidades:
1) o crédulo bastar-se na revelação para afirmar que Deus existe; 2) o crédulo acreditar que Deus existe, mas procurar demonstrá-Lo no uso da razão; 3) o crédulo acreditar que Deus existe, mas ser impossível conhecê-Lo ou demonstrar-Lhe a existência [agnóstico]; 4) o incrédulo sem crer-Lhe, procurar conhecê-Lo e por fim O conhece. 5) o incrédulo sem crer-Lhe não procurar conhecê-Lo e disso vir a negar-Lhe o ser e a existência [ateu]. Note-se que o ateu não é aquele que nega meramente a existência de Deus por não ter como conhecê-La, mas é aquele que se rejeita a querer conhecê-lo. §2. DA PERFEIÇÃO DE DEUS. Nenhuma perfeição pode faltar a Deus. De tal maneira que Deus é perfeito [S.Th.Iq4a1]. Como perfeição de sua essência afirma-se a bondade: Deus é o sumo bem e todas as coisas são boas pela bondade divina [S.Th.Iq6a1-4]. A finitude e a mutabilidade são imperfeições, portanto a infinidade [S.Th.Iq7a1-4] e a imutabilidade [S.Th.Iq9a1-2] são perfeições divinas. Nestes termos não há o que possa medir o ser de Deus, senão Deus mesmo, pois como Ele não há o que não tenha tido nem início nem término no tempo, já que Ele é eterno [S.Th.Iq10a1-6].
Ora, se não há nada mais tão perfeito além de Deus, necessariamente Ele é uno e único [S.Th.Iq11a1-4]. Portanto, nada, nem ninguém conhece a Deus como Ele mesmo se conhece [S.Th.Iq14a2-4] e nada nem ninguém pode conhecer perfeitamente como Deus conhece todas as coisas que d'Ele são distintas [S.Th.Iq14a5-6]. Por isso Deus é onisciente, pois a tudo conhece. Deus assim sabe o que quer e pode o que sabe, pois ele é onipotente [S.Th.Iq25a1-6]. Daí haver em Deus perfeita vontade [S.Th.Iq19a1-5].
Por isso o Apóstolo diz na Carta aos Efésios 1,11 que Deus é “Aquele que faz segundo a deliberação de sua vontade”. Ora, o que fazemos por uma deliberação voluntária, não o queremos por necessidade. Logo, Deus não quer por necessidade aquilo o que quer. Portanto, há livre-arbítrio em Deus [S.Th.Iq19a3 e 10]. Mas porque é perfeita quando quer, Sua vontade se cumpre sempre [S.Th.Iq19a6] e é imutável. O mal é privação do bem, mas Deus é o sumo bem e não há privação nenhuma no seu querer, de tal modo que sua vontade é sempre do bem. Logo, Deus nunca quer o mal [S.Th.Iq19a9].
Como canta o livro da Sabedoria 11, 25, Deus ama tudo o que existe e nada detesta do que fez. Por isso sabiamente João revelará que Deus é amor [S.Th.Iq20a1-4]. Porque amor é doação, a Deus convém o atributo justo, pois por amor e sabedoria Deus dá a cada um de acordo com a sua dignidade. Por isso, a sua justiça é a verdade [S.Th.Iq21a3]. Deus que tudo sabe, conhece as deficiências das criaturas; mas não convém a Deus entristecer com a miséria das criaturas, mas lhe convém ao máximo, por seu amor, bondade e sabedoria, fazer cessar essa miséria. Daí que Deus é misericordioso [S.Th.Iq21a3].
Por isso, como se diz no livro da Sabedoria, 15,3 “És tu Pai que tudo governas por tua providência”, para que nada falte às criaturas Deus por amor e bondade provém de bens aos que dele carece [S.Th.Iq22a1-3]. Para que nada falte aos homens, segundo o que lhe convém prover, Deus com sua bondade e amor predestina bens aos homens para que supram as suas dificuldades. Portanto, a predestinação é ato de providência.
O homem é livre para aceitar ou não estes bens. Mas nem por isso Deus que é sumo amor e bem deixará de lhe prouver de bens necessários para que alcance a sua perfeição [S.Th.Iq23a1]. Aos que se abrem e aceitam estes bens Deus os ama ainda mais e os elege. Porém não deixa de amar aos que não se abrem e aceitam os seus bens, embora não seja Deus que não os eleja e os condene ou os predestine ao mal, mas antes são estes que não desejam a eleição divina e por se afastarem dela, afastam-se ainda mais do bem e do amor, condenando-se ao mal que é justamente a privação do amor e bem divinos.
Portanto não é Deus que predestina alguém ao mal, mas antes a ignorância e o orgulho humanos – que nascem do mau uso da liberdade e da privação do conhecimento de algum bem – que predetermina o homem a afastar-se de Deus e a anelar-se ao mal. Daí que por Deus ninguém é predestinado ao mal. E porque a tudo ama, a ninguém faltarão bens para alcançar a perfeição. E qual é a perfeição do homem? Conhecer a Deus. Mas é preciso esclarecer melhor o que são estes bens e como Deus ama a tudo o que cria e a ninguém condena, senão que alguém se condena a si mesmo por orgulho que é conseqüência da ignorância do amor divino e do fechar-se aos bens que Deus prouve ao homem – por misericórdia – para ajudá-lo a superar suas deficiências e alcançar a perfeição que consiste em conhecê-Lo. §3. DA VOCAÇÃO UNIVERSAL À SANTIDADE. Porque Deus ama a tudo o que criou e sobremaneira aos homens, criaturas que Deus quis por si mesmas, criando-as à sua imagem e semelhança e revestindo-as de nobreza e as dignificando-as em si mesmas, a todos igualmente chama à santidade [1Ts 4,3: “Esta é a Vontade de Deus: a vossa santificação”]. Que consiste a santidade? Consiste em conhecer a Deus. Ver a Deus face a face. A Bem-Aventurança.
Pois bem, se santidade é conhecer a Deus, a vocação à santidade é vocação à sabedoria, pois não há saber maior que os homens possam alcançar que saber Deus. Ser santo é pois buscar ser perfeito como Deus [Mt 5,48]. Por muito nos amar e por havermos perdido o elo original com Deus, Deus se encarnou para mostrar-nos e revelar-nos o modelo de santidade: seu Filho Jesus Cristo que se nos revela como caminho, verdade e vida.
Cristo é modelo e tudo o que ele fez, ensinou e ordenou deve ser observado como caminho de santidade. Deus por amor re-estabelece o elo com a encarnação, paixão e morte do seu filho: é preciso morrer no mundo e para o mundo enquanto se ama ao próximo, para viver em Deus e para Deus enquanto se ama a Deus. Nenhum homem está fora desta vocação à santidade e à sabedoria pela parte de Deus, a não ser por arbítrio equivocado da própria liberdade de cada homem. Na história da humanidade encontramos um contínuo exercício de amor por parte de Deus a fim de trazer-lhe o que lhe pertence: nós. O projeto de salvação é um projeto de resgate.
Vimos que por arbítrio equivocado [um arbítrio pode equivocar-se por ignorância, por orgulho, por paixão desenfreada pelo mundo e suas coisas, que obscurecem os olhos da razão e do coração diante da graça] da própria liberdade o homem pode preferir os seus desejos e ao mundo, do que a vontade de Deus e por isso não se abandonar na vontade de Deus. Mas, nem mesmo assim Deus o abandonará, pois sua vontade é imutável e faz parte de sua vontade revelar-se plenamente a cada um dos homens.
Deste modo, Deus mantém-se fielmente aberto ao retorno de cada homem e haverá muito mais alegria do retorno deste, que pelo arbítrio fechou-se às graças de Deus, do que pelo justo que se mantém fielmente aberto a elas. Deus continuará minando o curso da vida de cada homem que se fechou à sua graça, com abundantes oportunidades de retorno pela mesma graça.
Mas, diante da graça, os olhos humanos muitas vezes desiludidos [ou iludidos] com o mundo, magoados pela injustiça que é conseqüência do não converter-se a Deus, petrificam-se e não percebem a vontade de Deus manifesto na graça e nem como Deus se faz presente em suas vidas pela graça, pois acreditam que a graça de Deus deve advir-lhes para tirar-lhes da pobreza material, da dor que aflige a carne, da morte que dilacera, embora a eficácia da graça não seja contrária a isso, a graça é sobretudo um bem espiritual que fortalece o espírito para iniciar o encontro de Deus com o homem já neste mundo, dando um tom sobrenatural ao coração e à razão humana diante de toda a miséria humana, fazendo-o entender e dando-lhe sentido à vida, na medida em que a vida plena do homem somente se realizará na morada de Deus.
Além de tudo isso a graça não é triste é força eficaz do amor, que edifica na dor e na miséria das pessoas no mundo a alegria e a fé de esperar pela graça a promessa de um reino de Deus onde ninguém mais vai sentir dor, chorar e ficar triste. §4. CONCLUSÃO: A graça é bem espiritual que fortalece o homem diante destas misérias e faz descobrir no homem que o amor divino se concretiza nesta vida quando por amor somos capazes de doarmo-nos aos outros para a diminuição da dor alheia, da miséria alheia independentemente se esta doação implique no aumento da nossa; pois já não importa para quem já se encontra vacinado pelo amor divino, manifesto pela graça, sentir qualquer dor neste mundo.
Pois bem a graça é o amor divino revelado por Deus a nós num ato contínuo que nos conserva durante toda a vida no ser, na espera de que num instante desta vida nós descubramos o quanto nos ama e o quanto nos quer. Deus nunca deixa de estar e fazer-se presente na vida do homem, mas pode o homem com o coração encrudelecido não percebê-la jamais. Deus se manterá enviando-lhes graças durante toda a vida e pede, chama e recorda ao homem da importância de seu papel.
Ele não quer perder nenhuma ovelha. Ele se manterá aberto ao retorno do filho pródigo e foi por eles que Deus enviou o seu próprio filho. Deus traçou um projeto de salvação para cada homem e não descansará enquanto em Teu coração não repousar aquele filho pródigo.
Neste projeto de salvação cada homem tem o seu papel no uso de suas faculdades e de sua ação. Deus não quer pela força, porque não nos fez pela força. Ele nos quer pelo amor, porque nos fez por amor; e o amor é livre. S. Agostinho tem razão ao afirmar que o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Deus.
A liberdade humana pode aprisionar-se nos desejos do mundo ou libertar-se transcendendo ao próprio mundo por força e ação da graça que Deus lhe dá. Mas somente abrindo-se a ela poder-se-á compreender o ardor e eficácia da graça no homem.
E porque a eternidade é a presença imutável de Deus diante de todo tempo, bastaria tão-somente um instante de nosso tempo em que houvesse efetiva conversão [abertura à graça], para que Deus nos abundasse de graças e nos justificasse na graça e nos amasse como eleitos.
Deus elege a todos, mas dentre todos alguns não o elegem e isto não basta para a salvação [e aos que O elegem ele os justifica no amor]: numa relação perfeita de amor, ambos devem se amar mutuamente. Deus não nos quer impor o seu amor, quer sim que o descubramos, pois a imposição seria o extermínio da autonomia de nossa liberdade, apanágio este que nos dignifica e nos torna semelhantes a Deus. E estes que não o elegem se fecham à graça aprisionando suas liberdades aos desejos do mundo. Que diremos: que estão predestinados à condenação? Claro que não! Porque como dissemos todos estamos predestinados por uma vocação universal à santidade e bastaria tão-somente um instante de abertura sincera ao amor de Deus que o Pai abriria os braços à espera do filho que há muito se foi e que há muito o esperava com a mesa posta para um grande banquete. Somos predestinados à santidade e nunca à condenação ou à maldade. Ainda que Deus possa prever a condenação de alguém isso não anula ou contraria a sua obra de criação que é obra de amor; porque não é Deus quem condena, mas o homem a si mesmo ao não reconhecer em Deus o seu Abba [Pai].
Deus pode então prever que um homem que se portando muito mal se afasta cada vez mais de sua predestinação à santidade? Claro que Sim! Mas isso em nada diminui o amor divino para a salvação daquela alma, pelo contrário, oferece-lhe tanto mais graças para que aumentem as ocasiões de conversão [Rm 5,20: “Mas onde abundou o pecado superabundou a graça”], embora em última instância a abertura à graça dependerá da liberdade, pois a graça não força a natureza livre, pois bate à porta e entra se a liberdade a deixar entrar. Por isso a graça supõe a natureza e não a destrói.
Somos predestinados à santidade, mas não predeterminados a ela [embora Deus não meça esforços para ver-nos com Ele; e se fôssemos predeterminados à santidade não seríamos condenados; mas também não somos nem predestinados e nem predeterminados à condenação], pois somos livres e no mau uso da liberdade que nos leva a fechar-nos à graça que é o amor de Deus, poderemos ser condenados, enquanto isso significa o oposto à santificação; assim pois com a liberdade se pode confirmar a predestinação à vocação à santidade, enquanto abertura à graça de Deus ou a condenação, enquanto fechamento à graça de Deus.
Os que o elegem recebem mais graças [se a liberdade abre a porta da natureza fica mais fácil entrar o que ora está para entrar], porque sendo Deus amor se doa ainda mais aos que a Ele se abrem, libertando a liberdade da escravidão dos desejos do mundo. Pois bem, a liberdade humana – a que Deus respeita e não muda, porque é autônoma [mas não é absolutamente ilimitada, pois a liberdade humana somente não é livre para eleger outra coisa quando se encontra diante do que melhor elegível não há e diante de quem é autor da natureza] – é o que pode coroar a natureza humana convertendo-a no arbítrio a Deus ou avertendo-a no arbítrio do caminho de Deus. Ainda sobre a liberdade humana há que se dizer que para a santidade a liberdade humana não é independente de Deus; portanto, no estado de sua miséria, mais do que nunca depende da graça de Deus. Portanto, não basta ser livre para lograr a santidade, pois a liberdade por si mesma não se basta e não é suficiente para atingir a este fim, já que estando corrompida a natureza humana, corrompeu-se também o seu ato essencial que é a liberdade. E porque ninguém dá a si mesmo o que não possui, como poderia a liberdade dar-se a si mesma a santidade se não a possui? Ou como poderia ela por si mesma, corrompida e sem auxílio divino pela luz da graça encontrar o que havia perdido na escuridão?
Portanto, a graça pela qual o homem recebe a justificação por meio de Cristo não vale somente para a remissão dos pecados já cometidos, mas também como ajuda para não cometê-los. E esse é a ação da graça sobre aqueles que no mau uso da liberdade estão presos no pecado, pois somente a graça poderá ajudá-los a não mais cometê-los. Por isso a graça é necessária ao homem.
A conseqüência deste arbítrio pode ser: tender a caminho avesso ao de Deus, daí a aversão a Deus, no sentido de que não versa o mesmo caminho de Deus; tender ao caminho que verte a Deus, que leva a Deus, daí conversão a Deus, no sentido de que versa o mesmo caminho de Deus.
E porque Deus conhece [onisciência] o que pode impedir a conversão humana – a quem profundamente ama – [amor], porque conhece as misérias e as deficiências do homem, pode [onipotência] e quer [liberdade] providenciar [providência] bens abundantes [graças] dadas por amor [misericórdia], sem limitar ou predeterminar a liberdade, para que o homem na autonomia de sua vontade possa se abrir livremente à graça e verter-se ao caminho de Deus [conversão] e retorne ao que foi predestinado [predestinação]: à santidade e à sabedoria [salvação].
Portanto, Deus quando cria o homem o pré-destina à santidade e à sabedoria, mas não o predetermina, porque para o bem e para o mal que possa realizar o homem Deus não determina a sua liberdade; por isso ama o que cria e continua criando e conservando com e no amor o que faz e não mede – antropomorficamente falando – nenhum esforço para trazer de volta o Seu tesouro, o homem, que se perde no mundo ao deparar-se com um mundo corrompido pelo pecado, herança da aversão pessoal de Adão, transmitida na origem aos homens. O homem se esquece de Deus, mas Deus nunca do homem. Mas o homem por esquecê-Lo e até mesmo desconhecê-Lo [ignorância] volta-se no uso de seu bem mais precioso – a liberdade – para o arbítrio equivocado das coisas e bens que o mundo lhe oferece, crendo encontrar neles aquela saudade do infinito que sente no seu mais íntimo: saudade de Deus.
Mesmo conhecendo esta deficiência humana, Deus permanecerá com o seu plano e projeto de salvação do homem, estando aberto ao homem e proverá graças suficientes e necessárias para que o homem, mesmo que num único instante de sua existência possa a vir a recordar-se de que há um Deus que é Pai amoroso e que fará tudo para tê-lo de volta, mesmo tendo que respeitar a autonomia da liberdade humana.
Portanto, podemos dizer que Deus porque não predestina ninguém ao mal, ama tudo o que cria e as cria no amor e se há perda do amor por parte do homem é conseqüência do desamor que é o mal [privação do bem] que há no mundo, como conseqüência do pecado e ao que se atrela e se aprisiona a sua liberdade. Independendo de tudo isso Deus ama o homem e espera uma resposta dele.

Fonte: http://www.aquinate.net/p-web/portal-caleidoscopio/atualidades/atualidades-1-edicao/analises/analises-tsunami.htm

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