Contra a verdade não temos poder algum; temo-lo apenas em prol da verdade. (II Coríntios 13,8)

sábado, 11 de outubro de 2008

Nosso Primeiro Folheto Catequético

Como parte do nosso trabalho de divulgação da Doutrina da Igreja, visando um maior esclarecimento dos católicos e da sociedade acerca da mesma, o Grupo Veritas passará a publicar Folhetos Catequéticos. O primeiro tema escolhido foi a Santa Missa mais precisamente acerca da transubstanciação.

Inicialmente, os Folhetos serão distribuídos nas missas e encontros de grupos e pastorais da Paróquia Cristo Libertador (onde a maioria dos membros do Veritas reside). O lançamento oficial dos mesmos será na próxima reunião extraordinária do Veritas (dia 19/10/2008).

Quem desejar baixar, a versão digital do Folheto está disponível no link abaixo:

Santa Missa - Parte I

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Reunião Extraordinária do Grupo Veritas

O Grupo Veritas informa que haverá reunião dos membros do grupo e convidados.

Dia: 19.10.2008 (Domingo)
Hora: 15:30h
Local: ICM - Sala de Reunião

Quaisquer informações mande-nos um email ou responda este post.

Salve Maria!

Finis venit; venit finis


Finis venit; venit finis.
O fim chega; chega o fim (Ez 7,6)

Por Santo Afonso Maria de Ligório

Senhor, já que me fazeis reconhecer que tudo quanto o mundo estima não passa de fumo e demência, dai-me força para livrar-me dele antes que a morte me arrebate. Infeliz de mim, que tantas vezes, por míseros prazeres e bens terrenos, vos ofendi e perdi a vós que sois o Bem infinito! Ó meu Jesus, médico celestial, volvei os vossos olhos para minha pobre alma; vede as feridas que eu mesmo lhe abri com meus pecados, e tende piedade de mim. Mas, para me curar, quereis também que me arrependa das ofensas que vos fiz. Já que me arrependo de coração, curai-me, agora que podeis fazê-lo (Sl 40,5). Esqueci-me de vós; mas vós não me esquecestes, e agora me dais a entender que até quereis olvidar minhas ofensas, se eu as detestar (Ez 18,21).

Sim, detesto e aborreço-as mais que todos os males. Esquecei, pois, meu Redentor, as amarguras que vos causei. Doravante, prefiro perder tudo, até a vida, a perder a vossa graça. De que me serviriam, sem ela, todos os bens do mundo? Dignai-vos ajudar-me, Senhor, já que conheceis minha fraqueza.

O inferno não deixará de tentar-me; prepara mil assaltos para me reduzir de novo à condição de seu escravo. Mas vós, meu Jesus, não me abandoneis! Quero ser escravo de vosso amor. Sois meu único Senhor, que me criastes, que me remistes e que me amastes sem limites. Sois o único que mereceis amor, e só a vós é que eu quero amar.

Amem!

(Santo Afonso Maria de Ligório, Preparação para a Morte, pg. 18)

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI - SANTA MISSA COM OS DOENTES

VIAGEM APOSTÓLICA À FRANÇA
POR OCASIÃO DO 150º ANIVERSÁRIO
DAS APARIÇÕES DE LOURDES
(12 - 15 DE SETEMBRO DE 2008)

SANTA MISSA COM OS DOENTES

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

Sagrado da Basílica de Nossa Senhora do Rosário, Lourdes
Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

Amados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Queridos doentes, prezados acompanhantes e enfermeiros,
Caros irmãos e irmãs!

Ontem celebrámos a Cruz de Cristo, instrumento da nossa salvação, que nos revela em plenitude a misericórdia do nosso Deus. A Cruz é realmente o lugar onde se manifesta perfeitamente a compaixão de Deus pelo nosso mundo. Hoje, ao celebrarmos a memória de Nossa Senhora das Dores, contemplamos Maria que partilha a compaixão do Filho pelos pecadores. Como afirmava São Bernardo, a Mãe de Cristo entrou na Paixão do Filho através da sua compaixão (cf. Homilia do Domingo na Oitava da Assunção). Ao pé da Cruz cumpre-se a profecia de Simeão: o seu coração de Mãe é trespassado (cf. Lc 2, 35) pelo suplício infligido ao Inocente, nascido da sua carne. Tal como Jesus chorou (cf. Jo 11, 35), também Maria terá certamente chorado diante do corpo torturado do Filho. Todavia, a sua discrição impede-nos de medir o abismo da sua dor; a profundidade desta aflição é apenas sugerida pelo tradicional símbolo das sete espadas. Como sucedeu com seu Filho Jesus, é possível afirmar que este sofrimento levou-A também a Ela à perfeição (cf. Heb 2, 10), de modo a torná-La capaz de acolher a nova missão espiritual que o Filho Lhe confia imediatamente antes de “entregar o espírito” (cf. Jo 19, 30): tornar-Se a Mãe de Cristo nos seus membros. Naquela hora, através da figura do discípulo amado, Jesus apresenta cada um dos seus discípulos à Mãe dizendo-Lhe: “Eis o teu filho” (cf. Jo 19, 26-27).

Maria vive hoje na alegria e glória da Ressurreição. As lágrimas derramadas ao pé da Cruz transformaram-se num sorriso que nada mais apagará, embora permaneça intacta a sua compaixão materna por nós. Atesta-o a intervenção da Virgem Maria em nosso socorro ao longo da história e não cessa de suscitar por Ela, no povo de Deus, uma confidência inabalável: a oração Memorare (“Lembrai-Vos”) exprime muito bem este sentimento. Maria ama cada um dos seus filhos, concentrando a sua atenção de modo particular naqueles que, como o Filho d’Ela na hora da Paixão, se acham mergulhados no sofrimento; ama-os, simplesmente porque são seus filhos, por vontade de Cristo na Cruz.

O Salmista, vislumbrando de longe este vínculo materno que une a Mãe de Cristo e o povo crente, profetiza a respeito da Virgem Maria: “Os grandes do povo procurarão o teu sorriso” (Sal 44, 13). E assim, solicitados pela Palavra inspirada da Escritura, sempre os cristãos procuraram o sorriso de Nossa Senhora, aquele sorriso que os artistas, na Idade Média, tão prodigiosamente souberam representar e engrandecer. Este sorriso de Maria é para todos: no entanto, dirige-se de modo especial para os que sofrem, a fim de que nele possam encontrar conforto e alívio. Procurar o sorriso de Maria não é uma questão de sentimentalismo devoto ou antiquado; antes, é a justa expressão da relação viva e profundamente humana que nos liga Àquela que Cristo nos deu por Mãe.

Desejar contemplar este sorriso da Virgem não é de forma alguma deixar-se dominar por uma imaginação descontrolada. A própria Escritura nos revela tal sorriso nos lábios de Maria, quando canta o Magnificat: “A minha alma glorifica ao Senhor e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador” (Lc 1, 46-47). Quando a Virgem Maria dá graças ao Senhor, toma-nos por suas testemunhas. Maria, como que por antecipação, partilha com os futuros filhos, que somos nós, a alegria que mora no seu coração, para que uma tal alegria se torne também nossa. E cada proclamação do Magnificat faz de nós testemunhas do seu sorriso. Aqui em Lourdes, durante a aparição de 3 de Março de 1858, Bernadete contemplou de maneira muito especial este sorriso de Maria. Foi esta a primeira resposta dada pela Bela Senhora à jovem vidente, que queria saber a sua identidade. Antes de apresentar-Se-lhe alguns dias mais tarde como “a Imaculada Conceição”, Maria fez-lhe conhecer antes de mais nada o seu sorriso, como se tal fosse a porta mais apropriada para a revelação do seu mistério.

No sorriso da mais eminente de todas as criaturas, que a nós se dirige, reflecte-se a nossa dignidade de filhos de Deus, uma dignidade que nunca se extingue em quem está doente. Aquele sorriso, verdadeiro reflexo da ternura de Deus, é a fonte duma esperança invencível. Acontece infelizmente – bem o sabemos – que o sofrimento prolongado quebre os equilíbrios melhor consolidados duma vida, abale as mais firmes certezas da confiança e chegue por vezes até a fazer desesperar do sentido e valor da vida. Há combates que o homem não pode sustentar sozinho, sem a ajuda da graça divina. Quando a palavra já não consegue encontrar expressões adequadas, subentra a necessidade duma presença carinhosa: procuramos então a solidariedade não só daqueles que compartilham o nosso próprio sangue ou estão ligados connosco por vínculos de amizade, mas também a solidariedade de quantos se acham intimamente unidos a nós pelo laço da fé. E quem de mais íntimo poderíamos nós ter além de Cristo e da sua santa Mãe, a Imaculada? Mais do que qualquer outrem, Eles são capazes de nos compreender e perceber a dureza do combate que travamos contra o mal e o sofrimento. A Carta aos Hebreus, referindo-se a Cristo, afirma que Ele não é alguém incapaz de “compadecer-Se das nossas fraquezas; pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo” (Heb 4, 15).

Queria, humildemente, dizer àqueles que sofrem e a quantos lutam e se sentem tentados a virar as costas à vida: Voltai-vos para Maria! No sorriso da Virgem, encontra-se misteriosamente escondida a força para continuar o combate contra a doença e a favor da vida. Junto d’Ela, encontra-se igualmente a graça para aceitar, sem medo nem mágoa, a despedida deste mundo na hora querida por Deus.

Quão justa era a intuição daquela bela figura espiritual francesa que foi o Padre Jean-Baptiste Chautard, quando, na obra A alma de todo o apostolado, propunha ao cristão fervoroso frequentes “trocas de olhar com a Virgem Maria”! Sim, procurar o sorriso da Virgem Maria não é um pio infantilismo; é a inspiração – diz o Salmo 44 – daqueles que são “os grandes do povo” (v. 13). “Os grandes”, entenda-se, na ordem da fé, aqueles que possuem a maturidade espiritual mais elevada e sabem por isso reconhecer a sua fraqueza e pobreza diante de Deus. Naquela manifestação muito simples de ternura que é o sorriso, apercebemo-nos de que a nossa única riqueza é o amor que Deus nos tem e que passa através do Coração d’Aquela que Se tornou nossa Mãe. Procurar este sorriso significa em primeiro lugar perceber a gratuidade do amor; significa também saber suscitar este sorriso com o nosso empenho em viver segundo a palavra do seu dilecto Filho, tal como a criança procura suscitar o sorriso da mãe fazendo aquilo que é do agrado dela. E nós sabemos o que agrada a Maria pelas palavras que Ela mesma dirigiu aos serventes em Caná: “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2, 5).

O sorriso de Maria é uma fonte de água viva. “Do seio daquele que acredite em Mim – disse Jesus –, correrão rios de água viva” (Jo 7, 38). Maria é Aquela que acreditou e, do seu seio, correram rios de água viva, que vêm regar a história dos homens. A fonte indicada por Maria a Bernadete, aqui em Lourdes, é o sinal humilde desta realidade espiritual. Do seu coração de crente e de mãe corre uma água viva que purifica e cura. Inúmeros são aqueles que, mergulhando nas piscinas de Lourdes, descobriram e experimentaram a doce maternidade da Virgem Maria, agarrando-se a Ela para melhor se prenderem ao Senhor! Na sequência litúrgica desta festa de Nossa Senhora das Dores, Maria é honrada sob o título de “Fons amoris”, “Fonte de amor”. Realmente, do coração de Maria, brota um amor gratuito que suscita uma resposta filial, chamada a aperfeiçoar-se sem cessar. Como toda a mãe, e melhor do que qualquer outra mãe, Maria é a educadora do amor. É por isso que tantos doentes vêm aqui, a Lourdes, para dessedentar-se nesta “Fonte de amor” e deixar-se conduzir até à única fonte da salvação, o seu Filho, Jesus Salvador.

Cristo dispensa a sua salvação através dos sacramentos e, de modo especial, às pessoas que estão doentes ou são portadoras de qualquer deficiência, através da graça da Unção dos Enfermos. Para cada um, o sofrimento é sempre um estranho. Não nos habituamos nunca à sua presença. Por isso é difícil suportá-lo, e mais difícil ainda – como fizeram algumas grandes testemunhas da santidade de Cristo – acolhê-lo como parte integrante da própria vocação, ou aceitar, segundo a expressão de Bernadete, “tudo sofrer em silêncio para comprazer Jesus”. Para se poder dizer isto, é necessário ter percorrido já um longo caminho em união com Jesus. Em contrapartida, é possível imediatamente desde já abandonar-se à misericórdia de Deus tal como esta se manifesta por meio da graça do sacramento dos doentes. A própria Bernadete, no decurso duma existência frequentemente marcada pela doença, recebeu este sacramento quatro vezes. A graça própria deste sacramento consiste em acolher em si mesmo Cristo médico. Cristo, porém, não é médico à maneira do mundo. Para nos curar, Ele não fica fora do sofrimento que se experimenta; mas alivia-o vindo habitar naquele que está atingido pela doença, para a suportar e viver com ele. A presença de Cristo vem quebrar o isolamento que a dor provoca. O homem deixa de carregar sozinho a sua provação, mas enquanto membro sofredor de Cristo, fica conformado a Ele que Se oferece ao Pai e n’Ele participa no parto da nova criação.

Sem a ajuda do Senhor, o jugo da doença e do sofrimento pesa cruelmente. Recebendo o sacramento dos doentes, não desejamos levar outro jugo que não seja o de Cristo, fortalecidos pela promessa que Ele nos fez, isto é, que o seu jugo será fácil de levar e leve o seu peso (cf. Mt 11, 30). Convido as pessoas que vão receber a Unção dos doentes durante esta Missa a abrirem-se a uma tal esperança.

O Concílio Vaticano II apresentou Maria como a figura na qual está compendiado todo o mistério da Igreja (cf. LG 63-65). A sua vida pessoal apresenta o perfil da Igreja, sendo esta convidada a estar atenta como Ela às pessoas que sofrem. Dirijo uma saudação afectuosa aos componentes do Serviço de Saúde e Enfermagem, bem como a todas as pessoas que por diversos títulos, nos hospitais e noutras instituições, contribuem para o cuidado dos doentes com competência e generosidade. De igual modo ao pessoal de acolhimento, aos maqueiros e aos acompanhantes que, originários de todas as dioceses de França e de mais longe ainda, se prodigalizam ao longo de todo o ano à volta dos doentes que vêm em peregrinação a Lourdes, quero dizer quão precioso é o seu serviço. Eles são os braços da Igreja, humilde serva. Desejo enfim encorajar aqueles que, em nome da sua fé, acolhem e visitam os doentes, de modo particular nas capelanias dos hospitais, nas paróquias ou, como aqui, nos santuários. Possais vós sentir sempre, nesta importante e delicada missão, o apoio eficaz e fraterno das vossas comunidades! E, neste sentido, saúdo e agradeço também de modo particular meus irmãos no episcopado, os bispos franceses, os bispos estrangeiros e os sacerdotes que, todos eles, são acompanhadores dos enfermos e dos homens marcados pelo sofrimento no mundo. Obrigado pelo vosso serviço junto ao Senhor que sofre.

O serviço de caridade que prestais é um serviço mariano. Maria confia-vos o seu sorriso, para que vós próprios vos torneis, na fidelidade a seu Filho, fontes de água viva. Aquilo que estais fazendo, fazeis-lo em nome da Igreja, de quem Maria é a imagem mais pura. Possais vós levar o seu sorriso a todos!

Ao concluir, desejo unir-me à oração dos peregrinos e dos doentes e retomar juntamente convosco um pedaço da oração a Maria feita para a celebração deste Jubileu:

“Porque Vós sois o sorriso de Deus, o reflexo da luz de Cristo, a habitação do Espírito Santo,

porque Vós escolhestes Bernadete na sua miséria, Vós que sois a estrela da manhã, a porta do céu e a primeira criatura ressuscitada,


Nossa Senhora de Lourdes”, com os nossos irmãos e as nossas irmãs cujos corações e corpos estão a sofrer, nós Vos rezamos!

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Milagre: o que é?

por Paulo Faitanin - UFF

1. Definição: Por milagre – do latim ‘miraculum’ – entende-se o acontecimento incomum e admirável que causa em algo uma alteração súbita que é inexplicável pelas leis da natureza, com indício de participação divina na vida humana [Dicionário Houaiss da língua portuguesa. 1ª. Edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, verbete – milagre]. Isso não se distancia do que define o Catecismo da Igreja Católica , nº 2003 que afirma ser o milagre um dom – uma graça – extraordinário que o Espírito Santo concede ao homem para a sua justificação e salvação.

2. Natureza: O milagre é uma graça – em latim ‘gratia’ e em grego ‘charis’ – dada gratuitamente – dom – pela qual se produz um efeito sobrenatural [STh. II-II, q. 178, a.1, c.]. Segundo Tomás de Aquino, o amor de Deus causa a bondade do objeto; ora, o amor de Deus pelo homem causa-lhe a bondade; a graça é justamente o amor de Deus por nós, enquanto causa em nós o que lhe é agradável: o bem [STh. I-II, q. 110, a. 1, c. e ad. 1]. Ora, se toda graça provém do Espírito Santo, o dom do milagre, que é uma graça, igualmente provém d’Ele. O Espírito é, pois, a origem de toda graça.

3. Tipologia: Mas que tipo de graça é o milagre? Segundo Tomás é conveniente dividir a graça em graça que torna agradável a Deus e graça dada gratuitamente. A graça que torna agradável a Deus é a que une o homem a Deus. A graça dada gratuitamente é a que faz com que alguém ajude o outro a chegar a Deus [STh. I-II, q. 111, a.2, c.]. A graça dada gratuitamente serve para instruir os outros sobre as verdades divinas que ultrapassam a razão [STh. I-II, q. 111, a.4, c.]. Contudo, esta graça dada gratuitamente pode ser operante, quando a graça opera em nós e somos movidos por ela e Deus é o seu único motor. Neste caso, a operação deve ser atribuída a Deus, por isso denomina-se graça operante. Ela é cooperante, quando justamente a operação não é atribuída somente a Deus, senão também à alma [STh. I-II, q. 111, a.2, c.]. Neste aspecto, a graça do milagre pode ser tanto uma graça operante, quando Deus opera por nós o milagre, quanto uma graça cooperante, quando Deus opera conosco o milagre. Ora, como a graça causa cinco efeitos em nós: curar a alma; querer o bem; tornar eficiente para fazer o bem; perseverar no bem e conduzir à glória [STh. q. 111, a.3, c.], o primeiro efeito da graça em nós é preveniente e o segundo que se segue deste é subseqüente. Isso significa que o milagre é uma graça eficiente, porque produz muitos efeitos correlatos ao principal. Em qualquer caso, o milagre é uma graça dada gratuitamente por Deus a nós, por cujo efeito sobrenatural o homem é levado a um certo conhecimento sobrenatural das coisas da fé, para que o homem se volte mais prontamente para Deus [STh. II-II, q. 178, a.1, c.].

4. Graça e Natureza: É conhecida a sentença de Agostinho, retomada por Tomás, que afirma que a graça supõe a natureza. Sendo assim, o milagre, que é uma graça extraordinária, não faz na natureza o que seja contraditório a ela, mas o que a natureza, naquela ocasião em que ocorre o milagre, em sua condição e por si mesma, não reúne as possibilidades de fazer sob aquelas circunstâncias. Mas isso não significa dizer que há um limite do poder de Deus, de fazer na natureza o que ela não comporta. Isso Ele pode, se não contradiz a natureza. Deste modo, nenhum milagre, enquanto princípio sobrenatural da graça, contradiz a lei que rege a natureza. Se houvesse contradição, a graça não poderia atuar na natureza. Pode ocorrer, no entanto, que o homem em sua condição limitada de conhecimento, desconheça as razões da natureza, sobre as quais atuem a graça. Isso faz parecer-lhe que o milagre contradiz a natureza. O que ocorre é que o milagre transcende a natureza, mas não na medida em que se lhe opõe, mas enquanto atua segundo a sua ordem, o que pode ser desconhecido para nós. Por isso, o milagre não é a realização do impossível para a natureza, enquanto isso fosse a contradição. Como ensina Tomás: “o impossível que se diz com relação a alguma potência pode ser considerado de dois modos. Um modo por causa do defeito da própria potência, em razão de si mesma, porque de alguma maneira não pode estender-se a aquele efeito, quando um agente natural não pode modificar alguma matéria. Outro modo, a partir de algo extrínseco, quando a potência de algo está impedida ou limitada. Assim, portanto, diz-se que algo é impossível de ser feito de três maneiras: uma maneira, por causa do defeito da potência ativa, seja na modificação da matéria ou qualquer outro motivo; outra maneira por causa de algo que resista ou impeça; terceira maneira por causa disso que se diz que é impossível de ser feito, porque não pode ser término da ação” [De potentia, q.1, a.3, c.]. E conclui o Aquinate, na mesma obra, ao dizer: “Logo, as coisas que são impossíveis para a natureza, conforme a primeira e a segunda maneira, Deus as pode fazer, porque sua potência que é infinita não padece nenhum defeito, nem há matéria que Ele não possa livremente mudá-la; pois ela não pode resistir à sua potência. Ora, o que se diz que é impossível, segundo a terceira maneira, Deus não pode fazê-las, porque Deus é maximamente ato e principalmente ser. Por isso sua ação não pode dirigir-se senão principalmente ao ente e não consequentemente ao não ente. E por isso não pode fazer que a afirmação e a negação simultaneamente sejam verdades, nem aquelas coisas nas quais se inclua esta impossibilidade. Não se diz que não possa fazer isso por causa do defeito de sua potência, mas por causa do defeito de possibilidade daquilo que carece do caráter do possível; por causa disso alguns preferem dizer que Deus pode fazer algo, mas algo não pode ser feito”. Assim, pois, fica claro que o milagre é o que realiza algum efeito na natureza, que seria impossível de ser realizado pela própria natureza, na medida em que se entende esta impossibilidade não como uma contradição, mas como defeito da própria potência da natureza, em razão de si mesma, porque de alguma maneira não pode estender-se a aquele efeito ou porque a sua potência está impedida ou limitada por algo extrínseco. Por tudo isso, o milagre não contradiz as leis essenciais da natureza, mas se realiza para além das circunstâncias ordinárias em que se aplicam tais leis, porque tais circunstâncias são sempre acidentais; por isso mesmo, o milagre causa um efeito extraordinário e nos dá a impressão, pela maravilha que causa, que é algo inclusive contraditório à lei da natureza. Mas se a graça supõe a natureza, a lei da graça não pode contradizer a lei da natureza. E dada a ignorância humana acerca de alguma lei da natureza, o milagre parecerá ainda mais maravilhoso aos olhos de quem o testemunha. Por isso, nada impede que o milagre siga algumas leis da natureza que conhecemos e, por outras vezes, pareça não seguir, como quando se realiza instantaneamente e não captamos a lei natural que o explique.

5. Conclusão: O milagre é, portanto, uma graça dada gratuitamente pela onipotência divina [STh. II-II, q. 178, a.1, ad. 1], que produz um efeito sobrenatural na natureza, por cujo dom se faz com que alguém - algum santo - ajude o outro pelo testemunho do milagre realizado por Deus, a chegar a Deus [STh. I-II, q. 111, a.2, c.], sejam estes efeitos sinais, prodígios, portentos ou virtudes [STh. II-II, q. 178, a.1, c.], como o milagre da cura, profecia, línguas, ubiqüidade, estigmas, levitação, sinais e prodígios astronômicos, expulsão de demônios e ressurreição [STh. II-II, q. 178, a.1, ad. 1 e ad. 4]. A causa e a autoria é a onipotência divina, seu objeto é tudo o que pode ser feito sobrenaturalmente, sua finalidade é a salvação do homem, seus instrumentos são tanto a alma (intenção), como o corpo humano (atos) e tudo o mais que providencie o poder divino. Deus pode inclusive valer-se dos maus para manifestar a sua bondade, como valer-se de homens maus ou demônios, para realizar milagres [Super Evang. S. Ioannis. c. X, lec. 5, n. 1431] . De fato, os anjos, nem os bons e nem os maus, têm o poder para fazê-lo por contra própria, senão só pelo consentimento e poder divinos. Contudo, os demônios, para enganar e afastar os homens de Deus, fazem parecer aos homens serem capazes de realizarem milagres, seja enganando os sentidos dos homens ou incitando sua imaginação, fazendo parecer fazer algo que na realidade não fazem; fazem inclusive algo que podem fazer, segundo a sua potência, sendo tais sinais verdadeiros, mas não são verdadeiros milagres e nem graça o que fazem e nem a finalidade é converter o homem a Deus [STh. II-II, q. 178, a.2, c.].

Fonte: Aquinate

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Dez datas chaves da História da Igreja e da civilização

Julia Duin A professora Julia Duin [foto], especialista em história medieval do Northern Virginia Community College (EUA), deplora que os católicos estejam esquecidos de sua história e da importância do catolicismo na História Universal.

“A história católica é a história da civilização ocidental”, escreveu ela no diário Washington Times. “Os católicos não apreciam a herança de sua fé e não tem noção do que está sendo perdido. Ainda mais, sabem pouco das heresias e do Islã”.

Por isso ela propõe as “Dez datas que todo católico deve conhecer”. Eis elas:

Catedral de Winchester1) 313: Edito de Milão acaba com as perseguições aos cristãos;

2) 452: S. Leão Papa salva Roma dos hunos;

3) 496: batismo de Clovis, rei da França;

4) 800: sagração de Carlos Magno imperador da Cristandade;

5) 910: fundação do mosteiro de Cluny;

6) 1000: novo impulso do cristianismo na Europa;

7) 1517: Lutero inicia a revolta em Wittenberg;

8) 1571: católicos derrotam muçulmanos em Lepanto;

9) 1789: Revolução Francesa ataca a Igreja Católica;

10) 1917: revolução comunista e aparição de Fátima.

Para a professora o auge do catolicismo deu-se na civilização medieval. O período preferido dela é o século XIII porque foi “o maior de todos os séculos” e porque foi a época em que a Igreja Católica estava no seu melhor nível.

“A civilização medieval foi grande porque estava centrada em Deus, era Cristocentrica”, explicou, “a Igreja modelava todas as instituições. Ela era a campeã dos direitos dos servos e dos pobres”.

“Foi o século mais criativo, o período de criatividade mais concentrado desde o século V a. C. [N.R.: século de grandes filósofos gregos como Sócrates e Platão].

Idade Média, representação simbólica da Igreja“Nesse século, São Tomás de Aquino ensinava a Filosofia, aproveitando as recentes traduções de Aristóteles para o latim. O alto estilo gótico florescia e era o mais recente estilo arquitetônico criado em 700 anos”.

Santos como São Francisco, São Boaventura, Santa Isabel de Hungria, São Luis rei da França iluminavam os horizontes.

Para a professora Duin, o século XIV trouxe uma série de desastres que começaram com a peste negra por volta de 1340 e que fez morrer um terço da população européia.

Outras desgraças foram a Guerra dos Cem Anos iniciada em 1337, e o Grande Cisma de Ocidente que instalou anti-papas em Avignon, França.

“Hoje, concluiu, os estudantes não tem senso do tempo nem das datas. Os rapazes se perguntam se Napoleão veio antes ou depois de Colombo. Não podemos cair tão baixo, se queremos ter estudantes brilhantes a nível colegial”.

Fonte: http://gloriadaidademedia.blogspot.com/2008/09/dez-datas-chaves-da-histria-da-igreja-e.html



domingo, 7 de setembro de 2008

Restaurando a Beleza na Liturgia

Por Rev. Scott A. Haynes, S.J.C.
Cônegos Regulares de São João

A Festa de Casamento do Cordeiro descrita no Livro da Revelação na verdade descreve a Sagrada Liturgia da Igreja. No clímax do seu divino oficio a noiva reflete a imagem do noivo – a imagem do Verbo encarnado, que é Beleza encarnada. Para o mundo, a máxima “a beleza está nos olhos de quem vê” é um tema subjetivo. Para a noiva de Cristo isto é uma realidade concreta da Encarnação!

Tristemente em nosso tempo, o banal e vulgar invadiram nossos santuários, seguindo um desorientado senso de criatividade. Nada, entretanto, é mais importante atualmente do que a restauração da beleza na Sagrada Liturgia, a restauração do sagrado.

Quando se celebra a Sagrada Liturgia com verdadeira reverência e beleza, a Igreja deve ser capaz de “distinguir entre o sagrado e o profano”. Quando falsas “inculturações” poluem o serviço litúrgico nós podemos estar certos de que “tudo não é válido; tudo não é licito; tudo não é bom”. O secular, o barato, o inferior e o não-artístico “não são maneiras de se cruzar o templo do Senhor”

Para se "restaurar o sagrado" nós devemos primeiro e principalmente contemplar a beleza de Cristo na Sagrada Liturgia - uma ação sacra que supera todas as outras. Isto começa com a fidelidade exterior às rubricas, mas leva a interna união com Cristo, para "aqueles que o servem devem servi-lo em espírito e verdade". A beleza espiritual da Sagrada Liturgia transforma as vidas dos católicos. De fato, "o encontro com a beleza se transforma na ponta da flecha que acerta o coração e desta forma abre os nossos olhos". Esta beleza espiritual molda o coração como o de Cristo na beleza moral. E quando a a beleza espiritual da Sagrada Liturgia transforma uma alma, o ser humano pode criar coisas belas, como arte, arquitetura, poesia e música.

Esta beleza humana, formada pela beleza de Cristo na Sagrada Liturgia, imita o gênio criativo de Deus que deu a este mundo uma beleza natural inerente. Quando a bela e radiante face de Cristo Nosso Salvador tornasse o centro do ofício sagrado toda a criação clama com o salmista: tudo o que Ele fez é cheio com o esplendor e beleza".

Se a beleza da Santa Missa não repousa, em essência, sobre a esplendida beleza da iconografia, das vestimentas, do canto gregoriano ou da arquitetura barroca, por que então a Igreja investiu tanto do seu patrimônio patrocinando estas artes sacras? Deus colocou um desejo legítimo na alma humana para criar coisas belas porque Ele deseja que os homens compartilhem a criação, uma criação que é boa e bela.

Beleza na liturgia resulta do antigo. É por isso que a liturgia, pela sua própria natureza, necessita do antigo, e assim a liturgia não pode existir sem as rubricas ou cerimônias. A beleza erradia pelos gestos da Sagrada Liturgia. Os atos exteriores do culto, como fazer o sinal da cruz, genuflexão, ajoelhar e sentar, tornam-se meios de interiorizar a reverência e beleza nas nossas vidas.

"Todo gesto litúrgico, sendo um gesto de Cristo, é invocado para expressar beleza". E a beleza transcendental da Liturgia permeia os corações dos homens e nos forma para termos relacionamentos adequados, não apenas com Deus, mas também com nosso vizinho e nos ajuda a transformar a cultura humana. Este é o significado genuíno de "inculturação". Se nós católicos queremos que a beleza inerente da liturgia transforme a "cultura da morte", nós devemos permitir que a Sagrada Liturgia nos molde pelo seu espírito, que é o Espírito de Cristo.

Isto significa que, humildemente, nos devemos renunciar a qualquer desejo de fazer a liturgia conforme as modas passageiras. Conseqüentemente, renunciemos às inovações não autorizadas, improvisações, banalidades e ao desorientado senso de criatividade.

(Revista Mater Ecclesia, edição 0, 2008, pg. 14 , disponível em: http://igrejauna.blogspot.com/)

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Contra a verdade não temos poder algum; temo-lo apenas em prol da verdade.(II Coríntios 13,8)