Contra a verdade não temos poder algum; temo-lo apenas em prol da verdade. (II Coríntios 13,8)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Milagre: o que é?

por Paulo Faitanin - UFF

1. Definição: Por milagre – do latim ‘miraculum’ – entende-se o acontecimento incomum e admirável que causa em algo uma alteração súbita que é inexplicável pelas leis da natureza, com indício de participação divina na vida humana [Dicionário Houaiss da língua portuguesa. 1ª. Edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, verbete – milagre]. Isso não se distancia do que define o Catecismo da Igreja Católica , nº 2003 que afirma ser o milagre um dom – uma graça – extraordinário que o Espírito Santo concede ao homem para a sua justificação e salvação.

2. Natureza: O milagre é uma graça – em latim ‘gratia’ e em grego ‘charis’ – dada gratuitamente – dom – pela qual se produz um efeito sobrenatural [STh. II-II, q. 178, a.1, c.]. Segundo Tomás de Aquino, o amor de Deus causa a bondade do objeto; ora, o amor de Deus pelo homem causa-lhe a bondade; a graça é justamente o amor de Deus por nós, enquanto causa em nós o que lhe é agradável: o bem [STh. I-II, q. 110, a. 1, c. e ad. 1]. Ora, se toda graça provém do Espírito Santo, o dom do milagre, que é uma graça, igualmente provém d’Ele. O Espírito é, pois, a origem de toda graça.

3. Tipologia: Mas que tipo de graça é o milagre? Segundo Tomás é conveniente dividir a graça em graça que torna agradável a Deus e graça dada gratuitamente. A graça que torna agradável a Deus é a que une o homem a Deus. A graça dada gratuitamente é a que faz com que alguém ajude o outro a chegar a Deus [STh. I-II, q. 111, a.2, c.]. A graça dada gratuitamente serve para instruir os outros sobre as verdades divinas que ultrapassam a razão [STh. I-II, q. 111, a.4, c.]. Contudo, esta graça dada gratuitamente pode ser operante, quando a graça opera em nós e somos movidos por ela e Deus é o seu único motor. Neste caso, a operação deve ser atribuída a Deus, por isso denomina-se graça operante. Ela é cooperante, quando justamente a operação não é atribuída somente a Deus, senão também à alma [STh. I-II, q. 111, a.2, c.]. Neste aspecto, a graça do milagre pode ser tanto uma graça operante, quando Deus opera por nós o milagre, quanto uma graça cooperante, quando Deus opera conosco o milagre. Ora, como a graça causa cinco efeitos em nós: curar a alma; querer o bem; tornar eficiente para fazer o bem; perseverar no bem e conduzir à glória [STh. q. 111, a.3, c.], o primeiro efeito da graça em nós é preveniente e o segundo que se segue deste é subseqüente. Isso significa que o milagre é uma graça eficiente, porque produz muitos efeitos correlatos ao principal. Em qualquer caso, o milagre é uma graça dada gratuitamente por Deus a nós, por cujo efeito sobrenatural o homem é levado a um certo conhecimento sobrenatural das coisas da fé, para que o homem se volte mais prontamente para Deus [STh. II-II, q. 178, a.1, c.].

4. Graça e Natureza: É conhecida a sentença de Agostinho, retomada por Tomás, que afirma que a graça supõe a natureza. Sendo assim, o milagre, que é uma graça extraordinária, não faz na natureza o que seja contraditório a ela, mas o que a natureza, naquela ocasião em que ocorre o milagre, em sua condição e por si mesma, não reúne as possibilidades de fazer sob aquelas circunstâncias. Mas isso não significa dizer que há um limite do poder de Deus, de fazer na natureza o que ela não comporta. Isso Ele pode, se não contradiz a natureza. Deste modo, nenhum milagre, enquanto princípio sobrenatural da graça, contradiz a lei que rege a natureza. Se houvesse contradição, a graça não poderia atuar na natureza. Pode ocorrer, no entanto, que o homem em sua condição limitada de conhecimento, desconheça as razões da natureza, sobre as quais atuem a graça. Isso faz parecer-lhe que o milagre contradiz a natureza. O que ocorre é que o milagre transcende a natureza, mas não na medida em que se lhe opõe, mas enquanto atua segundo a sua ordem, o que pode ser desconhecido para nós. Por isso, o milagre não é a realização do impossível para a natureza, enquanto isso fosse a contradição. Como ensina Tomás: “o impossível que se diz com relação a alguma potência pode ser considerado de dois modos. Um modo por causa do defeito da própria potência, em razão de si mesma, porque de alguma maneira não pode estender-se a aquele efeito, quando um agente natural não pode modificar alguma matéria. Outro modo, a partir de algo extrínseco, quando a potência de algo está impedida ou limitada. Assim, portanto, diz-se que algo é impossível de ser feito de três maneiras: uma maneira, por causa do defeito da potência ativa, seja na modificação da matéria ou qualquer outro motivo; outra maneira por causa de algo que resista ou impeça; terceira maneira por causa disso que se diz que é impossível de ser feito, porque não pode ser término da ação” [De potentia, q.1, a.3, c.]. E conclui o Aquinate, na mesma obra, ao dizer: “Logo, as coisas que são impossíveis para a natureza, conforme a primeira e a segunda maneira, Deus as pode fazer, porque sua potência que é infinita não padece nenhum defeito, nem há matéria que Ele não possa livremente mudá-la; pois ela não pode resistir à sua potência. Ora, o que se diz que é impossível, segundo a terceira maneira, Deus não pode fazê-las, porque Deus é maximamente ato e principalmente ser. Por isso sua ação não pode dirigir-se senão principalmente ao ente e não consequentemente ao não ente. E por isso não pode fazer que a afirmação e a negação simultaneamente sejam verdades, nem aquelas coisas nas quais se inclua esta impossibilidade. Não se diz que não possa fazer isso por causa do defeito de sua potência, mas por causa do defeito de possibilidade daquilo que carece do caráter do possível; por causa disso alguns preferem dizer que Deus pode fazer algo, mas algo não pode ser feito”. Assim, pois, fica claro que o milagre é o que realiza algum efeito na natureza, que seria impossível de ser realizado pela própria natureza, na medida em que se entende esta impossibilidade não como uma contradição, mas como defeito da própria potência da natureza, em razão de si mesma, porque de alguma maneira não pode estender-se a aquele efeito ou porque a sua potência está impedida ou limitada por algo extrínseco. Por tudo isso, o milagre não contradiz as leis essenciais da natureza, mas se realiza para além das circunstâncias ordinárias em que se aplicam tais leis, porque tais circunstâncias são sempre acidentais; por isso mesmo, o milagre causa um efeito extraordinário e nos dá a impressão, pela maravilha que causa, que é algo inclusive contraditório à lei da natureza. Mas se a graça supõe a natureza, a lei da graça não pode contradizer a lei da natureza. E dada a ignorância humana acerca de alguma lei da natureza, o milagre parecerá ainda mais maravilhoso aos olhos de quem o testemunha. Por isso, nada impede que o milagre siga algumas leis da natureza que conhecemos e, por outras vezes, pareça não seguir, como quando se realiza instantaneamente e não captamos a lei natural que o explique.

5. Conclusão: O milagre é, portanto, uma graça dada gratuitamente pela onipotência divina [STh. II-II, q. 178, a.1, ad. 1], que produz um efeito sobrenatural na natureza, por cujo dom se faz com que alguém - algum santo - ajude o outro pelo testemunho do milagre realizado por Deus, a chegar a Deus [STh. I-II, q. 111, a.2, c.], sejam estes efeitos sinais, prodígios, portentos ou virtudes [STh. II-II, q. 178, a.1, c.], como o milagre da cura, profecia, línguas, ubiqüidade, estigmas, levitação, sinais e prodígios astronômicos, expulsão de demônios e ressurreição [STh. II-II, q. 178, a.1, ad. 1 e ad. 4]. A causa e a autoria é a onipotência divina, seu objeto é tudo o que pode ser feito sobrenaturalmente, sua finalidade é a salvação do homem, seus instrumentos são tanto a alma (intenção), como o corpo humano (atos) e tudo o mais que providencie o poder divino. Deus pode inclusive valer-se dos maus para manifestar a sua bondade, como valer-se de homens maus ou demônios, para realizar milagres [Super Evang. S. Ioannis. c. X, lec. 5, n. 1431] . De fato, os anjos, nem os bons e nem os maus, têm o poder para fazê-lo por contra própria, senão só pelo consentimento e poder divinos. Contudo, os demônios, para enganar e afastar os homens de Deus, fazem parecer aos homens serem capazes de realizarem milagres, seja enganando os sentidos dos homens ou incitando sua imaginação, fazendo parecer fazer algo que na realidade não fazem; fazem inclusive algo que podem fazer, segundo a sua potência, sendo tais sinais verdadeiros, mas não são verdadeiros milagres e nem graça o que fazem e nem a finalidade é converter o homem a Deus [STh. II-II, q. 178, a.2, c.].

Fonte: Aquinate

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Dez datas chaves da História da Igreja e da civilização

Julia Duin A professora Julia Duin [foto], especialista em história medieval do Northern Virginia Community College (EUA), deplora que os católicos estejam esquecidos de sua história e da importância do catolicismo na História Universal.

“A história católica é a história da civilização ocidental”, escreveu ela no diário Washington Times. “Os católicos não apreciam a herança de sua fé e não tem noção do que está sendo perdido. Ainda mais, sabem pouco das heresias e do Islã”.

Por isso ela propõe as “Dez datas que todo católico deve conhecer”. Eis elas:

Catedral de Winchester1) 313: Edito de Milão acaba com as perseguições aos cristãos;

2) 452: S. Leão Papa salva Roma dos hunos;

3) 496: batismo de Clovis, rei da França;

4) 800: sagração de Carlos Magno imperador da Cristandade;

5) 910: fundação do mosteiro de Cluny;

6) 1000: novo impulso do cristianismo na Europa;

7) 1517: Lutero inicia a revolta em Wittenberg;

8) 1571: católicos derrotam muçulmanos em Lepanto;

9) 1789: Revolução Francesa ataca a Igreja Católica;

10) 1917: revolução comunista e aparição de Fátima.

Para a professora o auge do catolicismo deu-se na civilização medieval. O período preferido dela é o século XIII porque foi “o maior de todos os séculos” e porque foi a época em que a Igreja Católica estava no seu melhor nível.

“A civilização medieval foi grande porque estava centrada em Deus, era Cristocentrica”, explicou, “a Igreja modelava todas as instituições. Ela era a campeã dos direitos dos servos e dos pobres”.

“Foi o século mais criativo, o período de criatividade mais concentrado desde o século V a. C. [N.R.: século de grandes filósofos gregos como Sócrates e Platão].

Idade Média, representação simbólica da Igreja“Nesse século, São Tomás de Aquino ensinava a Filosofia, aproveitando as recentes traduções de Aristóteles para o latim. O alto estilo gótico florescia e era o mais recente estilo arquitetônico criado em 700 anos”.

Santos como São Francisco, São Boaventura, Santa Isabel de Hungria, São Luis rei da França iluminavam os horizontes.

Para a professora Duin, o século XIV trouxe uma série de desastres que começaram com a peste negra por volta de 1340 e que fez morrer um terço da população européia.

Outras desgraças foram a Guerra dos Cem Anos iniciada em 1337, e o Grande Cisma de Ocidente que instalou anti-papas em Avignon, França.

“Hoje, concluiu, os estudantes não tem senso do tempo nem das datas. Os rapazes se perguntam se Napoleão veio antes ou depois de Colombo. Não podemos cair tão baixo, se queremos ter estudantes brilhantes a nível colegial”.

Fonte: http://gloriadaidademedia.blogspot.com/2008/09/dez-datas-chaves-da-histria-da-igreja-e.html



domingo, 7 de setembro de 2008

Restaurando a Beleza na Liturgia

Por Rev. Scott A. Haynes, S.J.C.
Cônegos Regulares de São João

A Festa de Casamento do Cordeiro descrita no Livro da Revelação na verdade descreve a Sagrada Liturgia da Igreja. No clímax do seu divino oficio a noiva reflete a imagem do noivo – a imagem do Verbo encarnado, que é Beleza encarnada. Para o mundo, a máxima “a beleza está nos olhos de quem vê” é um tema subjetivo. Para a noiva de Cristo isto é uma realidade concreta da Encarnação!

Tristemente em nosso tempo, o banal e vulgar invadiram nossos santuários, seguindo um desorientado senso de criatividade. Nada, entretanto, é mais importante atualmente do que a restauração da beleza na Sagrada Liturgia, a restauração do sagrado.

Quando se celebra a Sagrada Liturgia com verdadeira reverência e beleza, a Igreja deve ser capaz de “distinguir entre o sagrado e o profano”. Quando falsas “inculturações” poluem o serviço litúrgico nós podemos estar certos de que “tudo não é válido; tudo não é licito; tudo não é bom”. O secular, o barato, o inferior e o não-artístico “não são maneiras de se cruzar o templo do Senhor”

Para se "restaurar o sagrado" nós devemos primeiro e principalmente contemplar a beleza de Cristo na Sagrada Liturgia - uma ação sacra que supera todas as outras. Isto começa com a fidelidade exterior às rubricas, mas leva a interna união com Cristo, para "aqueles que o servem devem servi-lo em espírito e verdade". A beleza espiritual da Sagrada Liturgia transforma as vidas dos católicos. De fato, "o encontro com a beleza se transforma na ponta da flecha que acerta o coração e desta forma abre os nossos olhos". Esta beleza espiritual molda o coração como o de Cristo na beleza moral. E quando a a beleza espiritual da Sagrada Liturgia transforma uma alma, o ser humano pode criar coisas belas, como arte, arquitetura, poesia e música.

Esta beleza humana, formada pela beleza de Cristo na Sagrada Liturgia, imita o gênio criativo de Deus que deu a este mundo uma beleza natural inerente. Quando a bela e radiante face de Cristo Nosso Salvador tornasse o centro do ofício sagrado toda a criação clama com o salmista: tudo o que Ele fez é cheio com o esplendor e beleza".

Se a beleza da Santa Missa não repousa, em essência, sobre a esplendida beleza da iconografia, das vestimentas, do canto gregoriano ou da arquitetura barroca, por que então a Igreja investiu tanto do seu patrimônio patrocinando estas artes sacras? Deus colocou um desejo legítimo na alma humana para criar coisas belas porque Ele deseja que os homens compartilhem a criação, uma criação que é boa e bela.

Beleza na liturgia resulta do antigo. É por isso que a liturgia, pela sua própria natureza, necessita do antigo, e assim a liturgia não pode existir sem as rubricas ou cerimônias. A beleza erradia pelos gestos da Sagrada Liturgia. Os atos exteriores do culto, como fazer o sinal da cruz, genuflexão, ajoelhar e sentar, tornam-se meios de interiorizar a reverência e beleza nas nossas vidas.

"Todo gesto litúrgico, sendo um gesto de Cristo, é invocado para expressar beleza". E a beleza transcendental da Liturgia permeia os corações dos homens e nos forma para termos relacionamentos adequados, não apenas com Deus, mas também com nosso vizinho e nos ajuda a transformar a cultura humana. Este é o significado genuíno de "inculturação". Se nós católicos queremos que a beleza inerente da liturgia transforme a "cultura da morte", nós devemos permitir que a Sagrada Liturgia nos molde pelo seu espírito, que é o Espírito de Cristo.

Isto significa que, humildemente, nos devemos renunciar a qualquer desejo de fazer a liturgia conforme as modas passageiras. Conseqüentemente, renunciemos às inovações não autorizadas, improvisações, banalidades e ao desorientado senso de criatividade.

(Revista Mater Ecclesia, edição 0, 2008, pg. 14 , disponível em: http://igrejauna.blogspot.com/)

domingo, 31 de agosto de 2008

Julgais que Eu vim estabelecer a paz na terra?

PAPA BENTO XVI

ANGELUS

Castel Gandolfo, 19 de Agosto de 2007

Queridos irmãos
e irmãs!

Há uma expressão de Jesus, no Evangelho deste domingo, que atrai sempre a nossa atenção e exige ser bem compreendida. Enquanto está a caminho de Jerusalém, onde o espera a morte de cruz, Cristo revela aos seus discípulos: "Julgais que Eu vim estabelecer a paz na terra?" E acrescenta: "Daqui por diante estarão cinco divididos numa só casa: três contra dois e dois contra três; dividir-se-ão o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra" (Lc 12, 51-53). Quem conhece um pouco o Evangelho de Cristo, sabe que é mensagem de paz por excelência; o próprio Jesus, como escreve São Paulo, "é a nossa paz" (Ef 2, 14), morto e ressuscitado para derrubar o muro da inimizade e inaugurar o Reino de Deus que é amor, alegria e paz. Como se explicam então estas suas palavras?

A que se refere o Senhor quando diz que veio trazer segundo a redacção de São Lucas a "divisão", ou segundo a de São Mateus a "espada" (Mt 10,34)?

Esta expressão de Cristo significa que a paz que Ele veio trazer não é sinónimo de simples ausência de conflitos. Ao contrário, a paz de Jesus é fruto de uma luta constante contra o mal. O confronto que Jesus está decidido a enfrentar não é contra homens ou poderes humanos, mas contra o inimigo de Deus e do homem, satanás. Quem quer resistir a este inimigo permanecendo fiel a Deus e ao bem deve necessariamente enfrentar incompreensões e às vezes verdadeiras perseguições.

Por isso, quem deseja seguir Jesus e comprometer-se sem hesitações pela verdade deve saber que encontrará oposições e se tornará, infelizmente, sinal de divisão entre as pessoas, até no interior das suas próprias famílias. O amor aos pais é um mandamento sagrado, mas para ser vivido de modo autêntico nunca pode ser anteposto ao amor de Deus e de Cristo. Deste modo, seguindo as pegadas do Senhor Jesus, os cristãos tornam-se "instrumentos da sua paz", segundo a célebre expressão de São Francisco de Assis. Não de uma paz inconsistente e aparente, mas real, perseguida com coragem e tenacidade no compromisso quotidiano por vencer o mal com o bem (cf. Rm 12, 21) e pagando pessoalmente o preço que ela exige.

A Virgem Maria, Rainha da Paz, partilhou até ao martírio da alma a luta do seu Filho Jesus contra o maligno, e continua a partilhá-la até ao fim dos tempos. Invoquemos a sua protecção materna, para que nos ajude a ser sempre testemunhas da paz de Cristo, sem nunca descer a compromissos com o mal.

* * *

(...)

Fonte: Vaticano

sábado, 30 de agosto de 2008

Atleta britânica optou pela vida de seu bebê e ganhou medalha olímpica em Pequim


.- Em 2004 a atleta Tasha Danvers-Smith ostentava sua melhor marca nos 400 metros com obstáculos e era uma das candidatas de força a tentar uma medalha nas Olimpíadas de Atenas. Entretanto, ficou grávida e embora seu entorno esperava que abortasse para competir, ela optou pela vida de seu bebê, a quem dedicou a medalha de bronze que ganhou faz uns dias em Pequim.

Tasha sacrificou um tempo de glória em Atenas pelo pequeno Jaden, quem assegura foi sua inspiração para obter um lugar no pódio de ganhadores das olimpíadas de Pequim, encerradas no domingo passado.

Conforme relata LifeSiteNews.com, depois de descobrir que estava grávida em 2004, Tasha decidiu junto a seu marido e treinador, Darrell, priorizar a vida do bebê antes que o sonho de competir nos jogos olímpicos de Atenas. Nesse momento, seus companheiros esportivos lhe pediram que abortasse ao bebê por considerá-la uma opção segura para obter a medalha de ouro. A imprensa também foi muito dura com ela porque decidiu defender a vida de seu filho.

Várias organizações de defesa da vida se comoveram com o gesto de Danvers-Smith e a apoiaram sem reservas. A entidade Life Issues Institute (LII) concedeu-lhe o galardão "Hero At Heart" (Herói de Coração), concedido àqueles indivíduos que "demonstram um surpreendente valor ou compaixão a favor da vida humana inocente".

O diretor executivo do LII, Bradley Mattes, considerou a medalha de bronze obtida por Tasha como uma "vitória enorme" das mulheres e uma prova de que seus caluniadores estavam errados.

"Tasha demonstrou às mulheres de todo o mundo que não têm que sacrificar a seus filhos não nascidos para conseguir seus sonhos. Seu filho de três anos, Jaden, foi sua inspiração para obter suas metas olímpicas", indicou Mattes.

"Tasha fez uma opção clara pela vida, embora significasse deixar de lado temporalmente seus sonhos de uma medalha olímpica. Agora é um membro do exclusivo clube de campeões olímpicos e tem um filho formoso. Não poderia ficar mais feliz por ela", adicionou.


Fonte: ACI

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Msr. Ranjith: “O Orgulho Inimigo da Liturgia”

Bruno Volpe, Pontifex

Nova entrevista (em italiano) com Mons. Malcolm Ranjit, desta vez para o periodista Bruno Volpe do site de internet Pontifex, Ago-22-2008. O texto da tradução em espanhol é proporcionado pelo blog La Buhardilla De Jerónimo.

CIDADE DO VATICANO – “O orgulho humano, e sublinho a palavra orgulho, arruina a santa Liturgia”: afirma isso Monsenhor Malcolm Ranjith, Secretário da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, o “ministério” Vaticano da Liturgia. O Bispo do Sri Lanka certamente é um dos maiores peritos em Liturgia e, por utro lado, é bem considerado pelo Papa Bento XVI. Falamos com ele sobre a Sagrada Liturgia.

Excelência, que é a Liturgia
Poder-se-ia responder sua pergunta com uma única afirmação: Actio Christi. Basta esta resposta para iluminar o tema que, de per sí, parece-me amplamente exaustivo.

Ao dizer Actio Christi, que procura expressar?
A definição da Liturgia não a dou eu, nem nenhum outro, mas está nas próprias atas do Concílio Vaticano II, no documento Sacrosanctum Concilium ao qual dirijo minha atenção e convido o senhor a fazer o mesmo: que se o leia unido al Catecismo da Igreja.

Actio Christi... ¿Porém como a conjugamos com a ars celebrandi?
Repito-lhe que a Missa é mistério, trascendência, busca e glória de Deus. A Missa nos projeta para a glória de Deus e, portanto, é evidente que o protagonista do Sacrifício Eucarístico não é o homem, mas Deus.

Então, V. Excia é contra uma visão antropológica da Liturgia...
Claro. Porém essa não é uma idéia pessoal minha , mas é Idoia da Igreja. Em síntese, considerar o homem como o ponto central da celebração termina sendo uma desagradável brincadeira e, talvez, inclusive um engano. Creio que o verdadeiro mal da Liturgia consiste em outra coisa…

Em que?
No orgulho, orgulho e, uma vez mais, orgulho! Sublinho isso três vezes. Quando o homem, inclusive na Missa, pretende substituir a Deus, cai no orgulho, como se leê também no Apocalipse. Uma visão orgulhosa e antropológica arruina a Liturgia y desfigura o sentido do sagrado.
Portanto, o homem não cria a Liturgia…
Absolutamente. O homem não cria nada. A Liturgia não é propriedade do homem mas de Deus. Somente Deus pode dar-nos o Sacrifício da Missa. Na celebração, é necessária a presença e participação no mistério que se celebra. A Liturgia é uma ação bela e celestial, recordando uma vez mais o livro do Apocalipse…

Porém, no tempo foram dadas pontos de vista racionalistas querendo explicar inclusive aquilo que, por natureza, não é assim...
Insisto: a Missa, que não é um espetáculo alegre, é sacrifício, dom, trascendência. Então requer participação, porém também doação e dar glória ao Senhor.

Por que fala V. Excia. em orgulho?
Refiro-me ao fato de quando o homem, na celebração, pretende colocar-se no lugar de Deus. O protagonista da Missa é Deus, nunca o homem e, portanto, nunca o sacerdote celebrante.
Que é necessário para restituir dignidade à Santa Missa?
Sobrietas: lembre-se desta palavra latina. A Missa deve ser sóbria, simples e elegante, colocando Deus no centro e não ao homem. Deve se recuperar a sobriedade, eliminando o orgulho terreno que, a miúde, realiza espetáculos.

Permanecerá em seu posto [de Secretário da Congregação para o Culto Divino]?
Estou nas mãos de Deus, quem sabe...

Volpe, Bruno - Pontifex - "Msr. Ranjith: “O Orgulho Inimigo da Liturgia”"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=imprensa&subsecao=igreja&artigo=20080825〈=bra

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Marcela: uma estrela no céu

Pró-vida Anápolis

(depois de um ano e oito meses de muitos risos, morre a anencéfala Marcela, que tanto contribuiu à causa pró-vida)

No dia 1º de agosto de 2008, sexta-feira, às 22 horas, na Santa Casa de Misericórdia de Franca (SP) morreu Marcela de Jesus Ferreira, quebrando todos os recordes de sobrevivência de uma criança anencéfala. Os anencéfalos costumam ter uma breve vida extra-uterina. Segundo o Comitê Nacional de Bioética do governo italiano, “foi relatado um caso único de sobrevivência até 14 meses (8) e dois casos de sobrevivência de 7 a 10 meses, sem recorrer à respiração mecânica[1]. Marcela, porém, nascida em Patrocínio Paulista (SP) em 20 de novembro de 2006, faleceu após 1 ano, 8 meses e 12 dias de nascida. Gordinha, com 15 kg e 72 cm, e muito risonha (famosa pelas gargalhadas que dava quando sua mãe lhe fazia cócegas), Marcela respirava normalmente, quase não dependendo do concentrador de oxigênio. No dia 18 de abril de 2007, com quase cinco meses de nascida, a menina recebeu alta da Santa Casa de Misericórdia de Patrocínio Paulista. Segundo a médica Dra. Regina Helena de Freitas Lopes, Marcela “modificou todo o hospital” onde ficou internada. “Houve maior entrosamento, maior união... Valia a pena a gente estar lutando por ela”.


Célio Messias/AE
Cacilda beija a mãe da filha Marcela de Jesus

Após a alta hospitalar, Marcela foi com sua mãe Cacilda Galante Ferreira morar em uma casa na cidade. A necessidade de estar perto de um lugar com assistência médica impediu-as de irem para o sítio da família, onde vive o pai de Marcela, agricultor, Sr. Dionísio Justino Ferreira, com as duas filhas do casal: Débora (19 anos) e Dirlene (16 anos). Em 20 de novembro de 2007, Marcela comemorou seu primeiro aniversário. Em 26 de março de 2008, o Diácono Fábio Costa, que a havia batizado na Santa Casa, logo após o nascimento, completou os ritos do Batismo. Foram padrinhos o prefeito e a primeira dama de Patrocínio Paulista.

A saúde de Marcela parecia muito boa até as 7 horas do dia 1º de agosto de 2008, quando ela vomitou após tomar o leite dado por sua mãe pela sonda nosogástrica. Ao perceber que sua filha ficou arroxeada e com dificuldade de respirar, Sra. Cacilda levou-a imediatamente à Santa Casa de Misericórdia de Patrocínio Paulista, onde foi feita uma radiografia que constatou pneumonia aspirativa total do lado direito. Dra. Regina Helena crê que a pneumonia tenha sido causada por aquele vômito ou por um vômito do dia anterior. Às 12h30min, Marcela sofreu uma parada cardiorrespiratória, mas recuperou-se através de massagens e de um micro-ressuscitador. A médica pediu então uma vaga na Santa Casa de Misericórdia de Franca, ao mesmo tempo em que perguntou para a mãe: “Cacilda, você está preparada?”. A resposta foi firme: “Eu sempre estive preparada. Ela é minha enquanto Deus quiser. Ela foi um anjo que Deus me deu”. Às 14h15min foi comunicada a existência de uma vaga em Franca. Marcela e Sra. Cacilda foram à Santa Casa daquela cidade, acompanhados da médica pediatra Dra. Márcia Beani. Internada na UTI daquele hospital, Marcela iria falecer às 22 horas. No dia seguinte, após um grande velório (“todo o mundo queria pegar na mãozinha dela”, diz sua mãe), o corpo de Marcela foi sepultado às 17 horas no Cemitério Municipal de Patrocínio Paulista.

Interrogada sobre a morte de sua filha, Sra. Cacilda afirma: “Triste eu fiquei. Mas chorar, eu não chorei. Eu não estou perdendo ela. Deus está vindo buscar uma coisa que é dele, a jóia rara que eu cuidei. Estou sentindo a falta dela, mas a consciência está tranqüila. Fiz a escolha certa: a vida dela”.

Segundo a mãe, “Marcela uniu mais a família... A gente fez tantos amigos... Agora ela está lá na presença de Deus, cuidando de mim, me dando forças para suportar a falta dela”. A frase que sintetiza o pensamento de Sra. Cacilda é esta: “Só tenho que agradecer”.


Peculiaridades do caso Marcela

O Brasil conhece outro caso de anencefalia em que a criança recebeu alta hospitalar: Maria Teresa, nascida em 17/12/2000, em Fortaleza (CE), recebeu alta depois de 19 dias e só veio a falecer em 29/03/2001, portanto com mais de três meses de nascida.[2]

Outro caso particularmente chocante foi o de Manuela Teixeira, de Sobradinho (DF), que teve seu aborto recomendado aos sete meses por uma promotoria de justiça do Distrito Federal. O diagnóstico era de acrania (ausência de calota craniana). Se a criança houvesse morrido ao ser expulsa, o aborto teria sido consumado. No entanto, a criança não morreu ao sair da mãe, embora essa fosse a vontade dos médicos. Manu (ou Manuela) nasceu com 1780 g e não tinha ausência total do crânio, como os médicos previam. Parte do crânio não existia e o cérebro estava exposto.[3] Manuela só viria a morrer com três anos de nascida, no dia 14 de setembro de 2003. Seus pais sepultaram-na no cemitério de Brazlândia (DF).[4]

Alguém poderia dizer que Manuela só viveu tanto tempo por causa da parte do cérebro que lhe restava. O mesmo não se pode dizer de Marcela, no qual ambos os hemisférios cerebrais estavam ausentes. Em novembro de 2007, o jornal O Estado de São Paulo anunciou que Marcela não era anencéfala, com base na palavra de um médico da Unicamp[5]. Porém, alguns dias depois, em uma consulta feita pela Folha de São Paulo a nove especialistas, oito afirmaram que Marcela era mesmo anencéfala.[6] Percebe-se na discussão o desespero dos abortistas em justificar um prognóstico que falhou: o de que a menina morreria logo após o nascimento.

Não apenas Marcela viveu ainda 20 meses depois de nascida, como nem sequer houve relação direta entre a anencefalia e a sua morte! Ouçamos a palavra da pediatra Márcia Beani: “Achávamos que ela teria algum tipo de problema no futuro, pois com o desenvolvimento do corpo, ela poderia sofrer de falência múltipla dos órgãos, em razão da ausência cerebral. No entanto, a morte pela aspiração do leite poderia ocorrer com uma criança sadia, por exemplo, e nada tem a ver com o problema que a Marcela apresentava[7]. Em outras palavras: se não fosse o acidente ocorrido, Marcela poderia, em tese, estar ainda hoje viva e sorrindo!


Vidas salvas por Marcela

É impossível dizer quantos abortos deixaram de ser praticados por causa de Marcela. A título de ilustração, cite-se o parecer do Procurador de Justiça do Rio Grande do Sul Dr. Sérgio Guimarães Brito, de 1º de novembro de 2007, contra o aborto de uma criança anencéfala[8] e a sentença do juiz de direito da comarca de Natal (RN) Dr. Odinei W. Draeger, publicada em 30 de junho de 2008, indeferindo o pedido de abortamento de um bebê anencéfalo[9]. Em ambas as peças os juristas citam o caso de Marcela para ilustrar sua posição pró-vida.


Quanto ainda não se sabe sobre o cérebro

A passagem de Marcela entre nós — rindo, chorando, reagindo às luzes dos fotógrafos, percebendo claramente a aproximação da mãe — obriga os neurologistas a rever o dogma de que é impossível haver consciência sem a presença do córtex cerebral.

Aliás, já em 1980, o redator da revista Science Roger Lewin publicava um artigo questionando: “seu cérebro é realmente necessário?” (Is your brain really necessary?). Na ocasião, ele citava um interessante texto do neurologista britânico John Lorber:

Um dos alunos que estuda nesta universidade [Sheffield University] tem um QI de 126, ganhou prêmios como melhor aluno de matemática e tem uma vida social normal. Mas não tem cérebro, literalmente falando... Quando foi submetido a um exame, verificamos que em vez de um cérebro normal de espessura de 4,5 centímetros entre os ventrículos e a superfície cortical, havia apenas uma fina camada de tecido de pouco mais de um milímetro de espessura. Seu crânio é preenchido apenas com fluido cerebrospinal. [10]


A ADPF 54

Durante o tempo em que Marcela esteve conosco, a Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental n. 54 (ADPF 54), que pretende que o Supremo Tribunal Federal declare “atípico” o aborto de anencéfalos, ficou paralisada. Poucos dias após a morte de Marcela, em 7 de agosto de 2008, o relator Ministro Marco Aurélio expediu ofícios a diversas entidades convidando-as a participar de uma audiência pública sobre o tema. O evento, marcado para os dias 26, 27 e 28 de agosto, parece ter sido montado para favorecer a causa abortista. Das onze entidades convidadas, apenas duas são pró-vida: a CNBB e a Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família. Estas deverão falar no mesmo dia que o da organização pró-aborto “Católicas pelo Direito de Decidir” e da Igreja Universal do Reino de Deus, também esta favorável ao aborto. Além disso, o relator teve o cuidado de chamar para falar o deputado pró-aborto José Aristodemo Pinotti (DEM/SP). E quanto à Marcela? “O ministro não pretende convidar parentes de bebês com anencefalia, como a mãe da menina Marcela de Jesus Ferreira, que, apesar de ter sido diagnosticada com anencefalia, viveu 1 ano e 8 meses. ‘Vamos atuar mais no campo técnico’, afirmou[11]. De fato, a simples lembrança dessa menina traria para um ministro um obstáculo à aprovação da ADPF 54...

Rio de Janeiro, 19 de agosto de 2008.

Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz

Presidente do Pró-Vida de Anápolis



[1] COMITATO NAZIONALE PER LA BIOETICA. Il neonato anencefalico e la donazione di organi. 21 giugno 1996, p. 11. Disponível em: . Versão portuguesa disponível em: . Acesso em: 13 ago. 2008.

[2] Maria Teresa foi a quarta filha de Ana Cecília Araújo Nunes, Mestra em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará e professora da Universidade Estadual do Ceará. Cf. Ana Cecília Araújo NUNES, A história de Maria Teresa, anencéfala, ago. 2004. Disponível em:

[3] Cf. Lilian TAHAN, Ela desafiou a ciência, Correio Braziliense, 14 fev. 2003, p. 29.

[4] Cf. MORRE criança com acrania. Correio Braziliense, 15 set. 2003, p. 3.

[5] IWASSO, Simone; LEITE, Fabiane. Médica conclui que bebê nascido há um ano no interior não é anencéfalo. O Estado de S. Paulo. 15 nov. 2007. Disponível em:

[6] COISSI, Juliana. Para médicos, Marcela,1, é mesmo anencéfala. Folha de S. Paulo. Cotidiano. 22 nov. 2007. Disponível em:

[7] SARAIVA, Fabio. Bebê sem cérebro morre ao se engasgar com leite com 1 ano e 8 meses. O Globo on line. 3 ago. 2008. Disponível em: . Grifo nosso.

[8] Cf.

[9] Cf. . Consultar processo 001.08.018675-1.

[10] LEWIN, Roger. Is your brain really necessary? Science, 12 Dec. 1980: 1232-1234

[11] GALLUCCI, Mariângela. STF debate sobre fetos anencéfalos. Recife, Jornal do Commercio, 10 ago. 2008. Disponível em:


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