Contra a verdade não temos poder algum; temo-lo apenas em prol da verdade. (II Coríntios 13,8)

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Restauração de tudo em Cristo


Sao Pio X, Carta Encíclica "E supremi Apostolatus"

CARTA ENCÍCLICA

Aos veneráveis Irmãos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e outros Ordinários em paz e comunhão com a Sé Apostólica.

PIO X, PAPA

Veneráveis Irmãos, Saudação e Benção Apostólica.

Sua elevação ao Pontificado.

1. No momento de vos dirigir pela primeira vez a palavra do alto desta cátedra apostólica a que fomos elevado por um impenetrável conselho de Deus, inútil é lembrar-vos com que lágrimas e com que ardentes preces Nos esforçamos por desviar de nós o múnus tão pesado do Pontificado supremo. Mau grado a desproporção absoluta dos méritos, parece-nos podermo-nos apropriar das queixas de S. Anselmo quando, a despeito das suas oposições e das suas repugnâncias, se viu forçado a aceitar a honra do episcopado. Os testemunhos de tristeza que ele então deu, Nós podemos produzi-los por Nossa vez, para mostrarmos em que disposições de alma e de vontade aceitamos a missão tão temível de pastor do rebanho de Jesus Cristo. As lágrimas dos meus olhos me são testemunhas, escrevia ele (Ep. 1.III,1), assim como os gritos e, por assim dizer, os rugidos que meu coração soltava na sua angústia profunda. Eles foram tais que não me lembro de haver deixado escapar semelhantes em nenhuma dor antes do dia em que essa calamidade do arcebispado de Cantuária veio desabar sobre mim. Não puderam ignorá-lo aqueles que, naquele dia, viram de perto o meu rosto. Mais semelhante a um cadáver do que a um homem vivo, eu estava pálido de consternação e de dor. A essa eleição, ou, antes, a essa violência, resisti até agora, digo-o em verdade, tanto quanto me foi possível. Mas agora, a gosto ou a contragosto, eis-me forçado a reconhecer cada vez mais claramente que os desígnios de Deus são contrários aos meus esforços, de tal sorte que nenhum meio me resta de lhes escapar. Vencido menos pela violência dos homens do que pela violência de Deus, contra quem prudência alguma poderia prevalecer, depois de fazer todos os esforços em meu poder para que esse cálice se afaste de mim sem que eu o beba, não vejo outra determinação a tomar senão a de renunciar ao meu senso próprio, à minha vontade, e entregar-me inteiramente ao juízo e a vontade de Deus.

Leão XIII

2. Certamente, a Nós também não faltavam numerosos e sérios motivos para Nos furtarmos ao fardo. Sem contar que, em razão da Nossa pequenez, a nenhum título podíamos considerar-Nos digno das honras do Pontificado, como não Nos sentirmos profundamente comovido vendo-Nos escolhido para suceder àquele que, durante vinte e seis anos, ou pouco falta, em que governou a Igreja com sabedoria consumada, deu mostras de tal vigor de espírito e de tão insignes virtudes, que se impôs à admiração dos próprios adversários e, pelo brilho das obras, imortalizou a sua memória?

Situação calamitosa do mundo.

3. Além disto, e para passar em silêncio muitas outras razões, Nós experimentávamos uma espécie de terror em considerar as condições funestas da humanidade na hora presente. Pode-se ignorar a doença profunda e tão grave que, neste momento muito mais do que no passado, trabalha a sociedade humana, e que, agravando-se dia a dia e corroendo-a até à medula, arrasta-a à sua ruína? Essa doença, Veneráveis Irmãos, vós a conheceis, e é, para com Deus, o abandono e a apostasia; e, sem dúvida, nada há que leve mais seguramente à ruína, consoante essa palavra do profeta: Eis que os que se afastam de vós perecerão (Sl 72,27). A tamanho mal Nós compreendíamos que, em virtude do múnus pontifical a Nós confiado, competia-nos dar remédio; achávamos que a Nós se dirigia esta ordem de Deus: Eis que hoje te estabeleci sobre as nações e os reinos para arrancares e para destruíres, para edificares e para plantares (Jer 1,10); mas, plenamente cônscio da Nossa fraqueza, Nós temíamos assumir uma obra eriçada de tantas dificuldades, e que, no entanto, não admite delongas.

Restaurar tudo em Cristo.

Contudo, já que a Deus aprouve elevar a Nossa baixeza até esta plenitude de poder, Nós haurimos coragem n’Aquele que nos conforta; e, pondo mãos a obra, sustentado pela força divina, declaramos que o nosso fito único, no exercício do Sumo Pontificado, é restaurar tudo em Cristo (Ef 1,10) a fim de que Cristo seja tudo e em tudo (Col 3,14).

4. Haverá, sem dúvida, quem, aplicando às coisas divinas a curta medida das coisas humanas, procure perscrutar os nossos pensamentos íntimos e torcê-los às suas vistas terrenas e aos seus interêsses de partido. Para cortar com essas vãs tentativas, em toda verdade afirmamos que não queremos ser, e que, com o socorro divino, não havemos de ser, no meio das sociedades humanas, outra coisa senão o ministro de Deus que nos revestiu da sua autoridade. Os interêsses D’Ele são os Nossos interêsses; consagrar-lhes as Nossas forças e a Nossa vida, tal é a nossa resolução inabalável. E é por isto que, se Nos pedirem um lema que traduza o próprio fundo de Nossa alma, jamais daremos outro senão este: restaurar todas as coisas em Cristo.

5. Querendo, pois, empreender e prosseguir esta grande obra, Veneráveis Irmãos, o que redobra o Nosso ardor é a certeza de que Nos sereis nisso valorosos auxiliares. Se duvidássemos disto, pareceríamos ter-vos, bem erradamente aliás, por mal informados ou indiferentes, em face da guerra ímpia que foi suscitada e que em quase toda a parte vai prosseguindo contra Deus. Nos nossos dias, sobejamente verdadeiro é que as nações fremiram e os povos meditaram projetos insensatos (Sl 2,1) contra o seu Criador; e quase comum se tornou este grito dos seus inimigos: Retirai-vos de nós (Job 21,14). Daí, na maioria, uma rejeição completa de todo o respeito de Deus. Daí hábitos de vida, tanto privada como publica, em que nenhuma conta se faz da soberania de Deus. Bem mais, não há esforço nem artifício que se não ponha por obra para abolir inteiramente a lembrança d’Ele, e até a sua noção.

Audácia dos maus. “o homem usurpou o lugar do criador”

6. Quem pesa estas coisas tem direito de temer que uma tal perversão dos espíritos seja o começo dos males anunciados para o fim dos tempos, e como que a sua tomada de contacto com a terra, e que verdadeiramente o filho de perdição de que fala o Apóstolo (2 Tess 2,3) já tenha feito o seu advento entre nós, tamanha é a audácia e tamanha a sanha com que por toda parte se lança o ataque à religião, com que se investe contra os dogmas da fé, com que se tende obstinadamente a aniquilar toda a relação do homem com a Divindade! Em compensação, e é este, no dizer do mesmo Apóstolo, o caráter próprio do Anticristo, com uma temeridade sem nome o homem usurpou o lugar do Criador, elevando-se acima de tudo o que traz o nome de Deus. E isso a tal ponto que, impotente para extinguir completamente em si a noção de Deus, ele sacode entretanto o jugo da sua majestade, e dedica a si mesmo o mundo visível à guisa de templo, onde pretende receber as adorações dos seus semelhantes. Senta-se no templo de Deus, onde se mostra como se fosse o próprio Deus (2 Tess 2,2).

Vitória certa de Deus.

7. Qual venha a ser o desfecho desse combate travado contra Deus por uns fracos mortais, nenhum espírito sensato pode pô-lo em dúvida. Certamente, ao homem que quer abusar da sua liberdade lícito é violar os direitos e a autoridade suprema do Criador; mas ao Criador fica sempre a vitória. E ainda não é dizer o bastante: a ruína paira mais de perto sobre o homem justamente quando mais audacioso ele se ergue na esperança do triunfo. É o de que o próprio Deus nos adverte nas Sagradas Escrituras. Dizem elas que Ele fecha os olhos sobre os pecados dos homens (Sab 11,24), como que esquecido do seu poder e da sua majestade; mas em breve, após essa aparência de recuo, acordando como um homem cuja força a embriaguez aumentou (Sl 77,65), Ele quebra a cabeça dos seus inimigos (Sl 67,22), afim de que todos saibam que o Rei de toda a terra é Deus (Sl 46,8), e afim de que os povos compreendam que não passam de homens (Sl 9,20).

Deus exige nossa colaboração.

8. Tudo isso, Veneráveis Irmãos, com fé certa sustentamos e esperamos. Mas esta confiança não nos dispensa, naquilo que de nós depende, de apressarmos a obra divina, não somente por uma oração perseverante: Levantai-vos, Senhor, e não permitais que o homem se prevaleça da sua força (Sl 9,19), mais ainda, e é o que mais importa, pela palavra e pelas obras, em plena luz, afirmando e reivindicando para Deus a plenitude do seu domínio sobre os homens e sobre toda criatura, de sorte que os seus direitos e o seu poder de mandar sejam reconhecidos por todos com veneração, e praticamente respeitados.

O partido de Deus.

9. Cumprir esses deveres não é apenas obedecer às leis da natureza, é trabalhar também para vantagem do gênero humano. De feito, Veneráveis Irmãos, quem poderia deixar de sentir a sua alma presa de temor e de tristeza em vendo a maioria dos homens, enquanto, por outro lado, se exaltam, e com justa razão, os progressos da civilização, vendo-os desencadear-se com tal encarniçamento uns contra os outros, que se diria um combate de todos contra todos? Sem dúvida, o desejo da paz está em todos os corações, e não há ninguém que não a chame por todos os seus anseios. Mas essa paz, insensato de quem a busca fora de Deus; porquanto expulsar a Deus é banir a justiça; e, afastada a justiça, toda a esperança de paz torna-se uma quimera. A paz é obra da justiça (Is 32,17). Pessoas há, e, não o ignoramos, em grande número, as quais, impelidas pelo amor da paz, isto é, da tranqüilidade da ordem, se associam e se agrupam para formarem o que elas chamam de partido da ordem. Ai! Vãs esperanças, trabalho perdido! De partidos de ordem capazes de restabelecer a tranqüilidade no meio da perturbação das coisas, só há um: o partido de Deus. É, pois, este que nos cumpre promover; é a ele que nos cumpre trazer o maior número de adeptos possível, por menos que tenhamos a peito a segurança publica.

10. Todavia, Veneráveis Irmãos, essa volta das nações ao respeito da majestade e da soberania divina, por mais esforços, aliás, que façamos para realizá-lo, não advirá senão por Jesus Cristo. De feito, o Apóstolo adverte-nos que ninguém pode lançar outro fundamento senão aquele que foi lançado e que é o Cristo Jesus (I Cor 3,11). Só a Ele foi que o Pai santificou e enviou a este mundo (Jo 10, 36), esplendor do Pai e figura da sua substância (Heb 1,3), verdadeiro Deus e verdadeiro homem sem o qual ninguém pode conhecer a Deus como convém, pois ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo (Mt 11,27).

Reconduzir os homens ao império de Cristo.

11. Donde se segue que restaurar tudo em Cristo e reconduzir os homens à obediência divina são uma só e mesma coisa. E é por isto que o fito para o qual devem convergir todos os nossos esforços é reconduzir o gênero humano ao império de Cristo. Feito isto, o homem achar-se-á, por isso mesmo, reconduzido a Deus. Mas – queremos dizer – não um Deus inerte e descuidoso das coisas humanas, como nos seus loucos devaneios o forjaram os materialistas, senão um Deus vivo e verdadeiro, em três pessoas na unidade de natureza, autor do mundo, estendendo a todas as coisas a sua infinita Providência, enfim legislador justíssimo que pune os culpados e assegura às virtudes a sua recompensa.

A via é a Igreja.

12. Ora, onde está a via que nos dá acesso a Jesus Cristo? Está debaixo dos nossos olhos: é a Igreja. Diz-no-lo com razão São João Crisóstomo: a Igreja é a tua esperança, a Igreja é a tua salvação, a Igreja é o teu refugio (Hom. de capto Eutropio, n. 6).

13. Foi para isso que Cristo a estabeleceu, depois de adquiri-la ao preço do seu sangue; foi para isso que Ele lhe confiou a sua doutrina e os preceitos da sua lei, prodigalizando-lhe ao mesmo tempo os tesouros da graça divina para a santificação e salvação dos homens.

14. Vedes, pois, Veneráveis Irmãos, que obra nos é confiada, a Nós e a vós. Trata-se de reconduzir as sociedades humanas, desgarradas longe da sabedoria de Cristo, reconduzi-las à obediência da Igreja; a Igreja, por seu turno, submetê-las-á a Cristo, e Cristo a Deus. E, se pela graça divina Nos for dado realizar esta obra, teremos a alegria de ver a iniqüidade ceder lugar à justiça, e folgaremos de ouvir uma grande voz dizendo do alto dos céus: Agora é a salvação, e a virtude, e o reino de nosso Deus e o poder de seu Cristo (Apoc. 12,10).

15. Todavia, para que o resultado corresponda aos Nossos votos, mister se faz, por todos os meios e à custa de todos os esforços, desarraigar inteiramente essa detestável e monstruosa iniqüidade própria do tempo em que vivemos e pela qual o homem se substitui a Deus. Restabelecer na sua antiga dignidade as leis santíssimas e os conselhos do Evangelho; proclamar bem alto as verdades ensinadas pela Igreja sobre a santidade do matrimônio, sobre a educação da infância, sobre a posse e o uso dos bens temporais, sobre os deveres dos que administram a coisa pública; restabelecer, enfim, o justo equilíbrio entre as diversas classes da sociedade segundo as leis e as instituições cristãs.

16. Tais são os princípios que, para obedecer à divina vontade, Nós Nos propomos aplicar durante todo o curso do Nosso Pontificado e com toda a energia de Nossa alma.

17. O vosso papel, Veneráveis Irmãos, será secundar-Nos pela vossa santidade, pela vossa ciência, pela vossa experiência, e sobretudo pelo vosso zelo da glória de Deus, não visando a nada mais do que a formar em todos Jesus Cristo (Gal 4,19).

OS MEIOS:

1) Formar Cristo nos Sacerdotes.

18. Que meios importa empregar para atingir um fim tão elevado? Parece supérfluo indicá-los, tanto eles se apresentam à mente por si mesmos. Sejam os vossos primeiros cuidados formar Cristo naqueles que, pelo dever da sua vocação, são destinados a formá-lo nos outros. Queremos falar dos sacerdotes, Veneráveis Irmãos. Porquanto todos aqueles que são honrados com o sacerdócio devem saber que tem, entre os povos com que convivem, a mesma missão que Paulo testava haver recebido, quando pronunciava estas ternas palavras: Meus filhinhos, a quem eu gero de novo, até que Cristo se forme em vós (Gal 4). Ora, como poderão eles cumprir um tal dever, se eles próprios não forem primeiramente revestidos de Cristo? e revestidos até poderem dizer com o Apóstolo: Vivo, já não eu, mas Cristo vive em mim (Gal 2,20). Para mim Cristo é a minha vida (Fil 1,21). Por isto, embora todos os fiéis devam aspirar ao estado de homem perfeito, à medida da idade da plenitude de Cristo (Ef 4,3), essa obrigação incumbe principalmente àquele que exerce o ministério sacerdotal. Por isto é ele chamado ‘outro Cristo’; não somente porque participa do poder de Jesus Cristo, mas porque deve imitar-Lhe as obras e, destarte, reproduzir-Lhe a imagem em si mesmo.

Cuidados dos seminaristas.

19. Se assim é, Veneráveis Irmãos, quão grande não deve ser a vossa solicitude para formar o clero na santidade! Não há negócio que não deva ceder o passo a este. E a conseqüência é que o melhor e o principal do vosso zelo deve aplicar-se aos vossos Seminários, para introduzir neles uma tal ordem e lhes assegurar um tal governo, que neles se veja florescerem lado a lado a integridade do ensino e a santidade dos costumes. Fazei do Seminário as delícias do vosso coração, e não descureis coisa alguma daquilo que, na sua alta sabedoria, o Concílio de Trento prescreveu para garantir a prosperidade dessa instituição. Quando chegar o tempo de promover às Sagradas Ordens os jovens candidatos, ah! Não vos esqueçais daquilo que São Paulo escrevia a Timóteo: Não imponhas precipitadamente as mãos a ninguém (I Tim. 5,22); bem vos persuadindo de que, as mais das vezes, tais quais forem aqueles que admitirdes ao sacerdócio, tais serão também, depois, os fiéis confiados à solicitude deles. Não olheis, pois, a nenhum interêsse particular, seja de que natureza fôr; mas tende ùnicamente em mira Deus, a Igreja, a felicidade eterna das almas, a fim de, como nos adverte o Apóstolo, evitardes participar dos pecados de outrem (Ibid.).

Cuidados dos novos Sacerdotes.

20. Alias, nem por isto escapem às solicitudes do vosso zelo os novos padres que saem do Seminário. Estreitai-os, recomendam-vo-lo do mais profundo de Nossa alma, estreitai-os com freqüência ao vosso coração, que deve arder de um fogo celeste; aquecei-os, inflamai-os, afim de que eles, não mais aspirem senão a Deus e à conquista das almas. Quanto a Nós, Veneráveis Irmãos, velaremos com o maior cuidado por que os membros do clero não se deixem surpreender pelas manobras insidiosas, de uma certa ciência nova que se enfeita com a mascara da verdade e onde se não respira o perfume de Jesus Cristo; ciência mendaz que, com o favor de argumentos falazes e pérfidos, se esforça por abrir caminho aos erros do racionalismo ou do semi-racionalismo, e contra a qual o Apóstolo já advertia ao seu caro Timóteo premunir-se, quando lhe escrevia: Guarda o depósito, evitando as novidades profanas na linguagem, tanto quanto as objeções de uma ciência falsa, cujos partidários com todas as suas promessas faliram na fé (I Tim 6,20ss). Não quer isto dizer que não julguemos dignos de elogios esses padres novos que se consagram a úteis estudos em todos os ramos da ciência, e assim se preparam para defender melhor a verdade e para refutar mais vitoriosamente as calúnias dos inimigos da fé. Não podemos, todavia, dissimulá-lo, e declaramo-lo, mesmo muito abertamente: as Nossas preferências são e serão sempre por aqueles que, sem descurarem as ciências eclesiásticas e profanas, se votam mais particularmente ao bem das almas no exercício dos diversos ministérios que ficam bem ao padre animado de zelo pela honra divina.

2) Necessidade do Ensino Religioso.

21. É para o Nosso coração uma grande tristeza e uma contínua dor (Rom. 9,2) verificar que se pode aplicar aos nossos dias esta queixa de Jeremias: As crianças pediram pão, e não havia ninguém para lhes partir esse pão (Jer. 4,4). Efetivamente, não falta no clero quem, cedendo a gostos pessoais, dispenda a sua atividade em coisas de uma utilidade mais aparente do que real; ao passo que menos numerosos são talvez os que, a exemplo de Cristo, tomem para si mesmos as palavras do Profeta: O Espírito do Senhor deu-me a unção, enviou-me a evangelizar os pobres, a curar os que têm o coração partido, a anunciar os cativos a libertação, e a luz aos cegos (Lc 4,18-19). E, no entanto, visto que o homem tem por guia a razão e a liberdade, a ninguém escapa que o principal meio de restituir a Deus o seu império sobre as almas é o ensino religioso. Quantos que são hostis a Jesus Cristo, que horrorizam a Igreja e o Evangelho, bem mais por ignorância do que por malícia, e dos quais se poderia dizer: Blasfemam tudo o que ignoram (Jud. 10)! Estado de alma que verificamos não sòmente no povo e no seio das classes mais humildes, as quais a sua própria condição torna mais acessíveis ao erro, mas até nas classes elevadas, e naqueles mesmos que possuem, aliás, uma instrução pouco comum. Daí, em muitos, o deperecimento da fé; pois não se deve admitir que sejam os progressos da ciência que a sufoquem; é, muito antes, a ignorância; de tal sorte que, onde quer que a ignorância é maior, aí também a incredulidade faz maiores devastações. Foi por isto que Cristo deu aos apóstolos este preceito: Ide e ensinai todas as nações (Mt 28,19).

3) A Caridade Cristã.

22. Mas, para que esse zelo em ensinar produza os frutos que dele se esperam e sirva para formar Cristo em todos, nada mais eficaz do que a caridade; gravemos isto fortemente na nossa memória, ó Veneráveis Irmãos, pois o Senhor não está na comoção (III Rs 19,11). Debalde esperaríamos atrair as almas a Deus por um zelo impregnado de azedume; exprobrar duramente os erros, e repreender os vícios com aspereza, muitíssimas vezes causa mais dano do que proveito. Verdade é que o Apóstolo, exortando Timóteo, lhe dizia: Acusa, suplica, repreende, mas acrescentava: com toda paciência (II Tim 4,2). Nada mais conforme aos exemplos que Jesus Cristo nos deixou. É Ele quem nos dirige este convite: Vinde a mim vós todos que sofreis e que gemeis sob o fardo, e eu vos aliviarei (Mt 11,28). E, no seu pensamento, esses enfermos e esses oprimidos outros não eram senão os escravos do erro e do pecado. De feito, que mansidão nesse divino Mestre! Que ternura, que compaixão para com todos os infelizes! O seu divino Coração é-nos admiràvelmente pintado por Isaías nestes termos: Pousarei sobre ele o meu espírito; ele não contestará nem elevará a voz: jamais acabará de quebrar o caniço meio partido, nem extinguirá a mecha que ainda fumega (Is 42,1ss). Essa caridade paciente e benigna (I Cor 13,4) deverá ir ao encontro daqueles mesmos que são nossos adversários e nossos perseguidores. Eles nos maldizem, assim o proclamava São Paulo, e nós bendizemos; perseguem-nos, e nós suportamos; blasfemam-nos, e nós oramos (I Cor. 4,12,ss). Talvez que, afinal de contas, eles se mostrem piores do que são realmente. O contacto com os outros, os preconceitos, a influência das doutrinas e dos exemplos, enfim o respeito humano, conselheiro funesto, inscreveram-nos no partido da impiedade; mas, no fundo, a vontade deles não é tão depravada como eles se comprazem em fazer crer. Porque então não haveríamos de esperar que a chama da caridade dissipe enfim as trevas da alma deles, e faça reinar nelas, com a luz, a paz de Deus? Mais de uma vez o fruto do nosso trabalho talvez se faça esperar; mas a caridade não se cansa, persuadida de que Deus mede a suas recompensas não pelos resultados, mas pela boa vontade.

Todos os fiéis devem colaborar.

23. Entretanto, Veneráveis Irmãos, absolutamente não é Nosso pensamento que, nessa obra tão árdua da renovação dos povos por Cristo, vós e o vosso clero fiqueis sem auxiliares. Sabemos que Deus recomendou a cada um o cuidado do seu próximo (Ecli 17,12). Não são, pois, sòmente os homens revestidos do sacerdócio, mas sim todos os fiéis sem exceção, que devem dedicar-se aos interêsses de Deus e das almas: certamente, não cada um ao sabor das suas vistas e das suas tendências, mas sempre sob a direção e segundo a vontade dos Bispos, pois o direito de mandar, de ensinar, de dirigir não pertence a ninguém mais na Igreja senão a vós, estabelecidos pelo Espírito Santo para regerdes a Igreja de Deus (At 20,28).

a) Nas associações.

24. Associar-se entre católicos com intuitos diversos, mas sempre para o bem da religião, é coisa que, de há longo tempo, tem merecido a aprovação e as bênçãos dos Nossos predecessores. Nós também não hesitamos em louvar tão pela obra, e vivamente desejamos que ela se difunda e floresça por toda parte, nas cidades como nos campos. Mas, ao mesmo tempo, entendemos que essas associações tenham por primeiro e principal objeto fazer que os que nelas se alistam cumpram fielmente os deveres da vida cristã. Pouco importa, em verdade, agitar sutilmente múltiplas questões e dissertar com eloqüência sobre direitos e deveres, se tudo isso não redunda na ação. A ação, eis o que reclamam os tempos presentes; mas uma ação que se aplique sem reserva à observância integral e escrupulosa das leis divinas e das prescrições da Igreja, à profissão aberta e ousada da religião, ao exercício da caridade sob todas as suas formas, sem preocupação alguma de si mesmo nem das suas vantagens terrenas. Esplêndidos exemplos deste gênero dados por tantos soldados de Cristo mais depressa abalarão e arrastarão as almas, do que a multiplicidade das palavras e do que a sutileza das discussões; e ver-se-ão, sem dúvida, multidões de homens, calcando aos pés o respeito humano, desprendendo-se de todo preconceito e de toda hesitação, aderir a Cristo e promover, por seu turno, o conhecimento e o amor de Cristo, penhor da verdadeira e sólida felicidade.

b) Pelo fervor da vida cristã.

25. Certamente, no dia em que, em cada cidade, em cada aldeia, a lei do Senhor for cuidadosamente guardada, as coisas santas forem cercadas de respeito, os sacramentos freqüentados, em suma, tudo o que constitui a vida cristã for reposto em honra, nada mais faltará, Veneráveis Irmãos, para que Nós contemplemos a restauração de todas as coisas em Cristo. E não se creia que tudo isso se refere somente à aquisição dos bens eternos; os interêsses temporais e a prosperidade pública também se ressentirão mui felizmente disso. Porquanto, uma vez obtidos esses resultados, os nobres e os ricos saberão ser justos e caridosos para com os pequenos, e estes suportarão na paz e na paciência as privações da sua pouca afortunada condição; os cidadãos obedecerão não mais ao arbítrio, porém às leis; todos considerarão como um dever o respeito e o amor para com os que governam, e cujo poder só vem de Deus (Rom 13,1).

A Igreja deve ser livre

26. Há mais. Assim sendo, a todos será manifesto que a Igreja, tal como foi instituída por Jesus Cristo, deve gozar de plena e inteira liberdade, e não ser submetida a nenhuma dominação humana; e que Nós mesmos, reivindicando essa liberdade, não somente salvaguardamos os direitos sagrados da religião, mas provemos também ao bem comum e à segurança dos povos: a piedade é útil a tudo (I Tim 4,8), e, onde quer que ela reine, o povo está verdadeiramente assente na plenitude da paz (Is 32,18).

Conclusão

27. Que Deus, rico em misericórdia (Ef 2,4), apresse, na sua bondade, essa renovação do gênero humano em Jesus Cristo, visto não ser isso obra nem daquele que quer, nem daquele que corre, mas do Deus das misericórdias (Rom 9,16). E nós todos, Veneráveis Irmãos, peçamos-lhe esta graça em espírito de humildade (Dan 3,39), por uma oração instante e contínua, apoiada nos méritos de Jesus Cristo. Recorramos também à intercessão poderosíssima da divina Mãe. E, para mais largamente obtê-la, tomando ensejo deste dia em que vos dirigimos estas Letras, e que foi instituído para solenizar O santo Rosário, confirmamos todas as ordenações pelas quais o Nosso predecessor consagrou o mês de outubro à augusta Virgem, e prescreveu em todas as igrejas a recitação pública do Rosário. Exortamos-vos, além disso, a tomardes também por intercessores o puríssimo Esposo de Maria, padroeiro da Igreja Católica, e os príncipes dos apóstolos, São Pedro e São Paulo.

28. Para que todas estas coisas se realizem segundo os Nossos desejos, e para que todos os vossos trabalhos sejam coroados de êxito, Nós imploramos sobre vós, em grande abundância, os dons da graça divina. E, como testemunho da terna caridade em que voz abraçamos, a vós e a todos os fiéis pela Divina Providência confiados aos vossos cuidados, Nós vos concedemos em Deus, com abundância de coração, Veneráveis Irmãos, bem como ao vosso clero e ao vosso povo, a Benção Apostólica.

Dado em Roma, junto de São Pedro, a 4 de outubro do ano de 1903, primeiro do Nosso Pontificado.

PIO X, PAPA.


Fonte:
- http://www.fsspx-brasil.com.br/page%2006-7-e-supremi-apostolatus.htm#01%20topo%20de%20pagina%20t%EDtulo

- http://www.vatican.va/holy_father/pius_x/encyclicals/documents/hf_p-x_enc_04101903_e-supremi_en.html (em inglês)

domingo, 16 de setembro de 2007

Homem ou coelho?


Pode-se ter uma boa vida sem se acreditar no cristianismo? Esta é a questão sobre a qual me pediram para escrever e, imediatamente antes de tentar respondê-la, tenho um comentário a fazer. A questão parece ter sido formulada por uma pessoa que diz a si própria, “Não me importo se o cristianismo é ou não verdadeiro. Não estou interessado em descobrir se o universo real é mais parecido com o dos cristãos ou com o dos materialistas. Tudo em que estou interessado é em ter uma vida boa. Vou escolher minhas crenças não porque as penso verdadeiras mas porque as considero úteis.” Francamente, acho difícil alguém simpatizar com esse estado mental. Uma das coisas que distingue o homem de outros animais é que ele quer conhecer as coisas, quer descobrir o que é a realidade, simplesmente por conhecer.[1] Quando esse desejo é, em alguém, completamente sufocado, penso que esse alguém tenha se tornado algo menos que um homem. De fato, não acredito que nenhum de vocês tenha perdido esse desejo. Muito provavelmente, pregadores tolos, ao sempre dizerem o quanto o cristianismo ajudará a vocês e o quanto ele é bom para a sociedade, tenham levado vocês a esquecerem que o cristianismo não é um comprimido que se toma para algum mal. O cristianismo alega ter uma explicação para fatos – alega poder dizê-los o que é o universo real. Sua explicação sobre o universo pode ser verdadeira, ou pode não ser, e uma vez que a questão está à sua frente, então sua natural curiosidade deve fazê-los querer conhecer a resposta. Se o cristianismo não é verdadeiro, então nenhum homem honesto desejará nele acreditar, não importa o quão útil ele seja: se ele é verdadeiro, cada homem honesto desejará nele acreditar, mesmo se isso não o ajudar de forma alguma.
Tão logo percebemos isso, percebemos algo mais. Se o cristianismo for verdadeiro, então é muitíssimo improvável que aqueles que nele acreditam e aqueles que nele não acreditam estejam igualmente equipados para ter uma boa vida. O conhecimento dos fatos deve fazer diferença para as ações realizadas. Suponha que você encontre um homem a ponto de morrer de fome e queira fazer algo de bom para ele. Se você não tivesse nenhum conhecimento da ciência médica, você iria, provavelmente, dar a ele uma grande quantidade de comida sólida; e, como resultado, seu homem morreria. Isso é o que significa agir no escuro. Da mesma forma, um cristão e um não-cristão devem, ambos, desejar fazer o bem a outros homens. Um deles acredita que os homens são eternos, que eles foram criados por Deus e, de tal forma, que eles só podem encontrar sua verdadeira e permanente felicidade na união com Deus, que eles se perderam terrivelmente no caminho, e que a fé obediente em Cristo é o único caminho de volta. O outro acredita que os homens são um resultado acidental do trabalho cego da matéria, que eles começaram como meros animais e, mais ou menos, evoluíram permanentemente, que eles irão viver por volta de setenta anos, que sua felicidade é totalmente atingida por meio de bons serviços sociais e por organizações políticas, e que tudo o mais (p. ex., vivisseção, controle de natalidade, o sistema judicial, educação) deve ser avaliado como “bom” ou “mau” simplesmente na medida em que ajuda ou atrapalha aquele tipo de “felicidade”.
Ora, há muitas coisas que esses dois homens concordam em fazer para seus semelhantes. Ambos aprovariam sistemas de esgoto e hospitais eficientes e uma dieta saudável. Mas, cedo ou tarde, a diferença de suas crenças produziria diferenças em seus propósitos práticos. Ambos, por exemplo, poderiam ser muito preocupados com a educação: mas os tipos de educação que eles desejariam para o povo seria obviamente muito diferentes. Onde o materialista perguntaria, a respeito de uma proposta de ação, apenas se “Ela aumentaria a felicidade da maioria?”, o cristão teria a dizer, “Mesmo que ela aumente a felicidade da maioria, não podemos realizá-la. Ela é injusta.” E todo o tempo, uma grande diferença atravessaria todas as suas políticas. Para o materialista, as coisas como nações, classes, civilizações devem ser mais importantes que os indivíduos, porque os indivíduos vivem, cada um, míseros setenta anos e o grupo pode durar séculos. Mas para o cristão, indivíduos são mais importantes, pois eles vivem eternamente; e raças, civilizações etc. são, em comparação, criaturas de um dia.
O cristão e o materialista têm crenças diferentes sobre o universo. Eles não podem estar ambos certos. Quem estiver errado agirá de uma forma que não se adequa ao universo real. Conseqüentemente, com a melhor das boas intenções do mundo, ele estará ajudando seus semelhantes a se destruírem.
Com a melhor das boas intenções do mundo ... então não será culpa sua. Certamente Deus (se houver um Deus) não punirá um homem pelos seus erros “honestos”? [2] Mas isso era tudo o que você pensava? Você está preparado para correr o risco de trabalhar no escuro em toda a sua vida e fazer um infinito mal, desde que alguém nos assegure que nossa própria pele estará a salvo, que ninguém nos punirá ou nos culpará? Não acreditarei que o leitor está neste nível. Mas mesmo se estiver, há algo a ser dito.
A questão diante de nós não é “Alguém pode ter uma boa vida sem o cristianismo?”. A questão é, “Você pode?” Todos sabemos que tem havido bons homens que não foram cristãos; homens como Sócrates e Confúcio que nunca ouviram falar de cristianismo, ou homens como J.S. Mill que muito honestamente não poderia nele acreditar. Suponha que o cristianismo seja verdadeiro. Esses homens estavam numa ignorância ou erro honesto. Se suas intenções fossem tão boas quanto suponho (pois, claro, não posso ler os segredos de seus corações) espero e acredito que a misericórdia de Deus remediará os males que suas ignorâncias, deixadas a si mesmo, naturalmente produziriam em si próprios e naqueles que eles influenciaram. Mas o homem que me pergunta, “Não posso viver uma boa vida sem acreditar no cristianismo?” não está na mesma posição. Se ele não tivesse tido notícia do cristianismo ele não estaria formulando essa questão. Se, tendo tido dele notícia, e o tendo considerado seriamente, ele tivesse decidido que ele não era verdadeiro, então, novamente, ele não estaria formulando a questão. O homem que formula a questão ouviu falar do cristianismo e não está certo, de forma alguma, de que ele não seja verdadeiro. Ele está realmente perguntando, “Será que eu preciso me preocupar com ele? Será que eu não posso apenas esquecer a coisa, sem cutucar a onça com a vara curta, e simplesmente me preocupar com a parte ‘boa’? Não são as boas intenções suficientes para me manter seguro e sem culpa, sem a necessidade de bater naquela temerária porta e ter de verificar quem estará, ou não, lá dentro?”
Para tal homem, pode ser suficiente responder que ele está realmente pedindo para ficar com a parte ‘boa’ antes de ele ter feito o melhor de si para descobrir o que ‘boa’ significa. Mas essa não é toda a estória. Não precisamos perguntar se Deus o punirá por covardia ou preguiça; ele próprio se punirá. O homem está se esquivando. Ele está tentando deliberadamente não saber se o cristianismo é verdadeiro ou falso, porque ele prevê problemas sem fim se ele se provar verdadeiro. Ele se parece com o homem que deliberadamente se ‘esquece’ de consultar a lista de tarefas do dia porque, se o fizesse, poderia encontrar seu nome relacionado a alguma tarefa desagradável. Ele se parece com o homem que não verifica sua conta bancária porque teme o que possa descobrir lá. Ele se parece com o homem que não vai ao médico quando uma misteriosa dor aparece, porque teme o que o doutor pode lhe contar.
O homem que permanece um incréu por tais razões não está na situação de um erro honesto. Ele está numa situação de erro desonesto, e essa desonestidade se difundirá por todos os seus pensamentos e ações: uma certa volubilidade, uma vaga preocupação no fundo de sua mente, um embotamento de toda a sua sutileza mental, resultará. Ele terá perdido sua virgindade intelectual. Rejeição honesta de Cristo, embora seja um erro, será perdoado ou curado – “Todo aquele que falar contra o Filho do Homem, ser-lhe-á dado perdão.” [3] Mas evitar o Filho do Homem, olhar para o outro lado, fazer de conta que você não O notou, ficar repentinamente absorvido com algo do outro lado da rua, deixar o telefone fora do gancho porque pode ser Ele do outro lado da linha – isso é uma coisa muito diferente. Você pode não estar certo ainda se deve ser um cristão; mas você sabe muito bem que deve ser um Homem, não uma avestruz, escondendo sua cabeça na areia.
Mas mesmo assim – pois a honra intelectual desceu a um nível muito baixo em nossos dias – escuto alguém lamuriando com a questão, “Ele me ajudará? Ele me fará feliz? Você pensa mesmo que minha situação melhorará se me tornar cristão?” Bem, se você precisa mesmo de minha resposta, ela é “Sim.” Mas eu não gostaria de dar uma resposta neste ponto. Eis aqui a porta atrás da qual, segundo alguns, o segredo do universo está esperando por você. Ou isso é verdade ou não é. E se não for, então o que a porta realmente esconde é simplesmente a maior fraude, a maior empulhação jamais registrada. Não é, obviamente, tarefa de todo homem (um homem, não um coelho) tentar descobrir o que está atrás da porta e, então, se devotar com todas as suas energias a obedecer e honrar esse tremendo segredo ou a expor e destruir essa gigantesca impostura? Desafiado por tal situação, poderá você permanecer totalmente absorvido com seu próprio abençoado ‘desenvolvimento moral’?
Certo, o cristianismo lhe fará bem – muito mais do que você alguma vez desejou ou esperou. E o primeiro pedacinho de bem que ele lhe fará é martelar em sua cabeça (e você não gostará disso!) o fato de que o que você até agora chamou de “bom” – tudo aquilo sobre “ter uma vida decente” e “ser bom” – não é bem o acontecimento magnificente e da maior importância que você supunha. Ele lhe ensinará que, de fato, você não poderá ser ‘bom’ (não por vinte e quatro horas) contando apenas com seus próprios esforços morais. E então ele lhe ensinará que mesmo que você pudesse, você ainda não teria atingido o propósito pelo qual foi criado. A mera moralidade não é o fim da vida. Você foi feito para algo muito diferente. J.S. Mill e Confúcio (Sócrates estava muito mais próximo da realidade) simplesmente não sabiam o que significa a vida. As pessoas que continuam a perguntar se não se pode ter uma vida decente sem Cristo, não sabe o que é a vida; se eles soubessem, eles saberiam que ‘uma vida decente’ é um mero mecanismo comparado com a coisa de que nós homens somos feitos. A moralidade é indispensável: mas a Vida Divina, que se dá a nós e que nos convida a ser deuses, planeja algo para nós em que a moralidade será nele absorvida. Temos de ser re-feitos. Todo o coelho que existe em nós desaparecerá – o coelho preocupado, escrupuloso e ético e também o covarde e sensual. Sangraremos e guincharemos na medida que punhados de pêlos forem arrancados; e então, surpreendentemente, descobriremos por sob o pêlo uma coisa que nunca antes imaginamos: um Homem real, um deus imemorial, um filho de Deus, forte, radiante, sábio, bonito e imerso em alegria.
“Mas quando vier o que é perfeito, será abolido o que é imperfeito” [4] A idéia de atingir ‘uma vida boa’ sem Cristo é baseada num duplo erro. Primeiramente, não podemos tê-la; e em segundo lugar, ao estabelecer ‘uma vida boa’ como nosso objetivo, perdemos a verdadeira razão de nossa existência. A moralidade é uma montanha que não podemos subir por nossos próprios esforços; e se pudéssemos, apenas pereceríamos no gelo e no ar irrespirável do cume, na falta daquelas asas com as quais o resto da jornada terá de ser empreendida. Pois é de lá que a ascensão real começa. As cordas e os machados ‘já eram’ e o resto é uma questão de voar.

Extraído do livro God in the dock [Deus no banco dos réus.] de
C.S. Lewis.

[1] A primeira frase da Metafísica de Aristóteles é “Πάντες ἄνθρωποι τοῦ εἰδέναι ὀρέγονται φύσει.” [Todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer.] (N. do T.)

[2] A expressão aqui é ‘honest error’ que tem a acepção de erro involuntário, mas também do produto de um esforço honesto de entendimento que, no entanto, está marcado pelo erro. (N. do T.)

[3] Lucas, XII, 10.

[4] I Cor. XIII, 10.

Fonte
: http://angueth.blogspot.com/2007/09/homem-ou-coelho.html

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Honras a Mãe de Deus


Abaixo está um belo discurso de São Cirilo de Alexandria durante o Concílio de Éfeso para combater o herege Nestório, o negador da dignidade de Maria:

"Salve, ó Maria, Mãe de Deus, virgem e mãe, estrela e vaso de eleição! Salve, Maria, virgem, mãe e serva: virgem, na verdade, por virtude daquele que nasceu de ti; mãe, por virtude que cobriste com panos e nutriste em teu seio; serva, por aquele tomou de servo a forma! Como Rei, quis entrar em tua cidade, em teu seio, e saiu quando lhe aprouve, cerrando para sempre sua porta, porque concebesse sem concurso de varão, e foi divino teu parto."
"Salve Maria, templo santo, como o chama o profeta Daví, quando diz: "O teu templo é santo e admirável em sua justiça" (SlLXIV, 6)
"Salve Maria, criatura mais preciosa da criação; salve, Maria, puríssima pomba; salve, Maria, lâmpada inextinguível; salve, porque de ti nasceu o sol de justiça".
"Salve, Maria, morada da infinitude, que encerraste em teu seio o Deus infinito, o Verbo unigênito, produzindo sem arado e sem semente a espiga incorruptível!"
"Salve, Maria, mãe de Deus, aclamada pelos profetas, bendita pelos pastores, quando, com os anjos, cantaram o sublime hino de Belém: "Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade" (Lc. II, 14).
Salve, Maria, Mãe de Deus, alegria dos anjos, júbilo dos arcanjos que te glorificam no céu!"
"Salve, Maria, Mãe de Deus: por ti adoraram a Cristo os Magos guiados pela estrela do Oriente;
salve, Maria, Mãe de Deus, honra dos apóstolos!"
"Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem João Batista, ainda que no seio de sua mãe, exultou de alegria, adorando como luzeiro a perene luz!"
"Salve, Maria, Mãe de Deus, que trouxesse ao mundo graça inefável, da qual diz São Paulo: "apareceu a todos os homens a graça de Deus salvador" (Tt. II, 1).
"Salve, Maria, Mãe de Deus, que fizesse brilhar no mundo aquele que é luz verdadeira, a nosso Senhor Jesus Cristo, que diz em seu Evangelho: "Eu sou a luz do mundo" (Jo. VIII, 12).
"Deus te salve, Mãe de Deus, que alumiaste aos que estavam nas trevas e sombras de morte; porque o povo que jazia nas trevas viu uma grande luz (Is. IX,2), uma luz não outra senão Jesus Cristo, nosso Senhor, luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a esse mundo (Jo. I, 9).
"Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem se apregoa no evangelho: "bendito que vem em nome do Senhor" (Mt. XXI, 9), por quem se encheram de igrejas nossas cidades, campos e vilas ortodoxas!"
"Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem veio ao mundo o vencedor da morte e o destruidor do inferno!"
"Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem veio ao mundo o autor da criação e o restaurador das criaturas, o Rei dos Céus!"
"Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem floresceu e refulgiu o brilho da ressurreição!" "Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem luziu o sublime batismo da santidade no Jordão!"
"Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem o Jordão e o batista foram santificados e o demônio foi destronado!"
"Salve, Maria, Mãe de Deus, por quem é salvo todo espírito fiel!"


(São Cirilo de Alexandria, PG. LXXVII, 1029 -1040, apud C. Folch Gomes, Antologia dos Santos Padres, ed. Paulinas, São Paulo, 1973, pp.389-390)

Trecho retirado de :
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cartas&subsecao=apologetica&artigo=20040827093000&lang=bra

sábado, 1 de setembro de 2007

Tende sal em vós mesmos

Concede-me, Deus misericordioso,
que deseje com ardor o que Tu aprovas,
que o procure com prudência,
que o reconheça em verdade,
que o cumpra na perfeição,
para louvor e glória do Teu nome.

Põe ordem na minha vida, ó meu Deus,
e permite-me que conheça o que Tu queres que eu faça,
concede-me que o cumpra como é necessário
e como é útil para a minha alma.

Concede-me, Senhor meu Deus,
que não me perca no meio da prosperidade
nem da adversidade;
não deixes que a adversidade me deprima,
nem que a prosperidade me exalte.

Que nada me alegre ou me entristeça
para além do que conduz a Ti
ou de Ti me afasta.
Que eu não deseje agradar nem receie desagradar a ninguém,
exceto a Ti.

S. Tomás de Aquino (1225-1274), teólogo dominicano, doutor da Igreja

S. Tomás de Aquino - "Tende sal em vós mesmos"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=oracoes&subsecao=diversas&artigo=tende_sal〈=bra Online, 02/09/2007 às 00:39h

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

A Fé e suas fontes - Perte III


As Duas Fontes da Revelação – Tradição Divina e Sagrada Escritura

Chamamos de Fonte da Revelação o lugar onde se recolhe, sem possibilidade de erro, a Revelação divina.

  • A Tradição divina é a fonte Primária da Revelação.
  • A Sagrada Escritura ou Bíblia é a fonte Secundária da Revelação.

Tradição = algo transmitido por Deus.

A Divina Tradição é fonte da Revelação porque por ela se conserva e é transmitida pela Igreja, desde os Apóstolos, as verdades e as coisas ensinadas por Deus. Assim, nela está contida a palavra de Deus transmitida.

Ela é chamada fonte primária porque, antes de mais nada e por si só, foi ordenado por Nosso Senhor que fosse transmitida e conservada pela pregação oral. “Ide, pregai este Evangelho”. “Vos transmiti o que recebi... vos preguei o que recebestes para que não acrediteis em vão... Tal a nossa pregação tal a vossa fé”. (ICor., 15). A conservação da Divina Tradição só podia ser garantida por Deus, pois aquele que a constitui também a conserva.

Em que consiste a Tradição:

Ela engloba verdades:

  • explicitamente presentes nas Sagradas Escrituras – ex. a divindade de Cristo
  • implicitamente presente nas Sagradas Escrituras – ex. a assunção de Nossa Senhora.
  • não presentes nas Sagradas Escrituras – ex. forma e matéria de alguns sacramentos.

Em que não consiste a Tradição:

  • não é a Tradição apostólica – verdades oriundas dos apóstolos. Ex. certos ritos secundários
  • não é a Tradição eclesiástica – verdades oriundas da pregação da Igreja. Ex. o hábito eclesiástico.

Devemos constatar a existência de uma Tradição divina, doutrinária e moral, revelada aos homens de modo certo e infalível, por modo de pregação, que sob a responsabilidade de instituições fundadas por Cristo, a Igreja e seu magistério hierárquico, sempre foi transmitida e confirmada, formando um conjunto de documentos dos Apóstolos, dos Papa, dos Concílios, ou ainda, em grau menor, dos Santos Doutores, teólogos, artistas e escritores. Este Depósito Sagrado é garantia da nossa fé e sempre se manteve intacto, até que sofreu os mais rudes ataques, pelos inimigos da Igreja, no Concílio Vaticano II (1962-1965).

Destaques nossos. Texto completo: http://www.capela.org.br/Catecismo/fontes1.htm

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Próxima Reunião...


Caros Amigos,
Salve Maria!

Confirmada próxima reunião do Grupo de Estudo Veritas.

  • Data: 26.08.2007 (Domingo)
  • Hora: 16h da tarde
  • Local: ICM - Manaus.

Tema: Organização do Grupo de Estudo para Organizar Novos Eventos e Enfrentar Novos Desafios. Como:
  • Trazer a Missa Tridentina para Manaus
  • Trazer a Palestra do Prof. Orlando Fedeli para Manaus
Contamos com a presença de todos, é de suma importância!

Obrigado,
GdEV.

Santo Tomás de Aquino, rogai por nós.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

HOMILIA DO PAPA NA SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DA VIRGEM MARIA


HOMILIA DO PAPA BENTO XVI
NA CELEBRAÇÃO DA SANTA MISSA
NA SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO
DA BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA

Castel Gandolfo, 15 de Agosto de 2007

Caros irmãos e irmãs

Na sua grande obra "A Cidade de Deus", Santo Agostinho diz uma vez que toda a história humana, a história do mundo, é uma luta entre dois amores: o amor de Deus até à perda de si mesmo, até ao dom de si próprio, e o amor de si até ao desprezo de Deus, até ao ódio pelos outros. Esta mesma interpretação da história como luta entre dois amores, entre o amor e o egoísmo, aparece também na leitura tirada do Apocalipse, que agora ouvimos.

Aqui, estes dois amores aparecem em duas grandes figuras. Em primeiro lugar, há o dragão vermelho, fortíssimo, com uma manifestação impressionante e inquietadora do poder sem a graça, sem o amor, do egoísmo absoluto, do terror e da violência. No momento em que São João escreveu o Apocalipse, para ele este dragão realizava-se no poder dos imperadores romanos anticristãos, de Nero a Domiciano. Este poder parecia ilimitado; o poder militar, político, propagandístico do império romano era tal, que diante dele a fé, a Igreja, parecia-se com uma mulher inerme, sem possibilidade de sobreviver, e muito menos de vencer. Quem podia opor-se a este poder omnipresente, que parecia capaz de realizar tudo? E no entanto, sabemos que no final venceu a mulher inerme, não venceu o egoísmo, nem o ódio; venceu o amor de Deus, e o império romano abriu-se à fé cristã.

As palavras da Sagrada Escritura transcendem sempre o momento histórico. E assim, este dragão indica não apenas o poder anticristão dos perseguidores da Igreja daquela época, mas também as ditaduras materialistas anticristãs de todos os períodos. Vemos de novo realizado este poder, esta força do dragão nas grandes ditaduras do século passado: a ditadura do nazismo e a ditadura de Stalin tinham todo o poder, penetravam todos os ângulos, o último ângulo. Parecia impossível que, a longo prazo, a fé pudesse sobreviver diante deste dragão tão forte, que queria devorar o Deus que se fez Menino, e a mulher, a Igreja. Mas na realidade, também neste caso no final o amor foi mais forte do que o ódio.

Também hoje existe o dragão, de modos novos, diversos. Existe na forma das ideologias materialistas, que nos dizem: é absurdo pensar em Deus; é absurdo observar os mandamentos de Deus; é algo de um tempo passado. Somente é válido levar a vida em si mesma. Tomar neste breve momento da vida tudo aquilo que é possível. Só valem o consumo, o egoísmo e a diversão. Esta é a vida. Assim devemos viver. E de novo, parece absurdo, impossível, opor-se a esta mentalidade predominante, com toda a sua força mediática, propagandista. Hoje parece impossível que ainda se pense num Deus que criou o homem e que se fez Menino, e que seria o verdadeiro dominador do mundo.

Também agora este dragão parece invencível, mas inclusive agora é verdade que Deus é mais forte que o dragão, que vence o amor, e não o egoísmo. Tendo assim considerado as diversas configurações históricas do dragão, agora vemos outra imagem: a mulher revestida de sol, tendo a lua aos seus pés, circundada por doze estrelas. Também esta imagem é multidimensional. Um primeiro significado, sem dúvida, é que é Nossa Senhora, Maria totalmente revestida de sol, ou seja, de Deus; Maria que vive totalmente em Deus, circundada e penetrada pela luz de Deus. Circundada pelas doze estrelas, isto é, pelas doze tribos de Israel, por todo o Povo de Deus, por toda a comunhão dos santos, tendo aos pés a lua, imagem da morte e da mortalidade. Maria deixou atrás de si a morte; está totalmente revestida de vida, tendo sido elevada em corpo e alma à glória de Deus, e assim, posta na glória, tendo ultrapassado a morte, diz-nos: ânimo, no fim vence o amor! A minha vida consistia em dizer: sou a serva de Deus, a minha vida eram dom de mim mesma, por Deus e pelo próximo. E agora esta vida de serviço chega à verdadeira vida. Tende confiança, tende a coragem de viver assim também vós, contra todas as ameaças do dragão.

Este é o primeiro significado da mulher, que Maria chegou a ser. A "mulher revestida de sol" constitui o grande sinal da vitória do amor, da vitória do bem, da vitória de Deus. Um grande sinal de consolação. Mas depois esta mulher que sofre, que deve fugir, que dá à luz com um brado de dor, é também a Igreja, a Igreja peregrina de todos os tempos. Em todas as gerações, ela deve dar de novo à luz Cristo, levá-lo ao mundo com grande dor deste modo doloroso. Perseguida em todos os tempos, ela vive quase no deserto, vítima do dragão. Mas em todos os tempos a Igreja, o Povo de Deus, vive também da luz de Deus e, como diz o Evangelho, é alimentado em si mesmo com o pão da Sagrada Eucaristia. E assim em toda a tribulação, em todas as diversas situações da Igreja ao longo dos tempos, nas diversas regiões do mundo, sofrendo, vence. E é a presença, a garantia do amor de Deus contra todas as ideologias do ódio e do egoísmo.

Vemos certamente que também hoje o dragão quer devorar Deus, que se fez Menino. Não tenhais medo deste Deus aparentemente frágil. A luta já é algo ultrapassado. Ainda hoje este Deus frágil é forte: é a verdadeira força. E assim a festa da Assunção é o convite a ter confiança em Deus, e é também um convite a imitar Maria naquilo que Ela mesma disse: eu sou a serva do Senhor, e ponho-me à disposição do Senhor. Esta é a lição: percorrer o seu caminho; dar a nossa vida e não tomar a vida. E precisamente assim, percorremos o caminho do amor, que é um perder-nos, mas um perder-nos que na realidade é o único caminho para nos encontrarmos verdadeiramente a nós mesmos, para encontrarmos a verdadeira vida.

Contemplemos Maria, a Assunta. Deixemo-nos encorajar para a fé e para a festa da alegria: Deus vence. A fé aparentemente frágil é a verdadeira força do mundo. O amor é mais forte que o ódio. E digamos com Isabel: bendita sois Vós entre todas as mulheres. Pedimos-te juntamente com toda a Igreja: Santa Maria, orai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte!

Amém.

Fonte: Vaticano.

Seja Bem-Vindo(a) ao Blog do Grupo de Estudo Veritas !

Contra a verdade não temos poder algum; temo-lo apenas em prol da verdade.(II Coríntios 13,8)